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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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sexta-feira, 8 de setembro de 2017




Quando o Vando chegou, nas terras antigas das missões gaúchas, os butiás começavam a florir à espera do verão. Outubro se erguia vigoroso sobre os telhados da Vila Hortêncio. À rua Zildo Eisman, entre a hípica e o carmelo, a gente cresceu livre. Quando era frio, o gelo dos campos quebrava sob os nossos passos depois da longa geada, até que o calor do sol varresse as neblinas para longe, como era costume. Nessa época a gente já brincava de viajar, agarrados pelas camisas: o Vando na direção, a Luciane com o Tito no colo, eu agarrado atrás. A gente ainda não sabia, mas ensaiava o grande destino da família. Um dia um caminhão encostou em frente à nossa casa e alguns homens carregaram a nossa mudança, enquanto minha mãe pedia cuidado com os móveis da cozinha. A gente viajou três dias. A gente não sabia o destino. Vando dizia que estávamos indo para Florianópolis. Na dicção das crianças, Figueirópolis ainda era um vocábulo indizível. Meu pai ria às gargalhadas. A gente só via estrada, estrada e mais estrada.
Quando a gente chegou por aqui, só havia uma rodovia estreita, entre casas e ruas inundadas. A gente cresceu entre as chuvas e as poeiras. No início não foi nada fácil. Minha mãe chorou semanas inteiras, consolada pela experiência das amigas que já haviam ultrapassado aquela dolorida fronteira. A cada ano uma viagem de volta ao sul, um sofrimento infinito, uma vontade de não voltar mais para o norte, uma promessa de vender as coisas e retornar pra casa. Com o tempo, a gente se resignou, criou raízes, encontrou amigos e plantou sementes. O Vando tecia sonhos. Fez curso de mecânica por correspondência, comprou bicicleta, som três em um, relógio de pulso. Quis ser aviador, tocador de viola, fazendeiro. Pras bandas do morro, ele encontrou a Chiei e com ela, não demorou, chegou a Isabella. Mas havia falta de futuro para quem só sabia de terras improdutivas, trabalho duro e colheita escassa. Sem terra, o Vando buscou alternativa no Paraná. Sob os invernos rigorosos de Balsa Nova, a 70 Km de Curitiba, ele plantou cebola e feijão, repolho e milho, semeados com arado puxado pela Cabrita, que apesar do nome, era um égua linda. A Chiei fazia pão e plantava horta. A Isabella observava atenta o crescimento dos eucaliptos, entre o riacho e a casa de madeira azul que se impunha na altura do horizonte. O Ivanzinho nasceu e foi tudo festa durante 8 anos. A gente fazia projetos nas noites extensas e não havia nenhuma distância entre os nossos corações, embora voltar para o Tocantins fosse um sonho comum.
Na volta, o Vando continuou sonhando aquele tipo de sonho estranho que a gente sonha na ponta dos dedos, no calo das mãos, nas unhas sujas de terra e graxa. O Vando sonhou como poucos esses sonhos madrugueiros, de quem perde feriado, festa de família e ano novo para plantar roça, reformar trator, montar colheitadeira. Pele queimada pelo sol, jeito matreiro, entre rústico e rígido, meio bravo e selvático, ele frequentava esse mundo desconhecido de fazendas, matas, morros, rios e silêncios, sem nenhuma vaidade, sem nenhum luxo, mas cheio das indizíveis forças cujas fontes, ignoradas, a gente vai buscar para sempre.  Inquebrável, esse menino de troncos, rodas e ferramentas, deixou a lição mais limpa e fundamental: a lição do trabalho, da dedicação, da honestidade, da simplicidade e de todas as suas suficiências. Com ele, a gente aprendeu a questionar os próprios ideais, para dar preferência ao essencial de um broto crescido no meio da pedra seca.
Agora que estamos esperando de novo a chuva e que essa terra estranha tornada nossa, abraça o nosso irmão com a leveza de eternidades, a gente seca as lágrimas na certeza de que não morre quem plantou na terra as sementes da esperança, mas ganha um céu pra plantar inteiro. Porque nós sabemos que o Vando, aqui no Tocantins, não morreu como um estrangeiro, mas como um filho da terra, entre as flores singelas do cerrado que ele tanto amou, nós agradecemos aos amigos que enviaram mensagens de condolência e acompanham a nossa dor. A tragédia da última sexta-feira acordou em nós o amor que vamos dedicar ao Vando pra eternidade. Nossa vida, a partir de agora, será uma homenagem a esse menino de mil olhos, que viu tantos horizontes quanto o coração humano pode suportar e que, afinal, deixou seu corpo espalhado na rodovia para viajar além do espaço e do tempo, plantando cada uma das estrelas que cintilam nas noites nossas, entre a saudade e a espera. Sim Vando, “Uberaba e Uberlândia já ficaram pra trás”. O mundo ficou pequeno demais pras nossas viagens infinitas. Você foi muito depressa, mas a gente continua viajando juntos. Vamos prestar mais atenção na estrada, embora ainda falte sinalização na rodovia, embora ainda haja imprudência e descaso, embora ainda seja urgente evitar que outras mães, filhos e esposas chorem as mesmas lágrimas que nós.





6 comentários:

Marcia disse...

O Vando arava a terra e plantava sementes, o irmão caçula semeia com papel e caneta. Dois jardineiros, de olhos iguais, acho que da mesma cor. Será que um dia a saudade deixará de doer?!?! :'(

Rosi Sinja disse...

Que lindo! Onde estiver seu irmão lhe será grato por essa mensagem sincera,revestida de poesia, onde quem lê pode viajar no tempo e sentir um pouco o tamanho dessa dor.

Arlete Guariente disse...

Infância dura, mas linda é fértil que vocês compartilharam Prof. Jelson. O Vando em sua lindeza vai continuar plantando flores onde estiver. Parabéns por ter tido a permissão de ter convivido com seres tão luminosos!

Jelson Oliveira disse...

Essa ferida nunca vai sarar... Obrigado.

Vanusa Andrade Barankievicz disse...

Professor querido, perdi um irmão ainda em tenra idade, tb vivemos uma infância de sítio, onde tudo é compartilhado, cama, sapato etc...viva o luto pelo tempo que lhe for necessário, certamente só as memórias ficam e, de vez enquando, não se assuste se alguém te achar maluco por - do nada - esboçar aquele sorriso no canto da boca que só vc sabe do que se trata: a lembrança, a memória de um momento bom com o seu querido. Acontece comigo...bjs no seu coração!

hailon matheus disse...

Moço inteligente, que tratava bem quem estava ao seu lado, não é atoa que gostava de cantar e que nesses últimos dias pela última vez que o vi foi de maneira Alegre, cantamos, relembrei umas músicas e ele começou a falar sobre elas, sobre a vida dele, de quando ele veio pro Tocantins..(''se farinha fosse americana mandioca importada banquete de bacana era farinhada '') essa música fez com que ele viajasse no tempo, mas afinal, que esteja em paz meu bom amigo e que Deus conforte toda a sua família😪👏