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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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segunda-feira, 28 de março de 2016


“Tá chovendo aí?” Quando ela liga, para saber como a gente está, uma das primeiras perguntas é sempre essa. Virou até gracejo entre nós. No meio da conversa, entre uma notícia e outra, basta alguém lançar a interrogação e a gente se derrete em gargalhadas.

Graças à parte, preciso reconhecer: minha tia pergunta, porque sabe da importância da chuva para minha família. Ela vive no Rio Grande do Sul, meus pais migrantes, no Tocantins. As chuvas, no Norte, têm função decisiva na vida das pessoas. Por lá, seis meses de estiagem alimentam saudades de dilúvios. Pudera: sob um sol abrasivo, os dias são corrosíveis ardumes, metade deles sacudidos por um vento aceso e desconfiado que arremessa para o alto a poeira rubente das estradas e, aos poucos, abate a esperança das gentes contra horizontes borrados de calor e luz. O ar quente enxuga a tez e repele as nuvens. Tudo se aninha próximo ao desalento, cheio de preguiceiras.

No meio da secura todos os seres ficam minguados. Até os grandes rios se encolhem, desprotegidos. Eles, contudo, grandes que são, parecem entender o deleite dos ribeirinhos e tratam de secar as gorduras da correnteza para exibir suas areias douradas em praias paradisíacas onde tudo é terso e limpo. Rios, no meio da seca, acalmam olhares como oásis de desertos. No Norte, em julho, quando o estio está no auge, a gente gosta de exaltar a resistência dos dois irmãos de seiva que se derretem nas paisagens de meio Brasil. Araguaia e Tocantins, correm desnudos e paralelos até se encontrarem na unidade das alegrias da terra dos Apinajés que o mapa celebra como Bico do Papagaio.  

Sei que os rios inspiram chuvas. Passam-se os meses e, em meio à seca, quando menos se espera, as gotas despencam. Sua novidade é evocada pela interrogação da minha tia e a dúvida ontológica de quem sabe que em cada pingo, goteja uma semente. E que, do nada, o cerrado se enfeita em todas as direções. E que as cigarras cantam iludidas nos pequizeiros em flor, deslumbradas pelo evento magnífico das precipitações. Minha tia sabe que naquelas paisagens rasteiras, a primeira das chuvas é noticiada com a pompa dos grandes acontecimentos. Ela sabe também que no meio da chuvarada o pequi fica ensopado de amarelo e que seus troncos tortuosos, sua casca áspera e suas folhas pilosas exprimem o sexo dos vegetais, rejuvenescidos pelo aguaceiro. Um pouco mais, e as araras reiniciam seus voos entre os magros buritis que sobrevivem nas veredas. Insetos cavoucam com a voracidade de antigas criaturas. E toda uma estética de brotações, sementes e folhas minúsculas se espalha sobre as planícies. Um alfabeto inteiro de plantas começa a brotar ao redor das casas. O poema ganha assunto, entre barros e mormaços. Meu pai se alegra com o milho que viça entre as mandiocas e outros bulbos que acordam, sobreviventes. As vacas mugem como nunca e o leite é a fartura da criançada.

Ao perguntar pela chuva, minha tia idealiza a simplicidade dessas coisas essenciais que eu comecei a ver nos trabalhos de Ronaldo Fraga. Um dos filmes que ele me enviou mostrava sua experiência com mulheres da Amazônia na confecção das chamadas biojóias. Foi lindo ver aquelas sementes costuradas com o enlevo das grandes chuvadas amazônicas, rejuntadas com os sonhos e os risos daquelas mulheres cujos olhos viram a floresta celebrar a fertilidade das sagradas molhanças e cujas mãos colheram seus frutos. Com Ronaldo, na passarela, a semente recuperou a originalidade de um pingo d’água, coagulado no colorido que faz da Amazônia a nossa floresta e da moda – esse objeto de conjunção consumista - um terreno fértil para a defesa de outras causas. A das sementes, entre elas. Açaí, jupati, morototó e dedo de índia foram pendurados na esbelta beleza das manequins. Na moda de Fraga, gente é como árvore. Na passarela, balançou a candura agreste dos grãos que crescem nos sertões abertos do Brasil, entre fios, rendas, escamas, folhas, nódulos, caramujos, palhas, sorrisos de gente, rumores do vento e grunhidos de pássaros para o leste. Ronaldo colocou na moda, a madrugada longa e chuvosa do meu pai e os destinos de gente como ele, afiançados pelo futuro que toda semente armazena.


Ronaldo – como minha tia - sabe que tem chuva dentro do grão. E que dentro do grão tem esperança para o meu pai e para todo o povo brasileiro – enquanto chover na terra, contra todos os desvios do clima e todas as catástrofes da irresponsabilidade humana. No Norte agora, é tempo de chuva! Esse é o melhor jeito pra gente celebrar o Brasil: com os brasileiros; com as brasileiras.



2 comentários:

Caminhando junto... disse...

LINDO E INSPIRADOR NA SINTONIA TOTAL ...ADOREI FAZER PIT STOP E LER....SUBLIME

CRAS FIGUEIRÓPOLIS disse...

Simplesmente linda suas palavras em forma de poesia, retrata tão bem nossas belezas Tocantinenses.