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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016








A exposição organizada por Didier Ottinger, no Centre Georges Pompidou, em Paris, dá prova não só da incontornável grandiosidade estética da obra de René Magritte, mas sobretudo de seu conteúdo filosófico e de sua poética ao mesmo tempo incômoda e fascinante. Poucos pintores foram tão enigmáticos como ele. Quem visita as cinco salas da exposição sai de alma sangrada, porque adentra no mundo surreal do pintor belga e o acompanha aos seus abismos mais profundos, onde somos deixados sozinhos. Se a traição das imagens é o título da exposição, somos nós os traídos. Depois de ter nos induzido à aventura, Magritte nos deixa perdidos nos labirintos de seu mundo de sombras e ilusões.
Isso porque, desde seu encontro com o quadro Chant d’amour, de Giorgio Chirico, em 1923, Magritte dedicou-se a pensar com imagens e, sobretudo, a mostrar o quanto o pensamento é limitado e o quanto palavra e imagem, malgrado suas similaridades, falham em dizer e em mostrar o mundo. A estética do choque de Chirico fez Magritte despertar para aquele que seria o problema central de sua obra. O mundo de Magritte parece mesmo inacessível em si mesmo, o que lhe empurra para as fronteiras do nonsense, do indecifrável, do inexprimível e, às vezes, do incompreensível. O que se vê nunca é o que se presume verdadeiro porque esse é o seu jeito de dizer que nós somos adoradores de bezerros de ouro, cuja veneração, como na Bíblia, impede o acesso ao sagrado – de um deus ou de um mundo.
Deposta sobre o quadro de Magritte, algumas vezes a palavra diz a coisa sem imagem, em outras a imagem diz o que a coisa não é, em outras ainda, o título da obra soma-se ao enigma para exprimir algo que não está nem na imagem, nem na palavra. O enigma se torna, aos poucos, uma soma de significâncias não significantes que eu gostaria de chamar, impudicamente, de “aula de filosofia”, pensando na essência mesmo do pensar, que é escavar o real na sua sombra, entre as cortinas entreabertas, a maçã, o chapéu, o mar e o céu – ah... sobretudo o céu, ali, desmontado de suas divindades.
Boa parte dessa experiência à qual Magritte submeteu a sua arte e à qual ele agora nos sujeita, vem do seu envolvimento com os surrealistas franceses, especialmente o grupo de André Breton. Outra parte, contudo, vem das suas referências filosóficas, que incluem a História natural de Plínio, O Velho (o relato da invenção da pintura por Dibutades de Sicyone, que queria socorrer a própria filha da saudade do amante que partira para uma grande viagem, é uma forte influência para Magritte); a alegoria da caverna de Platão e suas lições de representação e simulacro; filósofos contemporâneos como Alphonse de Waehlens (professor da Universidade de Louvain, tradutor e especialista em Heidegger, Husserl e Merleau-Ponty) e Chaïm Perelman (fundador da nova retórica); mas também o próprio Merleau-Ponty e, sobretudo, Michel Foucault, cujo livro As palavras e as coisas (1966), serviu a Magritte tanto como provocação quanto como sumário de sua própria obra. Com Foucault, Magritte partilhou a crítica à linguagem em sua relação com a realidade, recuperando o debate medieval em torno dos universais e recolocando a pergunta sobre o poder da palavra na sua relação com o mundo. Como se sabe, a correspondência entre ambos motivou a publicação da homenagem póstuma de Foucault ao pintor, no livro Ceci n'est pas une pipe, de 1973.
No Pompidou, entre tantas obras, tive uma alegria especial diante de A condição humana, de 1935, que faz parte da série sobre a alegoria da caverna de Platão, que enche toda uma sala. A ilustração que me sequestrou é uma das poucas nas quais Magritte trata explicitamente do teatro das sombras como falsa representação do mundo, substituído pelo cavalete na entrada de uma gruta, no qual encontra-se uma tela sobre a qual se projeta uma ilusão realista estonteante. Não se sabe onde começa o mundo, onde termina a caverna, onde começa a pintura. Estamos vesgos à procura do esquadro que dilui a imagem e o mundo, ao mesmo tempo que os aproxima e emenda. Pintura e mundo diluem-se diante do olho do pintor. O pintor, ele mesmo, está preso no mundo da caverna, como um escravo da imagem. Ele olha de dentro para fora. Entre ele e o mundo, está a tela a ser pintada. Na tela, o que se vê, é o mundo projetado pela ilusão do prisioneiro que olha para fora cheio de esperança mas, também, consciente da traição da imagen. Como na história de Platão, o pintor quer se libertar da caverna, pintando. Quer sair do escuro e seguir a luz prometida na luminosidade da tinta que é seu material. Ele, contudo, não alcança êxito. Não há mundo real acessível ao olho humano. O pintor é, ele mesmo, um traidor. Promete o que não pode cumprir.
Em Magritte, a pintura imita o pensamento e o pintor se investe de filósofo. Ou, pensando bem, em Magritte o pintor expõe o ridículo do filósofo que, perdido no âmbito dos discursos, acredita na palavra como curativo para as suas feridas. No pintor, o filósofo sangra toda a sua tinta. A gente, sedento, posiciona-se à beira do precipício da tela, sob a chuva, para vislumbrar o espetáculo de nosso próprio suicídio. O que está visível é a desconfiguração completa do que nós somos e do mundo no qual vivemos. Com Nietzsche, com quem Magritte também flertou, a gente aprende que “aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não se tornar também um monstro”, porque, afinal, “quando você olha demoradamente para um abismo, o abismo também olha de volta para você”. Ver Magritte numa sala do Pompidou é contemplar o perigo na forma do abismo que cresce para dentro de nós mesmos. Ver Magritte é como entrar de novo na caverna, depois de tantos anos de luz, meio como voltar ao útero e ver de dentro o nosso próprio parto, tudo ao avesso. Ver Magritte é, literalmente, ficar sem chão.

* Não, ceci n'est pas la verité.

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Um pouco mais do que vi (as fotos estavam permitidas):

Carta de Margritte a Foucault
Carta de Margritte a Foucault


Exemplar do livro de Foucault pertencente a Margitte





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