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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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segunda-feira, 25 de junho de 2018






Sempre achei que a escrita tivesse alguma coisa erótica. Escrever é como transar: há quem precise regularmente. Vem aquela volição, aquela vontade de derramar-se, aquela tensão excitada à procura da foz. Busca-se por tudo a folha branca, a tecla do computador, o lápis ereto e ali, no meio da sala, por vezes em público, no carro, no metrô, no banheiro... ejacula-se a palavra, limpa, plena de vida. A escrita é a experiência dessa pobreza do riquíssimo, que se chama desejo. E que se dá, antes de tudo, como necessidade e, depois, como alegria. Eros, há muito, é o deus da beleza e também da bondade, o que significa que o corpo e o pensamento, como tanto insistiu Nietzsche, são da mesma seara. Utensílios de prazer.
Como desejo, contudo, a escrita está mais para a masturbação do que para a relação sexual. Ela é um truque de preparação para o contato com o outro. Derrida, na sua Gramatologia, fala disso como suplemento (devo o insight ao meu amigo Prof. Ericson Falabretti, no seu texto A linguística de Rousseau: a estrutura aberta e a potência criadora da linguagem, que recomendo efusivamente[1]). Para Derrida, comentado por Ericson, suplemento é o outro nome da masturbação: porque não temos o outro disponível para um acesso direto, instauramos a sua presença afetiva. A masturbação ocorre como memória, representação ou fantasia de um/a parceiro/a sexual que não está ali, mas é imaginado; a escrita faz o mesmo com o leitor: ele não está ali, mas quando se escreve, escreve-se para esse outro que tomará conta do texto. Escreve-se porque não se pode falar diretamente. E isso, principalmente, na filosofia: como sugeriu Sloterdijk, “desde que existe como gênero literário, a filosofia recruta seus seguidores escrevendo de modo contagiante sobre amor e amizade”. Filosofia é amor à distância, carta para amigos desconhecidos. Escrever é um modo de seduzir, antecipar a apresentação ao outro para enternecê-lo, mostrando-se indiretamente nu.
Para Derrida, a masturbação é “a experiência do tocante-tocado que admite o mundo como terceiro”. Ao inventar o terceiro, suprimimos a sua ausência. Tocamos o outro em sua ausência por meio de nós mesmos. Escrever, como masturbar-se, é um ato solitário de auto-encantamento. Trata-se de uma tentativa de enganar a natureza. Como artimanha fantasiosa, no primeiro caso, a mão substitui o genital de um outro; no segundo, a palavra é usada em permuta ao diálogo direto – a coisa escrita é adiantamento (e adiamento) do prazer direto que todo diálogo promove. Em ambos os casos, o outro é sempre uma presença imaginária. E é como imaginação, que a escrita e a masturbação se apresentam como atividade de preparação e de aprendizado. Não como palavra dita, pronta, presente. É palavra preparatória, antecipatória, para um ser ausente. Escrever é uma espécie de ensaio, um toque primordial de quem quer encontrar-se diante do outro com o melhor de si. Meu amigo Clovis Ultramari (autor do livro Como não escrever uma tese, que também recomendo vivamente), disse que só escreve bem, quem lê muito. Eu diria, com Derrida, que só transa bem, quem se masturba muito. O fim, em ambos os casos, é sempre a comoção, o gozo. Afinal, como masturbar-se, escrever é provocar o próprio prazer.
Além disso, é bom advertir: como masturbar-se, escrever é sempre um modo de perverter a inocência, de inserir a criança na vida adulta. Ato perigoso e cheio de riscos. Na vida acadêmica, antes do TCC, da dissertação e da tese, todos somos pobres púberes. Núbeis na arte do sexo, somos também adolescentes na arte de expor ideias com o uso de palavras. Vivemos, enquanto escrevemos esses trabalhos, na adolescência. Só depois, trabalho entregue, transformamo-nos em pervertidos, impudicos, devassos... viramos parceiros sexuais, bons amantes, como se diz. Antes somos apenas masturbadores.
Escrever, por isso, é corromper a moralidade. Todos têm pavor de reconhecer a masturbação dos inocentes. É quase um despudor falar do assunto. Escrever, por isso, como masturbar-se, é um ato de provocação e insolência. Foi o que aprendemos com o mais famoso masturbador da história da filosofia: Diógenes, o cínico (413 a. C.). É também Sloterdijk que nos fala dele: “A insolência apresenta fundamentalmente duas posições: alto e baixo poder e contrapoder; em termos mais convencionais: senhor e escravo. O kynismos antigo inicia o processo dos ‘argumentos nus’ a partir da oposição, sustentado pelo poder que vem de baixo. O kynismos peida, defeca, urina, se masturba em praça pública, diante do olhar do mercado ateniense; ele despreza a glória, menospreza a arquitetura, não respeita nada, parodia as histórias de deuses e heróis, come carne e legumes crus, deita-se ao sol, mexe com as prostitutas e enxota Alexandre, o Grande, para que ele saia da frente do seu sol”. Quem escreve masturba-se em público, mostra-se nu e cheio de impudores e, sendo escritor de verdade, despreza a glória – quer apenas o prazer da escrita, não a fama do aplauso. Esse aí, ele sabe, vale pouco diante do puro deleite da palavra.
Por fim, é sempre bom lembrar: escrever, como masturbar-se, faz bem para corpo e alma: melhora o sono, gera sensação de bem-estar, fortalece o sistema imunológico, melhora as relações com os outros, ativa as partes sensoriais do corpo e da mente, favorece pequenas alegrias, sintoniza, torna criativo, prepara, beneficia, faz prosperar, areja. A escrita e a masturbação são, para usar as palavras do Ericson, potências criadoras. Ato de estimulação. Vai por mim: masturbe-se mais. Digo: escreva mais. Viva esse prazer.





quinta-feira, 24 de maio de 2018






            Ninguém, é fato. Ninguém elegeu o projeto político-econômico em vigor. Ninguém deu um único voto para a reforma trabalhista, a reforma previdenciária, o desmantelamento dos serviços públicos e das políticas de distribuição de renda; ninguém votou para que o combustível subisse de preço, as universidades fossem sucateadas e a saúde vivesse uma crise sem precedentes. Nenhum voto elegeu o governo que aprovou leis que beneficiaram os latifundiários, contra os indígenas, os sem terra, as comunidades tradicionais e, principalmente, contra o meio-ambiente. Ninguém deu um único voto para que esse governo pagasse com dinheiro público os seus lacaios, para que acobertassem seus atos corruptos e, por duas vezes, apoiassem a sua continuidade no poder. 

Etc. e tal.
Há quem diga, contudo, que foram os eleitores da Dilma, generalizados no enfadonho e descabido epítome de petista. A lógica seria a seguinte: você é culpado porque casou com sua esposa quando, na verdade, queria casar com a sogra. Rodrigo Oliveira, professor de filosofia em Curitiba, me deu a deixa quando respondeu a uma dessas palermices postadas em seu facebook: “alguém escolhe a esposa olhando para a sogra?” Mal comparando, alguém votou na Dilma só porque queria o Temer? E mais: alguém votou mesmo no Temer? O chamado “presidencialismo de coalizão”, termo criado em 1988 pelo cientista político Sérgio Abranches, nos daria outra alternativa? E o próprio PT, a teria? Seria possível governar sem as alianças e os acordos que levaram Temer à vice-presidência? Essas são perguntas complexas, mas o certo é que, na história recente, queiramos ou não, foi nesse tipo de sistema que votamos. Portanto, votar na Dilma, era votar em um tipo de governo que se mantinha sustentado por vários partidos. Votar na Dilma foi votar também nessa gente que, como se sabe, mais tarde, votou contra ela mesma a fim de que o golpe se efetivasse. Golpe: sim, porque não há outro substantivo capaz de definir o fato de que o vice-presidente, o qual deveria manter os acordos e contribuir para a manutenção da governabilidade, passa para o “outro lado”. Abandonada pela sua base de apoio, Dilma foi também traída pelo Temer. Mas não só ela: todos os seus eleitores, aqueles que, embora insatisfeitos, tinham votado nela – e, insisto, não no Temer, cujos únicos votos recebidos, foi para ser vice de Dilma, um de seus apoiadores e articuladores. Não presidente. Presidente não. 
Quem levou Temer à presidência, afinal? Bom, há muitas hipóteses. Mas o certo é que a contribuição dos uniformizados da CBF e suas panelas barulhentas, foi imprescindível e decisiva. Quem levou o Temer à presidência foram aqueles que, insatisfeitos com o preço da gasolina no governo Dilma (quanto era mesmo? R$ 2,80?) e com outros pretensos “absurdos”, passaram a esbravejar aqui e ali contra as políticas de inclusão social que, segundo alguns, estava patrocinando a crise e a corrupção. Fecharam os olhos para os verdadeiros fatores (entre os quais estava o cenário internacional) e, principalmente, não se importaram com a estabilidade da nossa jovem democracia. Quem colocou Temer no poder foi Aécio, o playboy corrupto que encantou as massas, o Alexandre Frota que subiu nos trios em defesa da moral. Aliás, quem levou o Temer ao Palácio do Planalto sequer se perguntou se ele precisava de algum voto para governar. Se para governar precisava-se de algum voto mesmo. Voto? Para que, afinal? Quem levou o Temer ao poder estava se lixando com a democracia. Eles colaram aquele adesivo da Dilma, pernas abertas, no tanque de combustível de seu carro. Abasteciam a preços módicos se comparados com os de agora, em direção ao estacionamento do shopping center, onde deixaram os automóveis, bem guardados, enquanto seguiram para as manifestações, portando faixas a favor da ditadura. 
Os fatos que se seguiram ao impeachment, comprovaram não apenas que as razões para a interdição de uma presidente legítima eram, no mínimo, fracas e interesseiras (embora eu ache que sequer se justificavam como razões), mas sobretudo, que tal ato não fortaleceu o regime democrático, ao contrário, deixou o nosso país em frangalhos que nem uma geração inteira poderá remendar. 
Quem colocou Temer no poder não o fez porque queria se livrar da corrupção, mas porque queria simplesmente manter seus privilégios de elite. E conseguiram. Nenhuma voz mais se ouve contra a corrupção, a não ser anêmicos elogios ao juiz-estrela, amigo do Doria, do Aécio e do Temer. A luta contra a corrupção, agora, é apenas um adesivo verde-amarelo desgastado na traseira do carro, que permanece ali apenas por vergonha ou por argumento contra a sua própria letargia. Essa gente sim, elegeu Temer – e, ao contrário do que fizeram com a Dilma, mantiveram ele no poder.