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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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quinta-feira, 24 de maio de 2018






            Ninguém, é fato. Ninguém elegeu o projeto político-econômico em vigor. Ninguém deu um único voto para a reforma trabalhista, a reforma previdenciária, o desmantelamento dos serviços públicos e das políticas de distribuição de renda; ninguém votou para que o combustível subisse de preço, as universidades fossem sucateadas e a saúde vivesse uma crise sem precedentes. Nenhum voto elegeu o governo que aprovou leis que beneficiaram os latifundiários, contra os indígenas, os sem terra, as comunidades tradicionais e, principalmente, contra o meio-ambiente. Ninguém deu um único voto para que esse governo pagasse com dinheiro público os seus lacaios, para que acobertassem seus atos corruptos e, por duas vezes, apoiassem a sua continuidade no poder. 

Etc. e tal.
Há quem diga, contudo, que foram os eleitores da Dilma, generalizados no enfadonho e descabido epítome de petista. A lógica seria a seguinte: você é culpado porque casou com sua esposa quando, na verdade, queria casar com a sogra. Rodrigo Oliveira, professor de filosofia em Curitiba, me deu a deixa quando respondeu a uma dessas palermices postadas em seu facebook: “alguém escolhe a esposa olhando para a sogra?” Mal comparando, alguém votou na Dilma só porque queria o Temer? E mais: alguém votou mesmo no Temer? O chamado “presidencialismo de coalizão”, termo criado em 1988 pelo cientista político Sérgio Abranches, nos daria outra alternativa? E o próprio PT, a teria? Seria possível governar sem as alianças e os acordos que levaram Temer à vice-presidência? Essas são perguntas complexas, mas o certo é que, na história recente, queiramos ou não, foi nesse tipo de sistema que votamos. Portanto, votar na Dilma, era votar em um tipo de governo que se mantinha sustentado por vários partidos. Votar na Dilma foi votar também nessa gente que, como se sabe, mais tarde, votou contra ela mesma a fim de que o golpe se efetivasse. Golpe: sim, porque não há outro substantivo capaz de definir o fato de que o vice-presidente, o qual deveria manter os acordos e contribuir para a manutenção da governabilidade, passa para o “outro lado”. Abandonada pela sua base de apoio, Dilma foi também traída pelo Temer. Mas não só ela: todos os seus eleitores, aqueles que, embora insatisfeitos, tinham votado nela – e, insisto, não no Temer, cujos únicos votos recebidos, foi para ser vice de Dilma, um de seus apoiadores e articuladores. Não presidente. Presidente não. 
Quem levou Temer à presidência, afinal? Bom, há muitas hipóteses. Mas o certo é que a contribuição dos uniformizados da CBF e suas panelas barulhentas, foi imprescindível e decisiva. Quem levou o Temer à presidência foram aqueles que, insatisfeitos com o preço da gasolina no governo Dilma (quanto era mesmo? R$ 2,80?) e com outros pretensos “absurdos”, passaram a esbravejar aqui e ali contra as políticas de inclusão social que, segundo alguns, estava patrocinando a crise e a corrupção. Fecharam os olhos para os verdadeiros fatores (entre os quais estava o cenário internacional) e, principalmente, não se importaram com a estabilidade da nossa jovem democracia. Quem colocou Temer no poder foi Aécio, o playboy corrupto que encantou as massas, o Alexandre Frota que subiu nos trios em defesa da moral. Aliás, quem levou o Temer ao Palácio do Planalto sequer se perguntou se ele precisava de algum voto para governar. Se para governar precisava-se de algum voto mesmo. Voto? Para que, afinal? Quem levou o Temer ao poder estava se lixando com a democracia. Eles colaram aquele adesivo da Dilma, pernas abertas, no tanque de combustível de seu carro. Abasteciam a preços módicos se comparados com os de agora, em direção ao estacionamento do shopping center, onde deixaram os automóveis, bem guardados, enquanto seguiram para as manifestações, portando faixas a favor da ditadura. 
Os fatos que se seguiram ao impeachment, comprovaram não apenas que as razões para a interdição de uma presidente legítima eram, no mínimo, fracas e interesseiras (embora eu ache que sequer se justificavam como razões), mas sobretudo, que tal ato não fortaleceu o regime democrático, ao contrário, deixou o nosso país em frangalhos que nem uma geração inteira poderá remendar. 
Quem colocou Temer no poder não o fez porque queria se livrar da corrupção, mas porque queria simplesmente manter seus privilégios de elite. E conseguiram. Nenhuma voz mais se ouve contra a corrupção, a não ser anêmicos elogios ao juiz-estrela, amigo do Doria, do Aécio e do Temer. A luta contra a corrupção, agora, é apenas um adesivo verde-amarelo desgastado na traseira do carro, que permanece ali apenas por vergonha ou por argumento contra a sua própria letargia. Essa gente sim, elegeu Temer – e, ao contrário do que fizeram com a Dilma, mantiveram ele no poder.


















sábado, 12 de maio de 2018









Um dia – eu não sei bem quando – eu olhei no fundo dos olhos da minha mãe. Eles estavam cheios de uma estranheza de milênios, fecundando tudo ao redor com a delicadeza e a finura que ela aprendeu com os bichos, o olho dos canários, a cantoria das araras, a visão de uma borboleta treinada para enxergar as flores e nada mais. No olho de minha mãe eu frequentei essas alucinações de águas, caminhos, céus e vegetalidades. Eu vi cada uma das suas alegrias, as paisagens imensas que ela carrega no avesso do olho e aquelas estradas extensas e intermináveis que ela gosta tanto de andar, para ver e guardar na forma de muitas imagens. Eu vi cada uma de suas viagens, o gosto pelo inusitado, a curiosidade pelo estranho, a vastidão dos horizontes, até onde o olho alcança. E entendi que pelo olho é que minha mãe vive, colecionando figuras como quem planta jardins.

Lá no fundo, também, eu toquei a penosa raiz do sofrimento. Eu vi, como quem frequenta labirintos, o âmago da dor, as noites insones, o cansaço, a fonte das lágrimas, os nossos próprios naufrágios no ilimitado oceano da vida. Eu vi as imensidões do silêncio, quando minha mãe chorou sozinha, penhorada por seus segredos e seu olho era, inteiro, penumbra de catedrais. Vi o que ninguém gosta de ver no olho da própria mãe: o broto retorcido, a secura dos caminhos, o escuro.

Ali, naquele vão do universo, eu vi cada uma de nossas vivências, guardadas para sempre no poço ocular de uma mulher que vê o que vive. E eu vi nele a vida inteira de cada um de nós. A mãe, afinal, é a primeira pessoa a nos ver como somos, desde o instante inaugural. E tudo fica lá guardado. Ninguém é, antes de sua mãe ter-lhe posto os olhos, em reconhecimento. O olho da minha mãe, quando me viu, viu o corpo minúsculo, o medo do mundo, a dimensão do futuro. Eu, quando olhei de volta, sete horas após o meu nascimento, com os olhos ainda úmidos de escuridão, encontrei o maior dos confortos. Na face de minha mãe aprendi o que era cuidado e quis habitar ali para sempre.

O olho de minha mãe tem aquelas pequenices de antigamente. É ele que acompanha nossas despedidas. É sempre nele que dói a última das lágrimas. Mora nele a fragilidade da vida, o desgaste do tempo, a memória do que fomos, a dor de nossas perdas, a saudade... tudo o que permanece dentro, guardado como tesouro. O olho de minha mãe é o baú da família, a arca de nossas raridades. Sempre que a gente precisa, vai lá buscar recursos. Temos nele, o repositório do amor. Para ele voltamos de novo, como quem procura sua fonte. Basta vê-los de longe, basta que ela deite seu olhar sobre os nossos, basta esse encontro de mistérios, para que os dias se ascendam na plenitude. O olho de minha mãe dirige-nos ao centro, reorienta-nos, devolve-nos aos eixos. E é sempre para ele, de novo, que nós voltamos, pelo simples desejo de sermos vistos por ela. Mal vamos chegando, o seu olhar estende sobre nós a brisa das claridades. A gente se encontra de novo consigo. A gente não precisa de muito. A gente só quer olhar na mesma direção.