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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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terça-feira, 28 de novembro de 2017




O recorde demográfico urbano, aliado aos desafios em termos de habitação, mobilidade, alimentação, emprego e questões ambientais, tornou-se um dado central para pensarmos a própria humanidade. É preciso, mais do que nunca, avaliarmos o impacto desse cenário sobre as relações humanas, a constituição das subjetividades, seu passado e suas potenciais futuras.
Eis a problemática que mobilizou um filósofo e dois arquitetos urbanistas para debater o tema da cidade. O resultado é um livro instigante e provocativo, escrito em uma linguagem ensaística e dialogal, cuja acessibilidade torna a leitura instrutiva e aprazível. A soma de referências teóricas de cada uma das áreas, os relatos de experiências de cada um dos autores, as citações de poemas, filmes e obras de arte em geral são os ingredientes benéficos que fazem dessa obra um diálogo interdisciplinar sobre um dos temas mais importantes da nossa vida contemporânea.
De um lado, Jelson Oliveira nos mostra como a filosofia, ao longo dos tempos, se importou com o tema e como ela continua útil para pensar os desafios da vida urbana, sobretudo do ponto de vista ético. De outro, Andrei Crestani e Clovis Ultramari oferecem um olhar crítico sobre a tradição da arquitetura e do urbanismo, responsáveis pelo planejamento objetivo da cidade, cujos reflexos eles identificam nos modos como os seres humanos organizaram a sua vida desde tempos primordiais.
O livro é o terceiro volume da Coleção “Café com Ideias”, da PUCPRess, que já lançou Diálogo sobre o tempo e Diálogo sobre a alegria, escritos por Jelson Oliveira e a historiadora Marcella Lopes Guimarães.
Seguindo a abordagem interdisciplinar da coleção, o presente volume está dividido em cinco capítulos: no primeiro, os autores analisam a dificuldade de decifrar o conceito de cidade; no segundo, saem em busca das cidades invisíveis que se escondem por trás daquilo que é visto de imediato; no terceiro formulam uma das teses centrais do livro, segundo a qual a cidade é uma experiência, o que implica que, para falar a seu respeito, é preciso recorrer às nossas memórias pessoais e coletivas; a partir dessa constatação, o quarto capítulo trata de analisar como a tradição teórica de cada uma das obras contrasta os ideais de cidade às cidades reais –isso é feito com referência às principais obras que formaram o pensamento dos autores a respeito da cidade. O livro termina, no quinto capítulo, com a confissão dos autores, que falam do dissenso e das tensões de suas próprias escritas, expressando com isso as dificuldades e até mesmo as impossibilidades de enfrentamento do tema, concluindo, afinal, sobre a pluralidade e a multipli-cidade das nossas experiências urbanas.
Por isso tudo, a obra interessa a pesquisadores, professores e estudantes da filosofia, da arquitetura, do urbanismo e de áreas afins. Interessa também àqueles que desejam praticar o pensamento com crítica e elegância, fomentando a reflexão sobre a vida cotidiana, que se compõe das experiências do trânsito, das compras, da velocidade das avenidas, do aconchego das moradias (ou da falta delas), das praças e dos monumentos, dos afetos e dos medos que transitam no mundo intra-humano das cidades que habitamos.

TÍTULO: “DIÁLOGO SOBRE A CIDADE”
COLEÇÃO: “Café com Ideias”, volume 3
AUTORES: Andrei Crestani, Clovis Ultramari e Jelson Oliveira
EDITORA: PUCPRess.

LANÇAMENTO E BATE-PAPO COM OS AUTORES
07.12.17, às 19h, na Livraria da Vila (Shopping Pátio Batel)


domingo, 26 de novembro de 2017




Recebi hoje, no aeroporto de Joanesburgo, na África do Sul, a triste notícia da morte de Frei Henri des Roziers, frade dominicano que trabalhou mais de 40 anos no combate ao trabalho escravo, na luta pela reforma agrária e pelos direitos humanos no Brasil. Henri morreu em Paris, no Convento onde passou os últimos anos de sua vida, com saúde frágil, uma atenção plena e uma alegria invejável. Fonte de inspiração de uma grande quantidade de pessoas, Henri reuniu ao seu lado uma centena de gente que conspira e se inspira conjuntamente, que se encontra em torno da vida desse homem que fez dos seus atos individuais, os gestos coletivos de luta e de resistência. Tenho orgulho de colocar o meu nome nessa lista. 
Sua vida foi, sempre, uma vida política. E esse foi o convite que ele dirigiu a todos. E para isso, mostrava o caminho que ele mesmo seguira: as grandes utopias da liberdade, a radical experiência da fé encarnada vivida por homens como Antonio Montesinos e Bartolomeu de Las Casas, nas horas iniciais da colonização da América. Por seu trabalho, recebeu prêmios e honrarias. Mas nada lhe tirou a humildade. Foi, sobretudo, um construtor de pontes, cujo cimento foi a esperança na luta pela justiça. Nessa tarefa, uniu mundos aparentemente incomunicáveis. Ele fez o estudante francês da Sorbonne de maio de 68 se encontrar com o sem-terra do sul do Pará; ele fez com que os jovens Katangais compartilhassem seus destinos com os jovens vítimas do trabalho escravo da Amazônia; que advogados do Haute-Savoie servissem de exemplo para os advogados do norte do Brasil; que os frades franceses se vissem em Tito de Alencar e nos jovens frades brasileiros que lutavam contra a ditadura; que o humanismo cristão se encontrasse com a teologia da libertação; que Congar, Chenu e o Cardeal Arns sentassem à mesma mesa; que o Centro Saint-Yves e a CPT se reconhecessem reciprocamente; que a autoridade jurídica do advogado se unisse à autoridade moral do religioso; que o direito se encontrasse, afinal, com os pobres. Assim, Henri viveu sua vocação ao extremo e deu sentido à sua vida como poucos conseguiram. À sua cepa pertence gente como Tito de Alencar, Tomás Balduíno, Irmã Revi e Lília Azevedo, que se inspiraram mutuamente.
Foi com palavras embrulhadas por um sotaque francês e com roupas rotas, que ele frequentou tribunais para defender as gentes sem defesa contra a impunidade. Advogado das causas da terra, ele conhecia de perto as vítimas e suas dores. Fez disso a sua estratégia de luta e nunca esmoreceu diante das muitas ameaças que sofrera. Ao contrário, toda vez que seu nome aparecia nas listas dos marcados para morrer, a luz dos seus olhos pequenos brilhavam com mais força. E era essa fonte de luz que animava quem estava ao seu lado.
A primeira vez que o vi eu tinha 16 anos e ele visitou a minha casa, no sul do Tocantins. Embora eu não o conhecesse e não entendesse bem a visita, sentia que aquele era um acontecimento decisivo para mim. Desde então, segui esse homem o quanto pude. A última vez que o vi, no quarto do Convento Saint Jacques, onde fica a famosa biblioteca dos Chorões (visitada por Foucault e tantos outros) em Paris, ele estava efusivo. Deixei-o feliz diante da janela, por onde se esparramava uma árvore frondosa, cujas folhas douradas ele não cansava de contemplar e que vinham suavemente morrer contra a vidraça do quarto. Aquela árvore outonal prenunciava para mim o destino do homem que, no outono da vida, murchava como as folhas. Mas como elas, também declinava com beleza, tornando-se fertilizante de outras vidas. Como aquela árvore, a vida de Henri se prolongou nos seus adubos. A quem fica, restam ainda outras estações, vitalidades e decadências. Continuaremos contemplando as árvores, atentos às estações, cuidando do tempo que é nosso. Embora uma parte de nós morreu com Henri hoje, uma outra com ele se rejuvenesce. Em silêncio, olhos marejados, colheremos os frutos e as boas sementes do mundo que há de vir. Sim: aquela árvore foi sua última lição.



segunda-feira, 18 de setembro de 2017








Acho que o sentimento não é só meu: às vezes a gente acorda cedo e parece ter recuado milênios no tempo e milhares de quilômetros no espaço. A notícia de hoje, por exemplo, me levou para os piores dias da Idade Média ou para algum país como a Mauritânia, o Sudão ou a Arábia Saudita, onde a homossexualidade ainda é punida com pena de morte. Isso se chama retrocesso. E suas causas são a desinformação, o preconceito e a discriminação que costumam grassar facilmente com ajuda das canetas de magistrados brasileiros, filhos da elite que sequestrou um dos poderes da pátria para a defesa de seus privilégios.
A decisão da justiça do Distrito Federal, que libera os psicólogos a tratarem a homossexualidade como doença, é desses sinais desoladores de que o Brasil está mesmo no caminho errado. Sobram incongruências e leviandades quando a justiça se rende aos interesses de pessoas moralistas e fundamentalistas que, como em tempos sombrios do passado, pregam purismos à revelia dos valores, com a intenção de esconder suas próprias sujeiras debaixo dos tapetes persas que forram seus foros íntimos.
Contrariando evidências científicas e jurídicas, a decisão representa uma grave violação aos direitos humanos. Além de ser sintoma do preconceito de seus autores, ela é fruto do atraso, da precariedade e da má-fé do magistrado, que ignora inclusive a decisão da Organização Mundial da Saúde, de 1990, que retirou a homossexualidade da lista internacional de doenças.
O que o juiz Waldemar Cláudio de Carvalho autorizou, não foi apenas a pretensa reversão sexual (assunto por si mesmo risível a toda pessoa minimamente esclarecida). O que ele liberou foi o preconceito contra pessoas que são indesejadas socialmente, que se escondem em quartos escuros meramente pelo fato de terem nascido com uma orientação sexual diferente do padrão socialmente aceito. O que esse juiz permitiu, foi a agressão e a violência cotidiana que se alarga no Brasil em índices alarmantes, sob o silêncio da justiça. O que ele tornou legítimo foi a intolerância que faz vítimas diárias, que podem estar em qualquer família brasileira. O que ele autorizou foram procedimentos sem resultado, que provocam sequelas e aumentam o sofrimento psíquico de quem muitas vezes já tem dificuldade de lidar com sua própria condição, com seus desejos constituintes e com seus modos próprios de buscar a felicidade. Por isso, junto com os psicólogos que impetraram a ação, o doutor Waldemar será corresponsável, a partir de hoje, por todos esses atos, pelas vítimas agredidas e assassinadas que caem às centenas no Brasil, esse país que mais mata travestis e transexuais no mundo.
A decisão revela a velha intolerância ao prazer alheio em nome da padronização dos comportamentos, a perseguição às formas de vida e à felicidade de quem vive suas diferenças, algo que agora, além de escondido e proibido, deve ser punido e curado, sabe-se lá a que tipo de terapias e procedimentos obtusos e ultrajosos. O juiz e seu secto de inconformados, retoma, assim, o medo como regra, a negação das identidades, o desespero e a frustração (seria inveja?) contra o prazer alheio, para eles insuportável. A decisão falaciosa dessa gente revela apenas os fantasmas que povoam seus mundos e que agora, eles querem lançar a todo custo sobre a nossa sociedade, sob contornos amadores e malsãos. 
O que esse juiz e sua trupe não sabem – mas deviam saber – é que os gays não são doentes, não precisam de terapia reversiva ou de cura, mas de respeito, reconhecimento, espaço para liberdade de expressão e apoio para que sejam felizes, como todos os demais seres humanos.

       Senhor juiz, pare agora - e pense: quem é que realmente precisa de cura?








sexta-feira, 8 de setembro de 2017




Quando o Vando chegou, nas terras antigas das missões gaúchas, os butiás começavam a florir à espera do verão. Outubro se erguia vigoroso sobre os telhados da Vila Hortêncio. À rua Zildo Eisman, entre a hípica e o carmelo, a gente cresceu livre. Quando era frio, o gelo dos campos quebrava sob os nossos passos depois da longa geada, até que o calor do sol varresse as neblinas para longe, como era costume. Nessa época a gente já brincava de viajar, agarrados pelas camisas: o Vando na direção, a Luciane com o Tito no colo, eu agarrado atrás. A gente ainda não sabia, mas ensaiava o grande destino da família. Um dia um caminhão encostou em frente à nossa casa e alguns homens carregaram a nossa mudança, enquanto minha mãe pedia cuidado com os móveis da cozinha. A gente viajou três dias. A gente não sabia o destino. Vando dizia que estávamos indo para Florianópolis. Na dicção das crianças, Figueirópolis ainda era um vocábulo indizível. Meu pai ria às gargalhadas. A gente só via estrada, estrada e mais estrada.
Quando a gente chegou por aqui, só havia uma rodovia estreita, entre casas e ruas inundadas. A gente cresceu entre as chuvas e as poeiras. No início não foi nada fácil. Minha mãe chorou semanas inteiras, consolada pela experiência das amigas que já haviam ultrapassado aquela dolorida fronteira. A cada ano uma viagem de volta ao sul, um sofrimento infinito, uma vontade de não voltar mais para o norte, uma promessa de vender as coisas e retornar pra casa. Com o tempo, a gente se resignou, criou raízes, encontrou amigos e plantou sementes. O Vando tecia sonhos. Fez curso de mecânica por correspondência, comprou bicicleta, som três em um, relógio de pulso. Quis ser aviador, tocador de viola, fazendeiro. Pras bandas do morro, ele encontrou a Chiei e com ela, não demorou, chegou a Isabella. Mas havia falta de futuro para quem só sabia de terras improdutivas, trabalho duro e colheita escassa. Sem terra, o Vando buscou alternativa no Paraná. Sob os invernos rigorosos de Balsa Nova, a 70 Km de Curitiba, ele plantou cebola e feijão, repolho e milho, semeados com arado puxado pela Cabrita, que apesar do nome, era um égua linda. A Chiei fazia pão e plantava horta. A Isabella observava atenta o crescimento dos eucaliptos, entre o riacho e a casa de madeira azul que se impunha na altura do horizonte. O Ivanzinho nasceu e foi tudo festa durante 8 anos. A gente fazia projetos nas noites extensas e não havia nenhuma distância entre os nossos corações, embora voltar para o Tocantins fosse um sonho comum.
Na volta, o Vando continuou sonhando aquele tipo de sonho estranho que a gente sonha na ponta dos dedos, no calo das mãos, nas unhas sujas de terra e graxa. O Vando sonhou como poucos esses sonhos madrugueiros, de quem perde feriado, festa de família e ano novo para plantar roça, reformar trator, montar colheitadeira. Pele queimada pelo sol, jeito matreiro, entre rústico e rígido, meio bravo e selvático, ele frequentava esse mundo desconhecido de fazendas, matas, morros, rios e silêncios, sem nenhuma vaidade, sem nenhum luxo, mas cheio das indizíveis forças cujas fontes, ignoradas, a gente vai buscar para sempre.  Inquebrável, esse menino de troncos, rodas e ferramentas, deixou a lição mais limpa e fundamental: a lição do trabalho, da dedicação, da honestidade, da simplicidade e de todas as suas suficiências. Com ele, a gente aprendeu a questionar os próprios ideais, para dar preferência ao essencial de um broto crescido no meio da pedra seca.
Agora que estamos esperando de novo a chuva e que essa terra estranha tornada nossa, abraça o nosso irmão com a leveza de eternidades, a gente seca as lágrimas na certeza de que não morre quem plantou na terra as sementes da esperança, mas ganha um céu pra plantar inteiro. Porque nós sabemos que o Vando, aqui no Tocantins, não morreu como um estrangeiro, mas como um filho da terra, entre as flores singelas do cerrado que ele tanto amou, nós agradecemos aos amigos que enviaram mensagens de condolência e acompanham a nossa dor. A tragédia da última sexta-feira acordou em nós o amor que vamos dedicar ao Vando pra eternidade. Nossa vida, a partir de agora, será uma homenagem a esse menino de mil olhos, que viu tantos horizontes quanto o coração humano pode suportar e que, afinal, deixou seu corpo espalhado na rodovia para viajar além do espaço e do tempo, plantando cada uma das estrelas que cintilam nas noites nossas, entre a saudade e a espera. Sim Vando, “Uberaba e Uberlândia já ficaram pra trás”. O mundo ficou pequeno demais pras nossas viagens infinitas. Você foi muito depressa, mas a gente continua viajando juntos. Vamos prestar mais atenção na estrada, embora ainda falte sinalização na rodovia, embora ainda haja imprudência e descaso, embora ainda seja urgente evitar que outras mães, filhos e esposas chorem as mesmas lágrimas que nós.