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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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sábado, 6 de agosto de 2016



Foto: Matt Slocum / AP




Entre os vários acertos da cerimônia de abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro, a bicicleta florida conduzindo as delegações foi o principal. Não só pela beleza da alegoria, sua brasileirice, o efeito alegre e divertido que produziu, mas pela mensagem política e ambiental que portava. A bicicleta foi, na cerimônia, o que é na vida real: uma solução simples, barata, bonita. Um meio de transporte sempre à mão, para gentes e produtos de todo tipo. Um dos primeiros presentes de liberdade às crianças. Na minha infância, o leite chegava de bicicleta, as verduras, o gás, a caixa de refrigerantes e até umas joias da minha mãe, vendidas pelo seu Raimundo, que trazia seus ouros cuidadosamente embrulhados em um pano preto, na traseira de uma magrela. Meu primeiro relógio foi transportado assim. Desde então, os modelos evoluíram muito. Estão mais leves, mais práticos e mais bonitos, mais charmosos e desejáveis. Há bicicletas de grife, bicicletas dobráveis, com capote, de três rodas, elétricas, semielétricas, semibicicletas. No Maracanã, coloridas com flores e frutos, viraram objeto de desejo e sua elegância estética concorreu com a perfeição da Gisele desfilando sobre as curvas do Niemeyer, “num doce balanço a caminho do mar”. Todos revivemos, assim, diante de tanta beleza aquela dúvida existencial tipicamente brasileira: "não sei se caso ou compro uma bicicleta".
Sim, a bicicleta é o ser mais fotogênico que existe. De frente é só um risco. Tem a magreza das modelos mais aclamadas. De lado, tem a circularidade de dois pomos desejáveis. E por meio dela, homem e máquina se redimem. Diferente de todas as outras ferrarias, desde que foi inventada, na China, há dois mil e quinhentos anos, ela é movida pela energia mais saudável de todas, a força humana. Nada de gases poluentes, aquecimento global, efeito estufa. Não. A bicicleta é uma celebração de saúde, receita de alegria, juventude, qualidade de vida. Repare nas pessoas que pedalaram no Maracanã, muitas das quais coalharam as redes sociais de elogios por sua beleza. Sobraram pernas, coxas e abdominais, boa articulação de músculos e tendões, metabolismo acelerado, baixo colesterol, ótima frequência cardíaca. À frente da delegação brasileira, Lea T foi uma das cinco transexuais que fizeram da bicicleta, um elogio à diversidade: bicicleta todo mundo anda, não importa o gênero, a cor da pele, a situação bancária, a idade. A bicicleta é um elogio à democracia, justamente agora em que as pedaladas da presidente são motivo de contenda. Por isso, nada mais justo que, enquanto o interino era vaiado, a bicicleta passasse florida, com a cara do Brasil. Aquilo foi um ato político.
A bicicleta é a máquina mais perfeita criada pelo homem. Quando ela passa, até o 14 Bis abre caminho. Aliás, os primeiros experimentos de Santos Dumont para dar voo a suas maquinarias, utilizaram um aro de bicicleta e propulsão por pedais. Sim, meus senhores: a bicicleta é a mãe do avião. E diante dela, o uso do carro passa a ser um tipo de incômodo e até mesmo uma vergonha. A gente se dá conta de que sentar dentro de uma lata cheia de parafusos e ruelas para ir ao supermercado é, além de desnecessário, ridículo. No trajeto, escapamentos, congestionamentos, acidentes e mortes. A coisa é tão óbvia, que várias cidades do mundo estão se reorganizando em função da viabilidade da calanga. Amsterdã se deixou coalhar por bikes de todo tipo. Paris, Londres e tantas outras aumentam suas redes de ciclovias e promovem semanalmente eventos de apoio e divulgação do ciclismo.
A mensagem ambiental da cerimônia não poderia ter outro símbolo. O Brasil mostrou ao mundo a diversão da bicicleta e sua viabilidade ambiental. Que venham, agora, medidas de incentivo ao uso dessas belezuras em nosso dia-a-dia: retirar os impostos para baratear o custo, aumentar as ciclovias e a segurança e, principalmente, realizar campanhas educativas que convençam a todos (especialmente os motoristas) que andar de bicicleta não é um crime e que o ciclista não está atrapalhando o trânsito e que, por isso, ele merece respeito e admiração. Quando vejo um ciclista, tenho vontade de aplaudir. Ciclistas do Brasil, “aquele abraço!”. Pra vocês a canção de Toquinho, na sua Bicicleta:

Sou eu que te levo pelos parques a correr,
Te ajudo a crescer e em duas rodas deslizar.
Em cima de mim o mundo fica à sua mercê
Você roda em mim e o mundo embaixo de você.
Corpo ao vento, pensamento solto pelo ar,
Pra isso acontecer basta você me pedalar.

B-I-C-I-C-L-E-T-A
Sou sua amiga bicicleta.

Sou eu que te faço companhia por aí,
Entre ruas, avenidas, na beira do mar.
Eu vou com você comprar e te ajudo a curtir
Picolés, chicletes, figurinhas e gibis.
Rodo a roda e o tempo roda e é hora de voltar,
Pra isso acontecer basta você me pedalar.

B-I-C-I-C-L-E-T-A
Sou sua amiga bicicleta.

Faz bem pouco tempo entrei na moda pra valer,
Os executivos me procuram sem parar.
Todo mundo vive preocupado em emagrecer,
Até mesmo teus pais resolveram me adotar.
Muita gente ultimamente vem me pedalar
Mas de um jeito estranho que eu não saio do lugar.

B-I-C-I-C-L-E-T-A
Sou sua amiga bicicleta.




3 comentários:

Unknown disse...

Muito bem Jelson, parabéns! Ótimas considerações, a cara do Brasil!

FABIANA PANTAROTTO disse...

Muito bem Jelson, parabéns! Ótimas considerações, a cara do Brasil!

Jelson Oliveira disse...

Obrigado Fabiana. Um abraço pra você.