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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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quarta-feira, 5 de julho de 2017







Venho de família de pecuaristas. Meu pai, antes de ter ou desejar terra para semente, sonhou com bichos. Não lembro de ter vivido em um lugar que não tivesse por perto algum tipo de ave, suíno ou bovino. Não que eu tenha vivido na roça, mas a roça sempre viveu em mim. Acho que muito antes de eu ter me encontrado com o Drummond de Boitempo, eu já sabia, por experiência própria, das coisas que ele escreveu: Entardece na roça/ de modo diferente./ A sombra vem nos cascos,/ no mugido da vaca/ separada da cria./ O gado é que anoitece/ e na luz que a vidraça/ da casa fazendeira/ derrama no curral/ surge multiplicada/ sua estátua de sal,/ escultura da noite. [...] No gado é que dormimos/ e nele que acordamos. Os bichos, contudo, estavam na minha vida sempre distantes, na sua vida de bicho, com uma presença oblíqua. À exceção de meu cachorro Totó, que ficou como mito dos dias primaveris de minha infância invernal no interior do Rio Grande do Sul, lembro dos bichos como uma presença incômoda.
Outro foi o caso da minha sobrinha, Isabella, que amava uma galinha vermelha fujona e barulhenta. O bicho, como se sabe, tem ares ancestrais, cacareja à beça e revira vasos e canteiros como uma topeira marsupial. Toda pena, pés e bico, não simpatiza com insetos e nem com brotações. Tem gosto pelo terreiro como ninguém. Isabella, por isso, deu de amar um bichinho de difícil personalidade o amor é mesmo um sentimento estranho. Fato é que um dia, porque era chegada a hora da Gumercinda (provavelmente galinha tem seu destino traçado em algum lugar, como alguns humanos) e por falta de opção para o almoço, o bicho foi pra panela. Isabella, como se deduz, chorou abundante e nunca mais comeu carne de ave. Enterrou as penas da galinácea fêmea entre as rosas despedaçadas.
Lembrei da Isabella quando assisti, essa semana, o filme Okja, do sul-coreano Bong Joon-ho (Netflix). O filme, não apenas toca em uma questão central do nosso tempo (a indústria alimentícia e os horrores sofridos pelos animais nos locais de confinamento), como o faz de uma maneira poética, infantil. A metáfora amorosa serve de fio condutor para uma trama carregada de mensagens a favor dos direitos dos animais, denunciando todas as verdades indigestas que estão ligadas à criação e matança de nossa comida. No filme, o bicho adorável, alterado geneticamente (ou seja, biotecnologicamente) e apresentado na forma de uma superporca, contrasta com a rudeza da vida rural de uma menina que, sendo humana, mantém uma proximidade com Okja que quebra as antigas barreiras entre gente e bicho. Bicho parece gente; gente parece bicho. Nenhum tem medo do outro. Mikha é como o Emílio de Rousseau: inteiramente educada pela natureza, entre plantas, animais e cachoeiras. Ela e seu avô, naqueles confins do mundo, sintetizam o ser humano em estado de natureza, entre arrozes e legumes, longe dos vícios da sociedade carnívora (ou carniceira?), marcada pelo avanço capitalista da indústria alimentícia, seus sangues, seus venenos e suas febres. Natureza e civilização, essas antigas oposições, comparecem no filme como inconciliáveis. O verde da vida bucólica das montanhas sul-coreanas contrasta com o cinza da cidade, monótona, consumista, ocupada, repleta de gente querendo comer bicho. No meio está o amor de uma criança pelo seu animal.
O filme é um soco no estômago. Embora haja muita distância entre a galinha da Isabella e a superporca de Mikha, principalmente por causa da criação industrial baseada na alteração genética do segundo caso e do seu inverso, o cage-free do primeiro, a lição dessas meninas é a mesma. Comprimidos, deformados, drogados, estressados e abatidos, os animais que chegam às nossas mesas reivindicam seu direito próprio. Não são eles, afinal, sujeitos sensientes? Não devíamos amá-los e protegê-los? Veja o filme e tente pensar nisso... E se quiser se aprofundar, leia o livro Filosofia animal: humano, animal, animalidade, que eu organizei no ano passado (jelsono@yahoo.com.br).










sexta-feira, 14 de abril de 2017


IMAGEM:
http://osentendidos.revistaforum.com.br/2016/07/27/existe-futuro-para-identidade-gay/ 

A frase foi escrita em panfletos e distribuída pela vizinhança como recepção a um casal homoafetivo que está se mudando para uma rua de Curitiba. Mas não pense que ela é bem-intencionada. Ao contrário, foi usada como injúria e insulto, junto a outras barbaridades que não escondem as taras e o desequilíbrio do seu autor. O texto é um bom exemplo do quanto a alegria continua perigosa e o amor, condenável. Pensa, o imbecil, que a orientação sexual de cada um é assunto público e que o sexo é depravação contra a qual resta aos puros de coração guardar-se desses pretensos abusos encobrindo os olhos e ouvidos de crianças indefesas. Acha, o energúmeno, que a caminhada matinal de dois homens que se amam pode perverter a sociedade, a ordem e os bons costumes. Acredita, o pateta, que essas coisas existem e que são tão frágeis que o mero passeio dos vizinhos pela rua poderia afetá-las decididamente.
O pior, contudo, é que esse desequilibrado supõe que a alegria deve ser recriminada, proibida e convertida em crime público. Ainda mais se ela vier acompanhada de algum ato de carinho. Seu desejo, ao que parece, é reduzir o mundo à seriedade rangente de suas engrenagens de ódio e intolerância. Ao retilíneo azedo de suas crenças. Ao pavor de seus panfletos. Ao sinistro de suas ideias preconceituosas, descabidas, ultrapassadas.
Ao que consta, a palavra gay, em quase todas as línguas, fala do que é alegre, jovial, impetuoso, entusiasmado. No bairro Água Verde, dessa parte vergonhosa da tal república de Curitiba, cada dia mais intolerante e fascista, a palavra foi transformada em um xingamento. Não fosse a gravidade do ato, tudo seria risível. Mas também aqui a alegria precisa ser levada a sério.
Quando minha amiga Marcella Lopes Guimarães e eu escrevemos o Diálogo sobre a alegria” *, lançado no mês passado, nós chamamos a atenção para a importância de refletir sobre esse assunto e para a múltipla história de censura que o tema acumulou ao longo dos tempos. A alegria, ao que parece, continua incomodando. Mas o que mais incomoda é que os deputados BBB (Bala, Boi e Bíblia), eles mesmos, cujos nomes derramam-se em listas e mais listas de corrupção, não tenham aprovado uma lei capaz de tipificar a homofobia como crime. Negam-se a garantir o direito àqueles que só querem viver alegremente. E porque esses políticos escarram suas palavras de ódio diariamente sob aplauso de muita gente de bem, o asno do Água Verde haverá de repetir seus impropérios e outros o seguirão, fazendo do Paraná um dos Estados onde mais se mata homossexuais do Brasil, junto com São Paulo, Rio e Minas Gerais.

Agora que o sábado de aleluia se aproxima e que a alegria da páscoa deveria reinar, eu temo pelas crianças que nascem nessa rua do Água Verde. Temo pelos jovens que habitam, silenciados, as suas esquinas. Pelas gentes indefesas que se escondem do ódio atrás de portas fechadas. Temo profundamente pelo cárcere sombrio onde querem que elas permaneçam. Temo pelo amor que lhes é negado. Pelo que elas poderão sofrer caso pretendam seguir sua orientação sexual. Temo pelas dores que gente como esse palerma pode causar a elas. Temo pela privação de alegria que esse confinamento provoca. Temo pelo silêncio dos outros. Temo pelas sombras que ainda impedem que a alegria ilumine nossas ruas. 

PUCPRESS, 2016 (http://www.livrariacultura.com.br/p/livros/filosofia/dialogo-sobre-a-alegria-46491061).