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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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sábado, 23 de abril de 2016






O novo filme de Gavin Hood estreou essa semana na Inglaterra, com a sempre deslumbrante Helen Mirren, corajosamente grisalha como nunca. Eye in the sky, é um trailer enxuto e direto, com considerável carga emocional e uma aguda tensão em torno do uso de uma nova tecnologia de guerra, o drone. De um lado, o filme investe na “humanidade” dos personagens, nas suas motivações e dilemas; de outro, ele dá atenção às “máquinas” voadoras, que vão de aviões a aves e insetos de olho e aço. Dessa tensão, nasce o problema central da trama: as relações de poder entre quem pilota o drone e quem é vítima dele. O panorama é a luta contra o grupo terrorista al-Shabaab, da Somália. Gente de vários lugares do mundo, sentados em seus gabinetes e salas blindadas, coordenam uma ação secreta moldurada por máquinas aéreas que levam o olho da tecnologia para todos os lugares. Nessa guerra, tudo parece asséptico. Nenhum soldado em risco.  Nenhuma vítima colateral. Até que surge a garota de vermelho, vendendo pães. A menina pobre faz do filme um dilema moral, cujo tema perpassa as relações entre técnica e ética, entre máquina e ser humano. Hood toca, com isso, em um assunto tão delicado quanto polêmico. Seu filme parece uma faca de dois gumes.




Nenhuma área se dedica tanto à tecnologia quanto a indústria bélica. Nas suas reflexões sobre a técnica, Hans Jonas assinalou que na era pré-moderna, a tendência da tecnologia era permanecer por longo tempo como uma espécie de optimum de competência que garantia a um determinado grupo social a sua identidade cultural. Como uma posse e um estado, a tecnologia mudava pouco e tão lentamente, que a palavra revolução, aplicada a alguns desses contextos, torna-se imprecisa. A única exceção era a técnica bélica. Por razões óbvias, as novas tecnologias de guerra inventadas por um povo exigiam rápida absorção (e, de preferência, superação) por parte de seus inimigos. Tratava-se de uma exigência exterior e dela dependia a sobrevivência de um povo. Contra as armas de fogo, o arco-e-flecha tornaram-se rapidamente obsoletos. Contra canhões, as catapultas antigas pareceram piadas. Cavalarias substituíram as fileiras de soldados em solo. Depois vieram os submarinos, as armas tóxicas, os foguetes, as bombas de todo tipo, o uso de aviões em batalha e a famigerada bomba atômica. Ao contrário dos outros campos, na guerra, a tecnologia vive de revoluções, exige mudanças drásticas patrocinadas pela necessidade de sobrevivência. E seus impactos se diluem na nossa vida cotidiana de forma impressionante, desde os nossos fornos de micro-ondas até os agrotóxicos de nossas lavouras. Hoje o uso de drones na arte da guerra é uma novidade justificada com vários eufemismos, que azeitam os discursos de “ataques cirúrgicos” e “precisão de laser”. A guerra tem a exatidão das salas de medicina...
Drones são aparelhos não tripulados que nos deixam em uma cidade sem muros. Do alto, todos estamos desprotegidos. O Escritório de Jornalismo Investigativo, uma organização não governamental britânica, afirmou que em 2015, pelo menos 51 pessoas morreram no Paquistão vítimas de ataques americanos com esse tipo de equipamento, outras 46 no Iêmen e 7 na Somália. O recente livro do filósofo francês Grégoire Chamayou, intitulado Teoria do Drone comprova que essas maquininhas não são apenas brinquedos de tirar fotos. Chamayou mostra bem como guerra e progresso técnico estão intimamente ligados. O dilema, mais uma vez, está entre o poder e a responsabilidade. Hood mostra como um drone pilotado em longa distância quebra a vulnerabilidade de quem exerce o poder e, com isso, instaura uma nova lógica de guerra: o ataque só coloca em risco a vítima e estabelece uma distância entre a violência e o campo de comando. Diluem-se as responsabilidades porque minimizam-se as interferências e preservam-se os afetos. Depois das bombas, os militares dirigem seus carros para casa, onde dormem sem pesadelos, como se tudo não passasse de um jogo virtual.
De um lado quem brinca de videogame e de outro quem morre com as bombas. No meio deles, Hood colocou uma menina  vendendo pão para ajudar a família. Vestida de vermelho, ela roda o bambolê colorido. Pobre e negra ela circula entre terroristas armados, em plena zona de ataque. Na casa ao lado prepara-se uma ação que pode dizimar centenas de pessoas. Nos seus gabinetes, governos e militares enfrentam o velho dilema utilitarista: quanto vale a vida de uma garota diante das centenas de vida que poderão ser poupadas caso o ataque seja realizado? Estamos em terreno arenoso. O filme derrapa na indecisão. A trama parece estacionar. Ninguém decide. O soldado chora. A menina inocente, espera o seu cliente. Sua presença evoca os laços que o mundo da tecnologia desfez. Para Hood, ao que parece, o olho do drone não pode ser impassível à vulnerabilidade daquela criança.
De um lado os militares, a altíssima tecnologia da guerra e todos os seus monitores e lentes superpotentes projetados futuristicamente. De outro, a pobreza de um bairro de Nairóbi, os fundamentalismos e as violências de todos os dias, a poeira cinzenta de quem está aprisionado ao presente. O dualismo fácil é rompido pela criança casta e seus pães redondos. Ela parece saltar como uma interrogação no meio da nossa lógica de mundo. Sua presença há de parar as tecnologias de todas as guerras? E ela, há de sobreviver às violações diárias de seu próprio destino? O olho do alto - que é o olho de quem filma, o olho de quem vê o filme, o olho de quem pilota o novo poder, o olho de quem mata sem tocar – há de decidir nossos destinos? Até quando? A menina, na zona de ataque, é um estorvo moral para a tecnologia – não só a da guerra, mas todas aquelas que colocam em risco, cotidianamente, as relações humanas. A menina de Hood está parada no meio de nossas salas de aula, entre professores displicentes e estudantes seduzidos pelos celulares. A menina de Hood está parada na nossa sala de estar, em frente à televisão, enquanto a família, calada, se desconhece. A menina de Hood se detém na calçada, em frente ao sinal, enquanto nos atropelamos sem tirar o olho das nossas máquinas portáteis.
      De cima, um olho nos vê. Decide nossos destinos. Todo drone tem ganas de ser Deus, o olho que vê tudo. Ele está por todos os lados. Quem haverá de se salvar?


PS. No Brasil, ao que parece, o filme se chama "Decisão de Risco".





quinta-feira, 21 de abril de 2016





Dizem que hoje é o dia da Terra. Quando foi vista pela primeira vez, de fora, toda barriguda de azul, essa mocinha causou o maior espanto. Viraram lentes e holofotes para ver a configuração do frágil equilíbrio que vaga, errante, no meio da sombra. No contraste, houve quem duvidasse da força. Rodando no escuro, cercada de vazio por todos os lados, sentença pregada ao corpo na forma de um medo, o nome da Terra é perigo.    
Quando Sófocles cantou as maravilhas do homem naquele coral de Antígona, falou de carros e cavalos fertilizando os solos, dos engenhos e redes capturando os bichos, dos jugos infatigáveis sob o dorso agreste do planeta. Não falou nada, porém, o poeta trágico, sobre as fragilidades da terra. Não falou da corrosão das montanhas, da erosão dos rios, dos desertos sem chuva, da morte das águas, das extinções de gentes e bichos, do canário sem isca, da semente sem limo, dos gases pesados, da morte da fruta, da fome, da praga, do horizonte cáustico, ano a ano... Não falou das fumaças de Pequim, das fomes da África inteira, dos degelos do Ártico, da Amazônia em chamas, dos óleos derramados nos golfos, da exploração das minas, da infertilidade do solo, das chaminés das fábricas, dos venenos das lavouras. Vazou louvores à audácia do homem e suas venturas de senhor ditoso, acima das feras. Não viu, contudo, o que as ocorrências de agora tornam evidente: a Terra é uma emergência ética. Gravidez é gravidade.
Agora, as fotos que emocionaram Caetano, na sua Terra, desvelam a nossa, em meio à desolação. Aquele silêncio que assombrou Pascal, no setecentos, encontrou seu motivo, afinal: acima de nós, tudo está morto! Aqui, a vida é uma exceção. E  navega arriscada, na aventura de castanheiras e colibris, curimbatás e piaparas, mariposas e rinocerontes, contra os quais o homem, exaltado em seu poder, expande suas divisas na forma de ingerências. A catástrofe soma dois bilhões de hectares de solo deteriorados, o que equivale a dois terços das áreas agrícolas do mundo; mais de onze mil espécies de seres vivos em risco de extinção por causa da destruição dos ecossistemas onde vivem; quase trinta por cento dos corais marinhos, berçários da vida, destruídos; mais de cem mil substâncias químicas perigosas produzidas por resíduos industriais. Ao nosso redor, boiam como infâmias, pneus, isopores, pilhas, fraldas descartáveis, sacolas plásticas, garrafas, óleos, detergentes, tintas, computadores e todos os nossos dejetos. Nós? Continuamos coando mosquitos e engolindo camelos.
Não satisfeitos com o prejuízo, desejamos mais, compramos mais. Fizemos da gula, a nossa virtude central e nosso primeiro dever cívico. O vício antigo conta agora com a indulgência geral e já não incomoda. O desperdício do muito e a ostentação do ridículo faz parte, agora, da dieta socioeconômica. Tudo é consumido com a voracidade das grandes batalhas e a avidez de adâmicos desejos. Vazios de nós e empanzinados de coisas, incentivamos a produção em larga escala, para a qual precisamos destruir florestas, queimar petróleo, espalhar poluentes, escravizar pessoas - conhecemos o processo de cor, mas quem se importa? Queremos o riso fácil em todas as janelas.
Hans Jonas apelou para a responsabilidade. Depois dele, fizemos conferências várias, cartas e protocolos, burocracias de muitos tamanhos. Fundamos movimentos, delatamos os vizinhos, conclamamos aos valores. Fomos ao Rio, a Roma, a Kyoto e a Paris. A Terra, nossa causa suprema, contudo, está aí, unanimemente agredida, todos os dias, sob os nossos pés, na espiga de nossas carnes, embaixo das nossas unhas. Dividida em fronteiras, batizada de muitos nomes, sangrada de muitos jeitos.

No dia da Terra, só uma coisa poderia salvá-la: freios voluntários, cautela, precaução, modéstia, simplicidade ou qualquer outro nome que queiramos dar às nossas urgências. Também aqui Hans Jonas, tem razão: “para deter o saque, a depauperação de espécies e a contaminação do planeta que estão se desenvolvendo a toda velocidade, para prevenir um esgotamento de suas reservas, inclusive uma mudança insana no clima mundial causada pelo homem, é preciso uma nova austeridade em nossos hábitos de consumo”. Precisamos urgentemente impor freios à arbitrariedade intolerável do capitalismo licencioso que está destruindo a casa que é nossa – e que é a única. Só uma nova humildade, derivada agora da coragem de conter a excessiva grandeza de nossos poderes, poderá nos salvar da mais perigosa das tentações: pagar o presente com o preço do futuro.




segunda-feira, 18 de abril de 2016







Muitos de nós ficamos indignados com as reiteradas referências morais e religiosas que fizeram parte do espetáculo enfileirado da tarde de ontem no corredor central da Câmara dos Deputados. A justificação do voto de uma parcela significativa dos senhores deputados e deputadas revelou um fenômeno que faz parte do cotidiano de nosso país nas últimas décadas: o crescimento do conservadorismo patrocinado pelas igrejas de viés neopentecostal e sua intensiva expansão política por meio da chamada Bancada da Bíblia. Não quero generalizar e muito menos parecer discricionário, mas parece evidente que esse movimento reacionário ultrapassou as paredes dos templos (alguns pequenos e improvisados, outros portentosos e suntuários) por meio de uma pregação cotidiana de cunho político-ideológico fundamentalista, que opõe o bem ao mal de uma forma tão simplista quanto perigosa tanto nos altares quanto nas televisões da nação. Essas Igrejas hoje representam quase cinquenta milhões de brasileiros e sua representatividade na Câmara aumentou mais de trinta por cento no último pleito eleitoral.
À força desse movimento junte-se o recuo das igrejas tradicionais quanto às questões sociais e à articulação entre fé e política, amplamente abominada nos anos dos papados de João Paulo II e Bento XVI. Isso fez com que alas antes atuantes em favor dos direitos humanos e de políticas sociais inclusivas, fossem isoladas e contidas, diante dos novos fenômenos do show-missa e dos padres cantores. Por consequência, a interpretação social do evangelho e as preocupações com as estruturas de opressão da população menos favorecida, acabaram dando lugar a velhas teologias, muitas das quais amparadas em visões eclesiais subjetivistas e reduzidas ao discurso da prosperidade e da moralização da vida em geral. Não são poucos os jovens membros das classes mais pobres que chegam aos seminários com o afã de vestir suas túnicas e clérgimas, símbolos do poder e do desejo de posse e de conforto, sob o custo de esquecerem completamente suas realidades de origem e os anseios de sua gente. Reduzindo sua ação, quando muito, à caridade que não transforma, mas apenas mantém as desigualdades, e acomodados em suas poltronas de veludo, muitos desses religiosos celebram o mesmo Deus dos Cunhas, Malafaias e Felicianos. Ontem mesmo, nas redes sociais, não foram poucas as manifestações de muitos desses jovens a favor da destituição da atual presidente.
A chamada Bancada da Bíblia é responsável por levar ao mundo da política os ideais defendidos em seus altares noite a noite. Trata-se de dar revestimento de lei a temas de moral religiosa absolutamente duvidosa. Com isso, eles impõem a toda a sociedade o que são crenças e “valores” de uma parcela da população, entre os quais está o projeto da “cura gay”, o estatuto da família, a diminuição da menoridade penal, a redução dos direitos de mulheres violentadas sexualmente e a autorização do porte de armas, entre outros temas polêmicos. A conta de ontem, portanto, parece óbvia: a bancada da Bíblia tem hoje, na Câmara, 197 deputados. Muitos de seus interesses são partilhados com a chamada bancada do boi, que tem pelo menos 207 parlamentares e a bancada da bala, que soma 35. Os dados são da revista Exame (!), que em seu raio-x de fevereiro desse ano, criou o curioso agrupamento dos “parentes”, com 238 parlamentares. Enquanto isso, a bancada dos direitos humanos é formada por apenas 24 deputados. Não é de se estranhar que as falas de ontem tenham evocado “Deus”, “família” e outros assuntos que podemos resumir sob a ideia de “propriedade”. Essa trindade tem sido apontada como sinônimo de ameaça aos direitos humanos ao longo da história e ela concretiza não só o anacronismo de nossa política, mas a sua perversidade, envolta no malcheiroso enxofre que alguns sentiram ontem na Câmara.
Muitos estão cientes de que as bandeiras dos direitos humanos não são precisamente bandeiras religiosas e nem sequer nasceram das Igrejas. É fácil reconhecer, contudo, uma longa tradição de apoio a essas lutas, algo que remonta aos primórdios do processosde colonização da América (penso especialmente nos frades dominicanos Antonio Montesinos e Bartolomeu de Las Casas), à luta contra a ditadura militar, ao trabalho de educação popular, à ação das pastorais sociais e das comunidades eclesiais de base - só pra ficar no nosso continente. Muitas pessoas que estavam na luta contra o impeachment de domingo são oriundas desses movimentos e, mesmo isoladas, continuam atuando a favor dessas bandeiras. Conheço muita gente séria que está nessas trincheiras, muitas, como o padre Josimo e a irmã Dorothy, inclusive, perderam a vida por enfrentar, no cotidiano, a luta pela justiça social. Conheço jovens que fazem da religião um instrumento de liberdade. Conheço gente séria em todas igrejas e que caminham de par com os defensores dos direitos humanos (insisto: não quero igualar esses movimentos).
Muitas dessas pessoas estão incomodadas com o Deus de Brasília. Talvez para elas, as referências da fila, as bênçãos e orações que davam ar sagrado aos votos individuais dos parlamentares, não passem de cultos idólatras a um novo bezerro de ouro, como aquele retratado por Nicolas Poussin no desenho acima, em torno do qual o povo alienado dançava, enquanto Moisés demorava-se com Deus no monte Sinai. As falas de domingo à tarde e a dança abjeta em torno dos aparatos da mídia, talvez sejam só um sinal de que o Deus de Brasília não passe mesmo de um ídolo e que ali, entre microfones e câmeras, Moisés há de chegar com a ira das divindades...