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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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domingo, 31 de julho de 2016







Hoje as agressões se repetiram. Tudo de novo. Xingamentos, palavrões, histeria. Letícia Sabatella passava pela calçada. Uma mulher bem nutrida e desvairada descarregou sobre ela o seu ódio, seguida por um senhor que a chamava de puta, (“você é uma puta!”, esbravejava, desconexo, como se isso fosse a verdade das verdades e que tivesse alguma coisa a ver com a situação política do Brasil ou com as posições assumidas pela atriz curitibana). Outros gritos se seguiram em um cordão de furor inexplicável.
Pensei em todos os meus conhecidos curitibanos que estiveram nessas “passeatas terapêuticas” que levaram ao golpe. Não vi nenhum deles hoje. Mas pensei nas suas razões, no modo como agiriam, nas palavras que seriam capazes de dizer. Pensei nos impropérios que eles dizem no mundo privado dos lares, em frente às crianças, nas piadas dos grupos de whatsapp, nas alucinações imbecis que se criaram aqui e ali, mobilizando gente contra gente, em mil e uma notas de ódio. Pensei nos motivos da camisa verde amarelo e suas cargas de cólera e fel. Pensei na corrupção que eles dizem abominar. Nas mudanças que eles dizem almejar. No emprego e na renda que eles tencionam defender. No lucro de suas empresas, nos privilégios de casta que eles teriam perdido, nos financiamentos, nos créditos, nas regalias que reivindicam a plenas unhas. As razões são muitas. E todas elas explicam o desvario, a violência gratuita, a falta de respeito. Todas elas parecem, contudo, sinceramente, absurdamente ridículas! Tive vergonha de seu bimbo e de sua cafonice tresloucada. Tive vergonha de suas caras de ódio, de sua fúria, de sua sanha, de sua palavra zangada. Tive vergonha dessa Curitiba uivosa e desaforada, embora pachorrenta e apática.
Que gente é essa? De que toca saíram? Perco o sono só de pensar que estive na mesma sala que um deles sem saber, que tomei café com alguns, jantei com outros, que provavelmente troquei calorosos apertos de mão, sem me dar conta que ali, no fundo daquela alma, havia tanto amargor, tanta brutalidade, tanto preconceito, tanta barbárie. Muitos deles bateram panelas à noitinha, compraram champanhe para brindar na avenida e pagaram alto para entrar nos estádios com seus palavrões e barbarias. Eu fiquei sabendo disso. Eu até tentei desculpar. Afinal, tudo é festa (pra eles, pelo menos). Mas precisava partir para a agressão e o ataque, levar cartaz a favor do Bolsonaro, faixa pela intervenção militar? Precisava caminhar do lado de alguém que o fez (colega de causa, companheiro de luta)?
Quem xingou a Letícia hoje em Curitiba sofre de um defeito hereditário: a falta de sentido histórico. Essa gente não sabe nada da história brasileira porque, provavelmente, estava confinada em seus condomínios – aqui ou em Miami - quando tudo aconteceu. Essa gente não sabe nada da política que tirou milhares da pobreza, que investiu em educação, que colocou comida na mesa de quem morria à míngua, porque em sua maioria nunca foi sequer à reunião de seu condomínio. Essa gente não sabe nada da história da Letícia para agredi-la dessa forma. Não sabe, por exemplo, que ela é uma incansável lutadora das causas democráticas, que participa do MHuD (Movimento Humanos Direitos), que reúne vários atores e intelectuais, capitaneados pelo Padre Ricardo Rezende, cuja luta em Rio Maria-PA, junto com Frei Henri des Roziers, Aninha, Xavier Plassat e tantos outros, contra o trabalho escravo e a violência rural, é um exemplo do que o nosso país tem de melhor. Trabalho reconhecido e premiado internacionalmente. Essa gente não sabe que Letícia luta pela democracia porque ela é membro da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. Essa gente não sabe que lutar pelos direitos humanos não é coisa de puta e nem de petista e nem de comunista. Essa gente não sabe que... – será necessário mesmo dizer-lhes tudo de novo?
Ou pior, talvez saiba. Talvez tenha ouvido falar, tenha lido na Veja ou n’O Globo ou ouvido de leve, pela boca da Fátima Bernardes e do marido dela. E sendo assim, talvez essa gente prefira mesmo ficar do lado do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, “o pavor de Dilma Rousseff” ou dos assassinos de Irmã Dorothy ou do Padre Josimo, cujos julgamentos a Letícia, essa mesma que caminhava na praça, entre a universidade e o teatro, sempre acompanhou e, pela justiça, emprestou seu nome.          
      Pensando sobre isso tudo, eu lembrei de uma dessas ocasiões. Durante o julgamento dos mandantes do assassinato do líder sindicalista Expedito Ribeiro, na mesa do jantar, em uma calçada pobre de Xinguara, no Pará, um colega de Letícia, o ator Marcos Winter, deu uma lição: o garçom lhe perguntou – com a estranheza de ver um “global” naquela calçada, com aquela gente e naquele lado da história - por que ele estava envolvido naquilo. A resposta rápida e certeira foi uma só: “porque eu sou brasileiro”. Eu engoli meu tacacá com uma lágrima escorrendo no canto dos olhos. Em silêncio.









18 comentários:

Roseane disse...

Bravo, Jelson. Palavras fortes e incisivas! Parabéns!

Geraldo Paulo Pires disse...

Não sei se este senhor que a chamou de "puta' diversas vezes mora em condomínio de luxo, até acredito que não. Em seu perfil no Face consta que estudou na UFPR. Talvez seja da "nova classe média", que ascendeu nos governos Lula e Dilma e que, agora, ao ver que já não consegue manter o padrão, vocifera a favor do "impedimento" do governo. E fará o que estiver ao seu alcance para continuar apoiando o golpe, mesmo que isso signifique chamar uma mulher de "puta" e, por tabela, todas as demais mulheres. Lamentável!

Judite da Rocha disse...

Muito bom o texto ainda bem que tem gente como vc para escrever efalar a verdade para este povo, sem catarater.

Cicero Clarindo disse...

Parabéns, Jelson! Texto límpido, educado, mas sem concessões. É assustador, embora, soubéssemos disso, que o Brasil não é cordial como queria Sérgio Buarque de Hollanda. A elite brasileira e os abduzidos por ela não são cordiais. Nem ao menos educados são. Mas, tenho esperanças: há pessoas que não tergiversam diante das injustiças tão bem expostas em seu texto.

Jelson Oliveira disse...

Obrigado Roseane, um abraço pr você.

Jelson Oliveira disse...

Obrigado Judite.

Jelson Oliveira disse...

Obrigado Cícero. Um abraço meu velho amigo! A única coisa que essa gente guardou da cordialidade do Sérgio Buarque foi a capacidade de escolher pelo coração os seus familiares para ocupar cargos públicos e se sentirem acima de todos. Lamentável. Mas há, sim, esperança.

Jelson Oliveira disse...

Isso mesmo Geraldo. Situação lamentável.

Mandriow disse...

Foi esta pessoa quem agrediu a Letícia.
https://www.facebook.com/gustavoguga.abagge?fref=ts

crookedcockman disse...

JELSON OLIVEIRA, A MINHA MÃE TINHA UM DIZER, ERA UM DITO POPULAR: PAPEL ACEITA TUDO! ESTAMOS NA NET, NÃO HÁ PAPEL; MAS DEDUZAMOS QUE SEU POÉTICO E COMOVENTE TEXTO TENHA SIDO ESCRITO SOBRE UM; PALMAS PARA VOCÊ, MEU CARO!... PAPEL ACEITA TUDO!
O QUE ACHO INCRÍVEL É COMO ALGUÉM QUE SE APRESENTA COM UM INVEJÁVEL CABEDAL DE CONHECIMENTO - QUE PENSA POR '' Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas '', NÃO TENHA ESCRITO UMA LINHA SEQUER SOBRE A ROUBALHEIRA QUE SEMPRE EXISTIU - E FOI SUPERDIMENSIONADA PELOS CANALHAS QUE FORAM APEADOS DO PODER, LEGALMENTE OU NÃO; POUCO ME IMPORTO -, ESTÁ EXISTINDO E QUE SEMPRE EXISTIRÁ; POIS CRIARÃO NOVAS VESTIMENTAS.
PERGUNTO: A SUA UNILATERALIDADE FOI FRUTO DO ESQUECIMENTO OU VOCÊ É O QUE É, SUBVENCIONADO, COMO MUITOS, POR ESSA CATERVA QUE ESTÁ SENDO REVELADA A CADA DIA PELAS INVESTIGAÇÕES DA LAVA JATO?

Marília Verissimo disse...

Bonito e tocante teu texto, companheiro. Belas palavras. Eu só faria uma ressalva: estou acompanhando o movimento das prostitutas organizadas por direitos, por proteção social, contra a violência/misoginia, contra o preconceito, contra a prostituição infantil. E te digo: lutar pelos direitos humanos também é coisa de puta. abraço solidário!

Marília Verissimo disse...

Bem típico de teleguiados que se informam com o Bonner e cia. escrever tudo em caixa alta... ;)

Zilma disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Zilma disse...

E o sujeito escondido atrás de um nome de guerra que nada diz, não conhece "colarinhos brancos ", "sete anões ", "esmeraldas ", "compra de votos para reeleição "...enfim, como reza a lenda dos coxinhas, "antes de 2013 o País era puro, decente e belo....sem mácula "!!!

Jelson Oliveira disse...

A este senhor que eu não conheço e que, de fato, se esconde sob uma ficção, que não me conhece e nem leu tudo o que escrevi e que, sendo assim, afirma o que não sabe, dando-se como prova do que eu mesmo escrevi no meu texto, a ele, além das palavras já escritas acima, a ele cabe esclarecer que não é de partido que estamos falando, mas da arrogância e da barbaridade humana e que, sim, meu senhor desconhecido, sim, eu sou contra a corrupção de quem quer quer seja e que, sendo provado, que seja julgado e preso, e que, não meu senhor desconhecido, não sou a favor da perseguição seletiva e da gritaria (que inclui, pelas regras de etiqueta da internet, escrever em caixa alta) que vocês estão fazendo, cujo último sentido é afundar o país nos velhos privilégios e nas mais primitivas corrupções (ou o senhor não viu a raiz genealógica dos xingadores?) e, antes do ponto final, meu ilustre desconhecido, não, não tenho nenhuma subvenção de ninguém para o meu pensamento, que é a única coisa livre que eu tenho de verdade e, antes que o senhor se pergunte porque eu não apaguei a sua mensagem, antes do ponto final ainda, lhe informo que é para que futuros leitores vejam, abismados, o senhor como exemplo.

Jelson Oliveira disse...

Obrigado Marília, que bom que você entendeu a minha intenção e contribuiu para o esclarecimento: sim, DH é coisa de puta, de petista e de comunista. Mas no exato sentido dessas condições e opções. Não no sentido que os preconceituosos de plantão querem lhe impor. Obrigado e parabéns pelo trabalho.

Jelson Oliveira disse...

Zima, essa é a questão: a corrupção é endêmica; quando haverão de prender, denunciar, julgar e condenar os demais, esses que todos sabemos o nome? Alguns dizem: começar por tirar a Dima, o PT... tudo bem, foi feito. Alguém se mobilizou para mais? Alguém? Não. Ninguém. Agora a praga está exterminada e o inço poderá crescer em paz.

Magdi Nachar disse...

Parabéns Jelson, seu texto foi devastador, no sentido de escancarar, a verdadeira alma provinciana, e elitista, que está nas entranhas, da dita "Sociedade Curitibana".