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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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segunda-feira, 18 de setembro de 2017








Acho que o sentimento não é só meu: às vezes a gente acorda cedo e parece ter recuado milênios no tempo e milhares de quilômetros no espaço. A notícia de hoje, por exemplo, me levou para os piores dias da Idade Média ou para algum país como a Mauritânia, o Sudão ou a Arábia Saudita, onde a homossexualidade ainda é punida com pena de morte. Isso se chama retrocesso. E suas causas são a desinformação, o preconceito e a discriminação que costumam grassar facilmente com ajuda das canetas de magistrados brasileiros, filhos da elite que sequestrou um dos poderes da pátria para a defesa de seus privilégios.
A decisão da justiça do Distrito Federal, que libera os psicólogos a tratarem a homossexualidade como doença, é desses sinais desoladores de que o Brasil está mesmo no caminho errado. Sobram incongruências e leviandades quando a justiça se rende aos interesses de pessoas moralistas e fundamentalistas que, como em tempos sombrios do passado, pregam purismos à revelia dos valores, com a intenção de esconder suas próprias sujeiras debaixo dos tapetes persas que forram seus foros íntimos.
Contrariando evidências científicas e jurídicas, a decisão representa uma grave violação aos direitos humanos. Além de ser sintoma do preconceito de seus autores, ela é fruto do atraso, da precariedade e da má-fé do magistrado, que ignora inclusive a decisão da Organização Mundial da Saúde, de 1990, que retirou a homossexualidade da lista internacional de doenças.
O que o juiz Waldemar Cláudio de Carvalho autorizou, não foi apenas a pretensa reversão sexual (assunto por si mesmo risível a toda pessoa minimamente esclarecida). O que ele liberou foi o preconceito contra pessoas que são indesejadas socialmente, que se escondem em quartos escuros meramente pelo fato de terem nascido com uma orientação sexual diferente do padrão socialmente aceito. O que esse juiz permitiu, foi a agressão e a violência cotidiana que se alarga no Brasil em índices alarmantes, sob o silêncio da justiça. O que ele tornou legítimo foi a intolerância que faz vítimas diárias, que podem estar em qualquer família brasileira. O que ele autorizou foram procedimentos sem resultado, que provocam sequelas e aumentam o sofrimento psíquico de quem muitas vezes já tem dificuldade de lidar com sua própria condição, com seus desejos constituintes e com seus modos próprios de buscar a felicidade. Por isso, junto com os psicólogos que impetraram a ação, o doutor Waldemar será corresponsável, a partir de hoje, por todos esses atos, pelas vítimas agredidas e assassinadas que caem às centenas no Brasil, esse país que mais mata travestis e transexuais no mundo.
A decisão revela a velha intolerância ao prazer alheio em nome da padronização dos comportamentos, a perseguição às formas de vida e à felicidade de quem vive suas diferenças, algo que agora, além de escondido e proibido, deve ser punido e curado, sabe-se lá a que tipo de terapias e procedimentos obtusos e ultrajosos. O juiz e seu secto de inconformados, retoma, assim, o medo como regra, a negação das identidades, o desespero e a frustração (seria inveja?) contra o prazer alheio, para eles insuportável. A decisão falaciosa dessa gente revela apenas os fantasmas que povoam seus mundos e que agora, eles querem lançar a todo custo sobre a nossa sociedade, sob contornos amadores e malsãos. 
O que esse juiz e sua trupe não sabem – mas deviam saber – é que os gays não são doentes, não precisam de terapia reversiva ou de cura, mas de respeito, reconhecimento, espaço para liberdade de expressão e apoio para que sejam felizes, como todos os demais seres humanos.

       Senhor juiz, pare agora - e pense: quem é que realmente precisa de cura?








sexta-feira, 8 de setembro de 2017




Quando o Vando chegou, nas terras antigas das missões gaúchas, os butiás começavam a florir à espera do verão. Outubro se erguia vigoroso sobre os telhados da Vila Hortêncio. À rua Zildo Eisman, entre a hípica e o carmelo, a gente cresceu livre. Quando era frio, o gelo dos campos quebrava sob os nossos passos depois da longa geada, até que o calor do sol varresse as neblinas para longe, como era costume. Nessa época a gente já brincava de viajar, agarrados pelas camisas: o Vando na direção, a Luciane com o Tito no colo, eu agarrado atrás. A gente ainda não sabia, mas ensaiava o grande destino da família. Um dia um caminhão encostou em frente à nossa casa e alguns homens carregaram a nossa mudança, enquanto minha mãe pedia cuidado com os móveis da cozinha. A gente viajou três dias. A gente não sabia o destino. Vando dizia que estávamos indo para Florianópolis. Na dicção das crianças, Figueirópolis ainda era um vocábulo indizível. Meu pai ria às gargalhadas. A gente só via estrada, estrada e mais estrada.
Quando a gente chegou por aqui, só havia uma rodovia estreita, entre casas e ruas inundadas. A gente cresceu entre as chuvas e as poeiras. No início não foi nada fácil. Minha mãe chorou semanas inteiras, consolada pela experiência das amigas que já haviam ultrapassado aquela dolorida fronteira. A cada ano uma viagem de volta ao sul, um sofrimento infinito, uma vontade de não voltar mais para o norte, uma promessa de vender as coisas e retornar pra casa. Com o tempo, a gente se resignou, criou raízes, encontrou amigos e plantou sementes. O Vando tecia sonhos. Fez curso de mecânica por correspondência, comprou bicicleta, som três em um, relógio de pulso. Quis ser aviador, tocador de viola, fazendeiro. Pras bandas do morro, ele encontrou a Chiei e com ela, não demorou, chegou a Isabella. Mas havia falta de futuro para quem só sabia de terras improdutivas, trabalho duro e colheita escassa. Sem terra, o Vando buscou alternativa no Paraná. Sob os invernos rigorosos de Balsa Nova, a 70 Km de Curitiba, ele plantou cebola e feijão, repolho e milho, semeados com arado puxado pela Cabrita, que apesar do nome, era um égua linda. A Chiei fazia pão e plantava horta. A Isabella observava atenta o crescimento dos eucaliptos, entre o riacho e a casa de madeira azul que se impunha na altura do horizonte. O Ivanzinho nasceu e foi tudo festa durante 8 anos. A gente fazia projetos nas noites extensas e não havia nenhuma distância entre os nossos corações, embora voltar para o Tocantins fosse um sonho comum.
Na volta, o Vando continuou sonhando aquele tipo de sonho estranho que a gente sonha na ponta dos dedos, no calo das mãos, nas unhas sujas de terra e graxa. O Vando sonhou como poucos esses sonhos madrugueiros, de quem perde feriado, festa de família e ano novo para plantar roça, reformar trator, montar colheitadeira. Pele queimada pelo sol, jeito matreiro, entre rústico e rígido, meio bravo e selvático, ele frequentava esse mundo desconhecido de fazendas, matas, morros, rios e silêncios, sem nenhuma vaidade, sem nenhum luxo, mas cheio das indizíveis forças cujas fontes, ignoradas, a gente vai buscar para sempre.  Inquebrável, esse menino de troncos, rodas e ferramentas, deixou a lição mais limpa e fundamental: a lição do trabalho, da dedicação, da honestidade, da simplicidade e de todas as suas suficiências. Com ele, a gente aprendeu a questionar os próprios ideais, para dar preferência ao essencial de um broto crescido no meio da pedra seca.
Agora que estamos esperando de novo a chuva e que essa terra estranha tornada nossa, abraça o nosso irmão com a leveza de eternidades, a gente seca as lágrimas na certeza de que não morre quem plantou na terra as sementes da esperança, mas ganha um céu pra plantar inteiro. Porque nós sabemos que o Vando, aqui no Tocantins, não morreu como um estrangeiro, mas como um filho da terra, entre as flores singelas do cerrado que ele tanto amou, nós agradecemos aos amigos que enviaram mensagens de condolência e acompanham a nossa dor. A tragédia da última sexta-feira acordou em nós o amor que vamos dedicar ao Vando pra eternidade. Nossa vida, a partir de agora, será uma homenagem a esse menino de mil olhos, que viu tantos horizontes quanto o coração humano pode suportar e que, afinal, deixou seu corpo espalhado na rodovia para viajar além do espaço e do tempo, plantando cada uma das estrelas que cintilam nas noites nossas, entre a saudade e a espera. Sim Vando, “Uberaba e Uberlândia já ficaram pra trás”. O mundo ficou pequeno demais pras nossas viagens infinitas. Você foi muito depressa, mas a gente continua viajando juntos. Vamos prestar mais atenção na estrada, embora ainda falte sinalização na rodovia, embora ainda haja imprudência e descaso, embora ainda seja urgente evitar que outras mães, filhos e esposas chorem as mesmas lágrimas que nós.





segunda-feira, 21 de agosto de 2017


Foto divulgada pela professora no seu perfil no Facebook.



Prezada professora Márcia Friggi,

Hoje vimos suas fotos e as palavras alarmantes que a senhora escreveu para compor essa história de ódio que hoje foi sua, mas que, infelizmente, tem sido a de muitos de nossos colegas ao redor da pátria que era para ser educadora e que agora, fatidicamente, cede ao pior dos venenos. Como professora de língua portuguesa, a mais básica das nossas competências, a senhora ensina o diálogo, a tolerância e o deleite das letras e dos seus conteúdos. Hoje, contudo, a sua palavra traduziu o nosso eclipse, a amargura de nossas letras, quando o vocábulo dá lugar à agressão, a voz e a escrita à ferocidade do grito, a compreensão à ofensa.
Todos estamos dilacerados. Os ferimentos no seu rosto, o sangue gotejado sobre o piso, o xingamento que ressoa nos seus ouvidos, o misto de indignação e pena que emana das suas palavras são o sinal mais evidente da crise moral que afeta a nossa sociedade. Em cada uma das suas fotos a gente vê não apenas a cólera desmedida de nossa juventude, mas a violência obscena pregada por nossos políticos, a violência doméstica, o assédio e a agressão contra as mulheres, a hostilidade de cidadãos comuns que saem às ruas pregando o ódio de forma despudorada e o descaso do governo que celebra seus conchavos com o sangue do povo. Revolta-se contra você uma juventude sem valor, vítima de sua própria arrogância, da falta de limite e do descaso de quem fecha os olhos para a obviedade do problema. Em você, vinga-se de um sistema inteiro. Afronta-se a própria vida pobre e insolente, com a petulância e o desrespeito de quem insulta toda e qualquer autoridade. Golpeia-se o perigo que a senhora representa: as exigências de valor, o testemunho de verdade, as tentativas de alterar o rumo dos caminhos que parecem – e que, para muitos, deviam ser e permanecer – imutáveis.
A dor, contudo, é sua. E ela há de perdurar para além das cicatrizes. Partilho, por isso, seu desamparo. Choro as mesmas lágrimas de cada professor ao redor do país que essa noite dormirá com o coração apertado pelo desespero. Todos estamos feridos. Nossas vidas dedicadas ao ensino, nossas horas planejando aulas, pesquisando, esboçando exercícios, corrigindo provas... o sentido de tudo isso parece se esgotar em cada golpe sofrido pela senhora, diante dos quais nossos inumeráveis esforços parecem vãos e ineficazes. É isso o que torna o seu um caso de profundo sentido político. Ele é fruto dessa crise desastrosa cujo pior sintoma é o nosso próprio desânimo, fundido à nossa revolta e lubrificado pela nossa decepção diante das tendências perversas que nos afundam na lama mais deletéria.
Haverá, contudo, cara colega professora, uma manhã de sol para além dessa noite escura. Um novo texto escrito em folha branca, com palavras tão inéditas e brilhantes que servirão para inventar uma nova história, para além das nossas lesões. A senhora mesmo, na sua mensagem, parece acreditar nisso. Sim, haverá um sentimento comum de indignação e de justiça, não apenas contra o autor dos golpes, mas também contra quem o anima, contra as fontes de sua energia, contra o silêncio culpado de quem olha com desdém para a escola pública, esse depósito do feio e do descartável. A negligência haverá de ceder à responsabilidade. A omissão e a indiferença haverão de dobrar-se ao compromisso e ao encargo que é de toda a sociedade. É urgente que o atentado vivido pela senhora hoje em Indaial não seja apenas uma visita à terra do medo na qual se transformaram muitas de nossas salas de aula, mas à região da esperança, onde estão plantados muitos corações – como o meu, o seu e o da maioria de nossos colegas professores.
Amanhã todos/as daremos aulas em sua homenagem.