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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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segunda-feira, 2 de maio de 2016






Enquanto sonhava com o namorado morto e deitava-se na neve branca, beijando pela última vez o seu lábio frio, o personagem de Colin Firth no filme de Tom Ford, A sigle man, título do livro homônimo de Christopher Isherwood, acorda de súbito. A tinta preta derramada sobre o lençol branco se estende sobre os lábios trazida pelas mãos que queriam sentir a memória do beijo, enquanto o personagem confessa que a tragédia da morte do amante tem tornado o ato de levantar, uma experiência terrível. Muitos de nós sabemos do que se trata. Enquanto põe os pés no chão e se dá conta de quem é, enquanto deixa a água do banho cair sobre o corpo derreado, enquanto toma coragem para sair, lentamente, e enquanto espera a própria morte, o professor George Falconer retrata muitos de nossos dramas cotidianos.
A primeira frase do filme traduz o susto de acordar, a consciência de que o sonho era mesmo só um sonho e que a vida, aqui do outro lado, é o peso da falta da pessoa amada, a ferida aberta de uma tragédia, o luto eterno, a vontade de nada, a agonia, um inverno por dentro, fobias sem fim: “acordar é dizer ‘eu sou’, ‘agora’”. Esse súbito de consciência diante da morte do outro se alonga, para Falconer, no planejamento da própria morte, diante de uma vida sem sentido. O filme inteiro é esse planejamento que o livro contou como uma tragédia imprevista de amor – inesperadas como todas as tragédias e surpreendentes como todos os amores. O filme é a história de uma ausência. Mas sobretudo, o filme é o relato de uma angústia.
Feridas abertas de nossas próprias tragédias sangram todas as manhãs. Dizer “eu sou” é tomar parte delas, assumi-las como próprias, digeri-las com dificuldade, lentamente. E às vezes sofrer de dispepsia. Dizer “eu sou” é o ato primeiro da filosofia que, segundo Heidegger, nasce da consciência da morte. O homem é o ser que se distingue de todos os outros porque sabe que vai morrer. Significa: sabe-se morto já, embora estando vivo. Por isso, existir é, para o homem, viver angustiado. Vendo a morte do outro, nessa co-presença de mundos, o homem sabe da sua. E sabendo-se para-a-morte, ele a experimenta na vida que é sua e, indiretamente, na morte que é do outro. Diante dessa angústia, somos tirados de nossos afazeres cotidianos. Depois de sabê-lo, nada mais importa. Todas as possibilidades do dia que começa ganham novos contornos. A morte torna a experiência da vida algo que nos singulariza e autentica, diante da correria do dia-a-dia. Não fosse a morte, o professor Falconer teria acordado correndo, atrasado, cheio de compromissos. Não teria tomado café, nem ouvido música, nem aguado as flores. Não teria cumprimentado a faxineira e nem dado atenção aos vizinhos da rua. Teria guiado seu carro até o emprego, teria despejado suas verdades aos alunos, teria... Mas não: a morte lhe impôs outra obrigação. Foi necessário reavaliar todos os atos. Todo mínimo gesto teve de ser repensado. A morte faz isso conosco, ela costuma nos tirar do barulho. E nos jogar contra nós mesmos, como forma de teste.
Sartre, no seu romance O muro, fez Pablo confessar que, embora não pudesse pensar claramente na própria morte, “a via por todos os lados, sobre as coisas, no jeito pelo qual as coisas tinham se recuado e se conservado à distância, discretamente, como pessoas que sussurram à cabeceira do moribundo". A morte estava em todos os lugares e seu hálito umedecia todos os planos diários, as agendas em cima das mesas, os teclados, os e-mails não respondidos, as obrigações, as normas e os compromissos. Tudo o que é cheio de futuro está ungido pela morte.
O susto de acordar é o mesmo de dar-se conta dessa realidade. Dizer “agora” é formular a interrogação: e agora, que “eu sou” um ser que sabe que morre, e agora que estou aqui, e agora que sou o que sou, e agora que já é hora, e agora que é agora... “e agora José?” Todas as nossas tragédias não são fáceis. Cada um tem a sua em ferida exangue. Uns mais, outros menos. O que a filosofia nos ensina – pelo menos uma parte dela – é que precisamos da morte como experiência heurística, ou seja, como um prévio aprendizado: saber que vai morrer deve nos empurrar para o “agora”, para os valores do agora, para o que é o agora, para as alegrias do presente. Com seu livro, Christopher Isherwood nos ensinou a mais significativa e emocionante das obviedades: a vida é um ato de resistência contra a morte. Seu valor depende da disposição de acordar e, diante do susto, simplesmente dizer: “eu sou”, “estou aqui”, “é agora”. E seguir em frente.  
       Schopenhauer escreveu que "toda noite ficamos mais pobres de um dia". Isherwood nos ensina que a cada manhã, ficamos mais ricos de nós mesmos.    



4 comentários:

Vareli disse...

Professor suas palavras são a manifestação de uma verdade oculta para boa parte da humanidade . No dia 03/06/2007 fui esfaqueado e tendo a oportunidade de ver a morte face a face , fui apreendendo a dar valor a simplicidade da Vida .. Sim a experiência de Morte me transformou em um Ser Humano que enxerga aquilo que foi ofuscado com o passar dos anos . Bom texto e Saudades de suas Aulas.

Rodrigo Vareli
Seminarista Salvatoriano .

Daniel Pereira disse...

Nós seres humanos temos uma tendência natural a cair na rotina cotidiana, reclamar do que não tem e esquecer o valor da vida, a qual só percebe quando ameaçada.

Jelson Oliveira disse...

Rodrigo, isso mesmo! Fique bem.

Jelson Oliveira disse...

Daniel, a vida é constantemente ameaçada. A gente é que esquece disso - ou finge esquecer.