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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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quinta-feira, 16 de agosto de 2018








José Saramago, na su’A Caverna, fez elogio à olaria – a mais antiga das indústrias – e ao oleiro, a mais remota das profissões que, segundo ele, permanece a mesma desde que as primeiras bilhas foram moldadas com terra neolítica. Esqueceu, o escritor, de mencionar o filósofo, vocacionado ao pensamento, ao longo dos milênios. Inventado por Pitágoras nos idos do século V a. C., o termo traduz o amor pela sabedoria como desafio e incômodo ao senso comum. Foi o que fez, pela primeira vez, segundo os livros de história, aquele homem de Mileto, chamado Tales, cuja afirmação “tudo é água”, deu início à atividade profissional de todos que tentam, com custos, fazer caber na mente humana a complexidade do mundo – muitas vezes com o colapso do dizível, a reinvenção das linguagens e o esgarçamento do pensável.   
Os primeiros profissionais da filosofia, contudo, parecem ter sido mesmo os sofistas. Eles vendiam seu saber em praça pública, cativando jovens e oferecendo-lhes educação. Fizeram, como é presumível, muitos inimigos. O mais célebre deles foi Platão, que os acusou de relativizarem a verdade, dando preferência ao saber enciclopédico, em nome do interesse pela retórica, instrução necessária para a prática política da democracia. Teriam escolhido o lucro em detrimento da verdade, mas claro, há muita injustiça nessas acusações. Sua contribuição para a expansão dos saberes na Hélade dos séculos V e IV a. C. é inegável. Deram destaque para a liberdade de expressão, para o bem pensar e o bem falar, virtudes teóricas até hoje imprescindíveis na vida filosófica.
Saramago tem muita razão. Hoje fazemos filosofia um pouco como antes, combatendo o senso comum e tentando provocar a reflexão a fim de vencer as banalidades reinantes. Meio contra a corrente. Desculpando-se pela insolência. Mas o fazemos, nós os funcionários do saber, como profissionais, quase sempre tendo de abandonar os romantismos daqueles tempos áureos, em que a solidão e a caturrice eram marca obrigatória. Nos novos tempos, os filósofos somos produtores de artigos, relatórios, pareceres e mil burocracias. Pressionados pela lógica do desempenho, buscamos melhorar a performance para adequar as motivações da vocação às exigências institucionais. Frágil equilíbrio. Vivemos a pressa do produto e do resultado, na corda bamba entre a solidão do pensar e a publicação do pensado. Arte de excelência. Orientação, caderneta, qualis, concursos, bancas, congressos... temos um dicionário de obrigações e lutamos para manter o fluxo da hora e a paixão do saber. 
Como aconteceu com o oleiro de Saramago, o filósofo de hoje também precisa reinventar-se. Há novas tecnologias, novos modos de ensinar e de aprender, novos acessos, contatos internacionais, grupos de pesquisa, agilidade nas produções, negócios, contratos e afazeres. Não basta mais o quarto escuro, a mão no queixo, o estilo dândi, a barba por fazer, o quase silêncio constrangedor, a posição enfadonha do pensador sem corpo ou do corpo todo macho. Noves fora, há estereótipos em desuso. Pra começo de conversa, há mulher na filosofia, machos e viados pelos corredores, tatuados, musculosos ou franzinos... o pensamento não é propriedade de ninguém. Ele também faz ginástica, canta funk, sobe morro, vai à TV. Tem facebook, instragam, blog e tinder. E daí? Viva a filosofia, que não escolhe corpo, cor de pele, orientação sexual e nenhuma dessas convenções raquíticas que alguns ainda teimam, ociosamente, em reiterar. O pensamento cabe em qualquer geografia. Seu tempo é agora. Sua arma é atômica.



sábado, 11 de agosto de 2018








Muito se fala da crise de valores que afeta a sociedade contemporânea e de como um dos elementos centrais dessa situação tem a ver com a crise das autoridades parentais. Professores, Padres, Pastores, Patrões, Políticos e... Pais, encontram-se, nessa encruzilhada da história, diante do dilema de sua própria reinvenção como aqueles que se tornaram, ao longo da história, quase sempre, os responsáveis pela orientação ética das sociedades.
O dia dos pais é uma boa oportunidade para pensarmos a respeito dos poderes e das obrigações dessa autoridade que, junto com suas esposas, é responsável por enviar para o futuro (por meio da educação de seus filhos) aqueles valores inegociáveis, bem como enfrentar, com lucidez e paciência, os arroubos das novas gerações, acolhendo suas demandas e filtrando suas expectativas. O pai, sem dúvida, é figura central na formação de um indivíduo. E não penso apenas no macho que dorme com nossas mães, penso também na autoridade e no papel daqueles que simbolizam tal autoridade em nossas vidas.
A característica da autoridade exercida por essas pessoas é a não reciprocidade: o pai cuida de seu filho de forma gratuita, sem esperar nada em troca, mas simplesmente pelo fato de que tal cuidado torna ele quem é, ou seja, precisamente um pai. Em outras palavras, a responsabilidade é característica central da paternidade porque alguém se torna pai precisamente porque cuida de seu filho. Para falar na linguagem filosófica, essa é sua característica ontológica – e não apenas ética.
Quem chamou atenção para esse elemento e elegeu o pai como paradigma da responsabilidade, foi o filósofo judeu-alemão Hans Jonas. Para ele, essa característica própria da responsabilidade de um pai diante de seu filho serve como uma espécie de modelo para compreendermos de que forma a responsabilidade para com a natureza e as gerações do futuro se apresenta como um princípio ontológico próprio de todos os seres humanos. Ou seja, para Jonas, tal como um pai se realiza exatamente quando gera e cuida de forma generosa e abnegada do seu filho, cada um de nós se realiza plenamente como indivíduo humano precisamente quando se responsabiliza pela manutenção de todas as formas de vida ameaçadas de extinção e pela existência de um futuro para a humanidade.
Segundo Jonas, poder se responsabilizar é o mesmo que dever se responsabilizar; ou seja, porque é capaz de responsabilidade o ser humano está obrigado a ela. Poder e responsabilidade são duas faces de uma mesma moeda, portanto. Como no caso do pai que se responsabiliza pelo seu filho, nós todos temos como primeiro objeto da responsabilidade os outros seres humanos: “o arquétipo da responsabilidade é aquela do homem pelo homem”[1], cuja concretização mais evidente é a do pai em relação à sua prole. Por isso, o pai cuida de seus filhos não apenas no que tange à sua sobrevivência imediata, mas ao desenvolvimento de todas as suas potencialidades: habilidades, comportamentos, relações, caráter, conhecimento, que devem ser estimulados. O pai “visa a fazer da criança o melhor dos seres” (lembre de seu pai e me diga se Jonas tem razão!). Eis o paradigma que deveria orientar a ação das demais autoridades, principalmente a dos homens públicos, no que tange à criação das condições de desenvolvimento dos cidadãos que estão sob seu governo em vista da garantia de sua continuidade no futuro.
Olhando para os nossos pais, portanto, nós aprendemos o sentido da responsabilidade. Em todas as circunstâncias, aquele que protege, cuida e promove, assume a responsabilidade de forma tão efetiva que tal fato se torna inseparável da sua própria existência como ser humano. Oxalá celebrando a vida de nossos pais, aprendamos também esta que é a sua lição mais importante.






[1] JONAS, Hans. O princípio Responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora PUCRio, 2006, p. 180.
segunda-feira, 30 de julho de 2018





Durante muito tempo ao careca imputou-se legendas pouco honoríficas. Sua peladura lhe fazia um doente, um velho ou um filósofo. Provavelmente as três coisas ao mesmo tempo, o que dá no mesmo. Doente grave perde o cabelo. Velhice, essa doença indesejada que afeta irrevogável tudo o que é vivo, começa sempre pelos cabelos. O filósofo... bem, de tanto pensar aquece os miolos, como se diz. Fornalha acesa, na cabeça faz terra rasa. Exemplos não faltam. Sócrates era careca. Sêneca viu nisso muitas vantagens. Gandhi era careca e Buda, obviamente. Mas Foucault foi o careca mor da filosofia. Sua desenvoltura, dizem, era de arrepiar cabelos alheios.

Durante outra parte de tempo, o careca foi visto como um criminoso ou presidiário, porque a estética do crime não tem cabelo. Skinheads que o digam. Quem sabe um piolhento. Sem cabelo, estamos menos expostos aos insetos do mundo - quando crianças a mãe manda tosar rente para evitar contaminação e  desasseio. A gente tenta esconder com tocas e outros subterfúgios, mas tem sempre um coleguinha destronando as discrições.

Depois, o careca foi para o cinema. Ficou famoso especialmente nos filmes de ficção científica. O homem do futuro parece ter deixado de lado pentes, shampoos e outras ferramentas ancestrais. Limpo e raspado como um objeto entre outros, as pretensas sujidades do corpo não cabem no transumano que vem.

Daí nasceu a estética do lenhador, hollywoodian, boxed, French Fork e outras guloseimas. O hipster ocupou passarelas do mundo e veio morar na nossa casa, como um membro da família, careca e barbudo. Bom de sexo, dizem eles de si mesmos, virou sex symbol. Um tipo cuja testosterona vive nas extremidades. Sendo moda e charme, mesmo quem não era, por natureza, agora ficou, por vaidade pura. Na TV, celebridades cortaram os pelos de todo tipo: tudo, um pouco, de lado, de alto a baixo, só em cima, só embaixo, com riscos, com letras, filosofias e evangelhos.

E tudo para horror dos vendedores de perucas, para descrédito dos implantes e crise dos adeptos dos produtos que prometem cabelo instantâneo ou do combover (essa moda feia de puxar tufos daqui para lá e equilibrar-se, depois, sob ventos e águas para que o penteado não desande). De uma vez por todas: o negócio é assumir a calvície. Como se diz: seja feliz!

PS. Sim, esse é um texto de autodefesa.







segunda-feira, 25 de junho de 2018






Sempre achei que a escrita tivesse alguma coisa erótica. Escrever é como transar: há quem precise regularmente. Vem aquela volição, aquela vontade de derramar-se, aquela tensão excitada à procura da foz. Busca-se por tudo a folha branca, a tecla do computador, o lápis ereto e ali, no meio da sala, por vezes em público, no carro, no metrô, no banheiro... ejacula-se a palavra, limpa, plena de vida. A escrita é a experiência dessa pobreza do riquíssimo, que se chama desejo. E que se dá, antes de tudo, como necessidade e, depois, como alegria. Eros, há muito, é o deus da beleza e também da bondade, o que significa que o corpo e o pensamento, como tanto insistiu Nietzsche, são da mesma seara. Utensílios de prazer.
Como desejo, contudo, a escrita está mais para a masturbação do que para a relação sexual. Ela é um truque de preparação para o contato com o outro. Derrida, na sua Gramatologia, fala disso como suplemento (devo o insight ao meu amigo Prof. Ericson Falabretti, no seu texto A linguística de Rousseau: a estrutura aberta e a potência criadora da linguagem, que recomendo efusivamente[1]). Para Derrida, comentado por Ericson, suplemento é o outro nome da masturbação: porque não temos o outro disponível para um acesso direto, instauramos a sua presença afetiva. A masturbação ocorre como memória, representação ou fantasia de um/a parceiro/a sexual que não está ali, mas é imaginado; a escrita faz o mesmo com o leitor: ele não está ali, mas quando se escreve, escreve-se para esse outro que tomará conta do texto. Escreve-se porque não se pode falar diretamente. E isso, principalmente, na filosofia: como sugeriu Sloterdijk, “desde que existe como gênero literário, a filosofia recruta seus seguidores escrevendo de modo contagiante sobre amor e amizade”. Filosofia é amor à distância, carta para amigos desconhecidos. Escrever é um modo de seduzir, antecipar a apresentação ao outro para enternecê-lo, mostrando-se indiretamente nu.
Para Derrida, a masturbação é “a experiência do tocante-tocado que admite o mundo como terceiro”. Ao inventar o terceiro, suprimimos a sua ausência. Tocamos o outro em sua ausência por meio de nós mesmos. Escrever, como masturbar-se, é um ato solitário de auto-encantamento. Trata-se de uma tentativa de enganar a natureza. Como artimanha fantasiosa, no primeiro caso, a mão substitui o genital de um outro; no segundo, a palavra é usada em permuta ao diálogo direto – a coisa escrita é adiantamento (e adiamento) do prazer direto que todo diálogo promove. Em ambos os casos, o outro é sempre uma presença imaginária. E é como imaginação, que a escrita e a masturbação se apresentam como atividade de preparação e de aprendizado. Não como palavra dita, pronta, presente. É palavra preparatória, antecipatória, para um ser ausente. Escrever é uma espécie de ensaio, um toque primordial de quem quer encontrar-se diante do outro com o melhor de si. Meu amigo Clovis Ultramari (autor do livro Como não escrever uma tese, que também recomendo vivamente), disse que só escreve bem, quem lê muito. Eu diria, com Derrida, que só transa bem, quem se masturba muito. O fim, em ambos os casos, é sempre a comoção, o gozo. Afinal, como masturbar-se, escrever é provocar o próprio prazer.
Além disso, é bom advertir: como masturbar-se, escrever é sempre um modo de perverter a inocência, de inserir a criança na vida adulta. Ato perigoso e cheio de riscos. Na vida acadêmica, antes do TCC, da dissertação e da tese, todos somos pobres púberes. Núbeis na arte do sexo, somos também adolescentes na arte de expor ideias com o uso de palavras. Vivemos, enquanto escrevemos esses trabalhos, na adolescência. Só depois, trabalho entregue, transformamo-nos em pervertidos, impudicos, devassos... viramos parceiros sexuais, bons amantes, como se diz. Antes somos apenas masturbadores.
Escrever, por isso, é corromper a moralidade. Todos têm pavor de reconhecer a masturbação dos inocentes. É quase um despudor falar do assunto. Escrever, por isso, como masturbar-se, é um ato de provocação e insolência. Foi o que aprendemos com o mais famoso masturbador da história da filosofia: Diógenes, o cínico (413 a. C.). É também Sloterdijk que nos fala dele: “A insolência apresenta fundamentalmente duas posições: alto e baixo poder e contrapoder; em termos mais convencionais: senhor e escravo. O kynismos antigo inicia o processo dos ‘argumentos nus’ a partir da oposição, sustentado pelo poder que vem de baixo. O kynismos peida, defeca, urina, se masturba em praça pública, diante do olhar do mercado ateniense; ele despreza a glória, menospreza a arquitetura, não respeita nada, parodia as histórias de deuses e heróis, come carne e legumes crus, deita-se ao sol, mexe com as prostitutas e enxota Alexandre, o Grande, para que ele saia da frente do seu sol”. Quem escreve masturba-se em público, mostra-se nu e cheio de impudores e, sendo escritor de verdade, despreza a glória – quer apenas o prazer da escrita, não a fama do aplauso. Esse aí, ele sabe, vale pouco diante do puro deleite da palavra.
Por fim, é sempre bom lembrar: escrever, como masturbar-se, faz bem para corpo e alma: melhora o sono, gera sensação de bem-estar, fortalece o sistema imunológico, melhora as relações com os outros, ativa as partes sensoriais do corpo e da mente, favorece pequenas alegrias, sintoniza, torna criativo, prepara, beneficia, faz prosperar, areja. A escrita e a masturbação são, para usar as palavras do Ericson, potências criadoras. Ato de estimulação. Vai por mim: masturbe-se mais. Digo: escreva mais. Viva esse prazer.