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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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quinta-feira, 26 de maio de 2016





Na mesma semana em que o ministro (interino) da educação escolheu como seu conselheiro-mor um ator pornô, cujo discurso e cujos atos representam uma temível faceta do homem nacional, na mesma semana, uma jovem de 16 anos foi estuprada por trinta rapazes no Rio de Janeiro. Sim, o ator, disse o ministro, é um homem normal, comum. E a autoridade não tem “preconceito”. Muitos pensaram o mesmo em relação aos trinta do Rio. Os trinta do Rio pensaram o mesmo de si próprios.
Ao receber o ator, o ministro legitimou o personagem, com direito a selfie e tudo. O ministro fez do ator um cidadão comum, um homem “de bem”. Aprovou suas práticas, acolheu suas ideias. Simbolicamente, imputou-lhe valor. Talvez o ministro não tenha se dado conta, mas o ato é uma espécie de recado à sociedade. Ao receber o ator, o ministro fez o mesmo que aquela plateia que o aplaudiu em rede nacional, enquanto ele contava, em detalhes, como estuprou uma mãe-de-santo - finalmente, é o mesmo homem. Os gestos e o palavrório é de dar vômito. O riso frouxo dos espectadores e os incentivos do apresentador em busca desesperada de audiência, amorteceram a gravidade dos fatos. Ao que parece, ninguém se incomodava. Além do interesse hipertrofiado pelo sexo travestido em pornografia (coisa que nos afeta sobremaneira), o relato é corriqueiro, não há dúvida. Muitos machos brasileiros se reconhecem prontamente – sem nenhum pudor - na narrativa da cópula do Frota: “fiquei olhando aquele bundão, falei pô, vou comer”, “ela não falou nada, eu falei: vou pegar”, “aí virei, botei a mãe-de-santo de quatro”, “garrei ela pela nunca”, “comecei a sapecar”, “fiz tanta pressão na nuca da mulher que ela dormiu” etc. etc. etc. Não precisamos de muito para identificar o ritual falocêntrico que objetifica a mulher e que acentua o ideal do homem-garanhão e pegador. Qualquer uma das frases do Frota pode ser facilmente ouvida no ponto de ônibus, no corredor da universidade, na roda da cerveja, no bar, no elevador, na rua. É parte do cotidiano masculino. Coisa de homem. Porção de nossas cegueiras. Coisa banal. Problema nenhum. É parte do jogo. Homem é assim. Mulher é assado. Reclamar disso te faz um moralista, um xiita.
O palavrório a gente aprende desde pequeno. Do berço, o homem nacional (que talvez não seja só brasileiro, eu concedo) aprende que pode tudo. A mãe lhe serve, a irmã lhe assiste. Está tudo a seu favor. No geral, criamos nossos meninos para esse jogo de hierarquias, para seguirem as mesmas regras, sob o risco de serem vítimas de outros preconceitos. No informe do Frota, o macho nacional toma as iniciativas, usa e abusa, soberano. A mulher não fala, não sente, não tem prazer nenhum, desmaia durante o ato, como é próprio daquilo que é só uma coisa. Ela não tem escolha. Agacha-se no meio da sala como um objeto de prazer. Não consente, não tem chance de recusar. Alguns dirão, com a venda do preconceito nos olhos, que ela até gostou. Que ela mereceu. Que ela procurou. Que ela... (A menina do Rio também desmaiou, também não assentiu, também...)
As cenas do Frota (a que ele descreve e as que ele encena) não assustam a plateia porque elas se reproduzem com uma banalidade ululante em todos os cotidianos. Os dados estão aí. Nem ele, nem os trinta do Rio, parecem reconhecer a gravidade de seus atos. Nas redes sociais, os meninos contam vantagem. Celebram a própria barbárie. No gabinete do ministro, o ator pousa de bom mocinho. Na avenida, lutou contra a corrupção e todos os outros vícios, ao lado dos pastores moralistas da Bancada da Bíblia. Tudo normal. Coisa banal. Problema nenhum. Faz parte do jogo. Homem é assim. Mulher é assado. (Aliás, é bom lembrar, tiraram a mulher e não colocaram nenhuma no primeiro escalão do governo: o ministro segue a mesma lógica do presidente interino; até agora, tudo como programado).
O culpado pelo estupro da moça carioca é o macho nacional. Esse estereótipo machista que formula e repete nossas piadas sexistas, nossas propagandas de cerveja, nossas mensagens nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp. Ele está sentado nas nossas mesas, frequenta nossas igrejas, vai nas nossas festas, joga bola conosco, vive dentro de nós. Seus pequenos gestos são sementes de crimes, potenciais da violência, incentivo miúdo da perversidade. É ele que nós precisamos denunciar primeiro. É ele que nós precisamos eliminar, com um esforço diligente e cotidiano.
E por fim, precisamos reconhecer que o macho nacional é um grande frustrado – alguém que o avise, por favor! Não precisamos de muita psicologia para adivinhar seus desgostos. O macho nacional não sabe transar, por isso estupra; e nem sequer experimentou o que é o amor, que é troca, por isso objetifica. Gaba-se do que lhe falta. Espalha seus sucessos como forma de disfarçar seus próprios desequilíbrios. É essa frustração que está implícita em suas atitudes cotidianas. Ele ainda não descobriu que enquanto o sexo for só para ele, imposto e não consensual, ele não será o que deve ser: uma experiência de prazer, de carinho e, sobretudo, de encontro.