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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016




Sou de família migrante. Em três gerações fizemos o percurso dos desterrados, vagando por três diferentes regiões do mundo. Meus bisavós partiram da Alemanha em busca de terra na América do Sul e deram em Monte Negro, no Rio Grande do Sul, em meados do século XIX. Depois, uma parte da família seguiu para o noroeste do Estado, divisa com a Argentina, na região das missões, onde a geração dos meus pais cresceu e eu e meus irmãos nascemos, até quando chegaram os encartes coloridos com as propagandas das terras do norte do país, que a gente chamava, genericamente, de mato grosso (assim, no minúsculo, porque esse era o nome para uma terra desconhecida, cheia de jararacas, onças e índios – o modo como, nessas priscas eras, se pensava o desconhecido, quase sempre beirando o preconceito). Eu mesmo, com meus dez anos de idade, folheei entusiasmado um desses folhetos que apresentava o progresso nas terras distantes, o dinheiro e a prosperidade que estavam disponíveis no alto do mapa. Meu pai, sem terra no sul e amparado pela promessa, seguiu outras dezenas de famílias e empreendeu viagem, junto com meus tios, então convertidos em grandes latifundiários, pois o preço das terras era só o início da riqueza prometida. Seis meses depois, os móveis de minha mãe disputavam espaço com uma máquina colheitadeira, em cima de um caminhão que seguia para o então estado de Goiás (hoje Tocantins), enquanto eu e meus irmãos nos despedíamos, incautos, de nossos familiares e vizinhos. As lágrimas de minha irmã mais velha foram as mais comoventes. Ela chorou com um desespero incontornável, só equivalente àquele que ela repetiu quando eu voltei do norte para o sul, no início dos anos 1990 e que me contagiou na poltrona solitária daquele ônibus que atravessou o sertão pela Belém-Brasília. Conta-se que minha mãe também chorou por meses, naqueles labirintos de solidão, embora desejasse o sucesso da minha empreitada.
Foi lá, no Tocantins, que eu tive minhas primeiras experiências de escrita. Primeiro, com uma (pretensa) poesia incipiente, forjada na observação curiosa e ingênua das minúcias do cerrado. Aquelas árvores retorcidas recortadas por céus alaranjados, veredas de buriti e voos de araras multicores, foram minha primeira meditação sobre a exuberância  embora também sobre a simplicidade – de tudo o que é belo: não há no cerrado, a beleza majestosa da floresta amazônica, para a qual ele é uma espécie de antessala e, por isso, o cerrado sofreu nas mãos de gente como nós, gaúchos: era preciso que aquela "quiçaça" cedesse lugar às plantações de arroz, depois soja e então capim para o gado. Essas experiências de chuva, poeira, jacarés, caliandras e pequizeiros em flor, contudo, causaram em mim o primeiro desejo de comunicação: era preciso, afinal, contar aos meus familiares do sul como era viver nesse lugar. Foi quando começou a minha segunda escola da escrita: as cartas. Hoje, pensando sob a distensão do tempo, imagino como elas soaram bufas aos destinatários. As cartas, mesmo assim, risíveis, foram minhas primeiras oficinas de escrita. Muitas, semanalmente, dando notícias, contando anedotas, relatando vivências, testando a retórica, as poéticas do espaço traduzidas naquela embrionária arte de palavras cujo dicionário estava no quintal de casa.
No envelope, contudo, eram remetidas mais do que palavras: fotos, cartões, penas de pássaros e, sobretudo, plantas. Como infantes botanistas, minha irmã e eu tínhamos o hábito de herborizar pelo quintal da vizinhança, recolhendo flores e secando-as entre as páginas da bíblia da minha mãe (o livro mais pesado que a gente tinha na estante), para depois enviá-las para nossos familiares no sul. Ninguém, nunca, sob hipótese alguma, poderia enviar uma carta só com palavras: como quem precisava dar provas do que falava, era preciso expedir um pedacinho daquele mundo, incluir a coisa mesma do que se falava ou da qual, a la Wittgenstein, nada poderia ser dito, a não ser mostrado. Como quem já soubesse que a palavra não diz a coisa, muito antes de se encontrar com Foucault e mesmo com Nietzsche. E embora sem saber da botânica de Rousseau e de Lineu, a gente já a praticava sob outros baldaquins, contemplando o fato de que nós éramos nós e que as plantas estivessem ali, com sua inocência e propriedade, sem nomes latinos, sem códigos de honra, entregando-se como revelação daquela ordem de coisas que aos nossos olhos parecia ao mesmo tempo estranha e inexplicável. E porque inexplicável, incomunicável: a flor seca não era acessório, era um modo de descrição, uma espécie de linguagem inventada para falar sem fazer uso de taxonomias que, afinal, seriam ociosas.
Enviar cartas, como se sabe, é um ato antigo, muito em desuso. Vem daqueles tempos em que a gratuidade da recepção e a gentileza da resposta se interpunha à pressa e aos outros desesperos que moldam os dias que são nossos, entre e-mails, whatsapps, messengers e outros tártaros. Confesso: eu ainda escrevo (ou gostaria de escrever) como quem envia cartas com flores desidratadas para as gentes do sul. Acho que, no fundo, trata-se de acreditar no que disse Peter Sloterdijk: “desde que existe como gênero literário, a filosofia recruta seus seguidores escrevendo de modo contagiante sobre amor e amizade”. De forma que toda filosofia não é mais do que uma carta para um amigo desconhecido, na forma de uma amizade ao saber, em si mesmo.

Hoje, depois de muitos escritos, passo a acreditar que palavra se parece com raíz. Entre mim e você, leitor, estão os nomes e o que eles dizem, mas, sobretudo, entre nós está a coisa que é dita. Como a aventura daquela flor desidratada nas páginas de uma velha bíblia para ser enviada, depois, por correio, a quase três mil quilômetros de distância. Como aquela carta dobrada de um adolescente que descobria, na flor coletada, não a flor, mas a si mesmo. Como aquele menino que escrevia não só para a avó, mas, antes, para um si mesmo ainda desconhecido, rudimentar, principiante, como ainda hoje. Como ele, eu continuo escrevendo para mim mesmo, enviando cartas com flores para desconhecidos, festejando os leitores que conquisto, os que compram meus livros, os que curtem e compartilham minhas postagens, os que investem seu tempo nas palavras que eu digo. A minha palavra não quer ser mais do que uma mensagem acompanhada da coisa que lhe é própria. Seu fundamento é meu pathos. A paixão, geralmente em forma de carência, é o conteúdo da minha escrita. Pra você, caro leitor, cara leitora, ofereço hoje, como ontem, a minha flor desidratada. 200 mil vezes, obrigado.