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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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segunda-feira, 18 de abril de 2016







Muitos de nós ficamos indignados com as reiteradas referências morais e religiosas que fizeram parte do espetáculo enfileirado da tarde de ontem no corredor central da Câmara dos Deputados. A justificação do voto de uma parcela significativa dos senhores deputados e deputadas revelou um fenômeno que faz parte do cotidiano de nosso país nas últimas décadas: o crescimento do conservadorismo patrocinado pelas igrejas de viés neopentecostal e sua intensiva expansão política por meio da chamada Bancada da Bíblia. Não quero generalizar e muito menos parecer discricionário, mas parece evidente que esse movimento reacionário ultrapassou as paredes dos templos (alguns pequenos e improvisados, outros portentosos e suntuários) por meio de uma pregação cotidiana de cunho político-ideológico fundamentalista, que opõe o bem ao mal de uma forma tão simplista quanto perigosa tanto nos altares quanto nas televisões da nação. Essas Igrejas hoje representam quase cinquenta milhões de brasileiros e sua representatividade na Câmara aumentou mais de trinta por cento no último pleito eleitoral.
À força desse movimento junte-se o recuo das igrejas tradicionais quanto às questões sociais e à articulação entre fé e política, amplamente abominada nos anos dos papados de João Paulo II e Bento XVI. Isso fez com que alas antes atuantes em favor dos direitos humanos e de políticas sociais inclusivas, fossem isoladas e contidas, diante dos novos fenômenos do show-missa e dos padres cantores. Por consequência, a interpretação social do evangelho e as preocupações com as estruturas de opressão da população menos favorecida, acabaram dando lugar a velhas teologias, muitas das quais amparadas em visões eclesiais subjetivistas e reduzidas ao discurso da prosperidade e da moralização da vida em geral. Não são poucos os jovens membros das classes mais pobres que chegam aos seminários com o afã de vestir suas túnicas e clérgimas, símbolos do poder e do desejo de posse e de conforto, sob o custo de esquecerem completamente suas realidades de origem e os anseios de sua gente. Reduzindo sua ação, quando muito, à caridade que não transforma, mas apenas mantém as desigualdades, e acomodados em suas poltronas de veludo, muitos desses religiosos celebram o mesmo Deus dos Cunhas, Malafaias e Felicianos. Ontem mesmo, nas redes sociais, não foram poucas as manifestações de muitos desses jovens a favor da destituição da atual presidente.
A chamada Bancada da Bíblia é responsável por levar ao mundo da política os ideais defendidos em seus altares noite a noite. Trata-se de dar revestimento de lei a temas de moral religiosa absolutamente duvidosa. Com isso, eles impõem a toda a sociedade o que são crenças e “valores” de uma parcela da população, entre os quais está o projeto da “cura gay”, o estatuto da família, a diminuição da menoridade penal, a redução dos direitos de mulheres violentadas sexualmente e a autorização do porte de armas, entre outros temas polêmicos. A conta de ontem, portanto, parece óbvia: a bancada da Bíblia tem hoje, na Câmara, 197 deputados. Muitos de seus interesses são partilhados com a chamada bancada do boi, que tem pelo menos 207 parlamentares e a bancada da bala, que soma 35. Os dados são da revista Exame (!), que em seu raio-x de fevereiro desse ano, criou o curioso agrupamento dos “parentes”, com 238 parlamentares. Enquanto isso, a bancada dos direitos humanos é formada por apenas 24 deputados. Não é de se estranhar que as falas de ontem tenham evocado “Deus”, “família” e outros assuntos que podemos resumir sob a ideia de “propriedade”. Essa trindade tem sido apontada como sinônimo de ameaça aos direitos humanos ao longo da história e ela concretiza não só o anacronismo de nossa política, mas a sua perversidade, envolta no malcheiroso enxofre que alguns sentiram ontem na Câmara.
Muitos estão cientes de que as bandeiras dos direitos humanos não são precisamente bandeiras religiosas e nem sequer nasceram das Igrejas. É fácil reconhecer, contudo, uma longa tradição de apoio a essas lutas, algo que remonta aos primórdios do processosde colonização da América (penso especialmente nos frades dominicanos Antonio Montesinos e Bartolomeu de Las Casas), à luta contra a ditadura militar, ao trabalho de educação popular, à ação das pastorais sociais e das comunidades eclesiais de base - só pra ficar no nosso continente. Muitas pessoas que estavam na luta contra o impeachment de domingo são oriundas desses movimentos e, mesmo isoladas, continuam atuando a favor dessas bandeiras. Conheço muita gente séria que está nessas trincheiras, muitas, como o padre Josimo e a irmã Dorothy, inclusive, perderam a vida por enfrentar, no cotidiano, a luta pela justiça social. Conheço jovens que fazem da religião um instrumento de liberdade. Conheço gente séria em todas igrejas e que caminham de par com os defensores dos direitos humanos (insisto: não quero igualar esses movimentos).
Muitas dessas pessoas estão incomodadas com o Deus de Brasília. Talvez para elas, as referências da fila, as bênçãos e orações que davam ar sagrado aos votos individuais dos parlamentares, não passem de cultos idólatras a um novo bezerro de ouro, como aquele retratado por Nicolas Poussin no desenho acima, em torno do qual o povo alienado dançava, enquanto Moisés demorava-se com Deus no monte Sinai. As falas de domingo à tarde e a dança abjeta em torno dos aparatos da mídia, talvez sejam só um sinal de que o Deus de Brasília não passe mesmo de um ídolo e que ali, entre microfones e câmeras, Moisés há de chegar com a ira das divindades...




2 comentários:

Direito Agrario disse...

Muito bom. Parabéns, Joelson.

Unknown disse...

Parece que caminhamos em passos largos para o retrocesso.