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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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sábado, 3 de dezembro de 2016






Em algum lugar d’O Príncipe, Maquiavel sugeriu que o poder legítimo vem do povo e que é necessário ao príncipe ter o povo ao seu lado para não sucumbir às adversidades. Na linguagem política do filósofo italiano, isso significa que o poder não vem de Deus e não depende do sangue ou da nobreza que ele evoca. O livro, por isso, é uma espécie de conselho para a aquisição e a manutenção do poder e carrega algumas das afirmações mais importantes da filosofia política moderna.
Temer não veio do povo e, ao que parece, o teme como ninguém e o desconhece como muitos. O atual presidente do Brasil, ao contrário do que prevêm os rituais básicos dos regimes democráticos, não governa com e nem para o povo. Assim, quanto mais passam os dias, mais a sua face ilegítima se fortalece, atiçada pelo afã golpista que o levou ao poder, pela lógica de poder-sem-povo que ele deveria ter recusado, mas que, ao contrário, ele acolheu com impudência. O golpe foi golpe e continua cada vez mais golpe pelo único e mais fundamental de todos os preceitos: ele é uma celebração da impopularidade – tanto de quem saiu quanto de quem entrou. Temer é um desaforado.
Em Chapecó, Temer não iria. Volátil e pressionado pelo seu próprio ridículo, foi. Temer teme a vaia porque teme o povo. Temer se esconde. Faz em sigilo o que todo governo sem povo – como aquele que sobe ao trono pela tirania – também faz. Seu jogo sujo e sua ineficácia não são só frutos de sua incompetência, mas do propósito de alguém que, confessadamente, diz não se importar com a opinião pública. Ora, faça-me um favor! Além dessa afirmação ser incorreta e imatura, ela traduz um perigo pavoroso: os atos de um governo sem povo são atos de um governo contra o povo. Temer é impopular como os seus atos e, ao contrário do que poderia parecer, é essa impopularidade que parece impulsioná-lo e torná-lo cada vez mais perigoso, afinal ele precisa continuar a traquinagem que lhe foi exigida. Sem povo, Temer e sua trupe estão livres para implantar o que o país não discutiu, o que o povo não quer, o que a gente não aceita. Temer é um delinquente cuja causa se esboroa a cada aparição pública, para o delírio de quem deseja “sangrá-lo”, como fizeram com sua antecessora. Não é à toa que nenhum dado econômico tem demonstrado melhora até agora. Não é para isso que ele está lá. Temer precisa terminar o serviço sujo. Ele não pode ser o salvador. Invertendo a mensagem do profeta bíblico do deserto, sua missão é aplainar os caminhos para a chegada de um redentor que não é ele.
Por não falar em Chapecó, diante da dor de um país inteiro, o presidente esvaneceu de novo o princípio democrático que ele mesmo não sabe respeitar. Temer não falou porque não tem o que falar e porque não suporta ver de frente, o delito que ele mesmo praticou. E isso o torna especialmente livre para levar adiante o seu plano de desmantelamento dos direitos sociais e de entrega do país às elites que, desde sempre, aqui, odeiam o povo – quando não o escravizam pra valer. Por não falar em Chapecó, Temer continua impedindo que os brasileiros se manifestem. A essência do golpe é o obstáculo de Temer: a negação do poder do povo. O Brasil está órfão de governo. Temer e seus comparsas, ao que parece, não se interessam. Basta-lhes os jantares pomposos, sem o mínimo de pão e circo. Seu mal é um absolutismo tupiniquim desacorçoado que se abastece com seu próprio veneno. Por isso, no caso da pretensa democracia brasileira, quanto menos povo, pior. Em Chapecó, Temer enterrou a democracia mais uma vez. E voltou para casa antes da hora, apressado, com aquele olhar impávido carregado de mesóclises, esse aparato quase sem elegância da falsa correção linguística que nele, pelo exagero, soa enfadonho. Temer, teme-lo-emos, mesmo calado.
Muitos falam em unir o Brasil. Temer também falou. Não há união onde não houver o que os sistemas políticos modernos chamam de processo eleitoral: formulação e apresentação de proposta, campanha de rua, voto em urna e avaliação constante. Trata-se do mínimo, do pouco, do quase nada que restou à democracia nos tempos neoliberais globalizados que nos cabem. Eleições diretas, já.





sexta-feira, 2 de dezembro de 2016





Talvez por culpa de nosso machismo profundamente entranhado (que afinal, afeta mulheres e homens indistintamente), talvez por nosso narcisismo de raízes indecifráveis, aprendemos e ensinamos, desde sempre, que a arte de viver consiste em cumprir estereótipos. Isso feito, tudo sairá bem. Entre nós nenhum clichê é tão frequente quanto a ideia de que o homem é um ser fechado e a mulher um ser aberto – que deve se fechar. Ensinamos essa receita aos nossos filhos. Meninos não choram, não manifestam sentimentos, não se rendem aos instintos, não frequentam intimidades, evitam opiniões. O homem, para ser homem, deve estar sempre inacessível, rude, obstruído, fechado. E assim, duro e absorto, cumpre seu atributo essencial, que é ferir, rachar, promover a fenda, bisbilhotar a abertura. Como incomunicabilidade absoluta, ele aprende desde cedo a arte de explorar e colonizar o corpo alheio.
A mulher não. A mulher é de outra matéria, ensina-se-lhe. Ela nasce previamente rachada, aberta, disposta para o mundo, trincada ao meio, sendo uma brecha. Por suas funduras entram e saem as imundícies que a perturbam, que aceleram seus metabolismos, canalizam suas umidades e desdobram suas lesões que, com certa constância, irrompem na forma de bolhas, sangues e, sobretudo, palavra. A mulher herda, como identidade e fisiologia, aquela fraqueza interditada ao homem: ela azeita com lágrimas seus dramas mais banais, chora e se confessa diante de todos, desnuda-se despudorada em muitos discursos que facilmente viram melodrama, mexerico, coscuvilhice. Na mulher, a palavra é a expressão de uma confissão mais radical, que se expressa em seu próprio corpo na forma de uma entrega: o ventre prenhe revela o sexo, o seio púbere confessa a idade, as regras mensais expõem, descontroladas, não as suas sinceridades, mas as suas vergonhas. A mulher está sempre aberta para a penetração dos intrusos em seu castelo desprotegido. Os intrusos, por isso, crescem ao redor com olhos e dedos em riste, como cães lambendo o cio de fêmeas acuadas. Os intrusos assediam, metem dedos, línguas e outras carnes, sem nenhum pudor. Forçam as aberturas. Vasculham como se donos fossem; como se de objeto se tratasse. Fazem por necessidade, mas sobretudo, por obrigação. A mulher, esse ser de fissuras, afinal, foi que se abriu, veio ao mundo provocativa. E aberta, está disponível, inerte, disposta em passividade para a força do usurário.
No seu Labirinto da solidão, Octavio Paz falou dos mexicanos como seres alheios, longínquos e fechados em sua solidão (e em seu machismo), destacando as lições que ensinam o homem nacional a manter-se atolado em si mesmo de modo a impedir que o mundo penetre a sua identidade. O homem não pode “rachar-se”, mostrar fissura, fresta, arrombamento... nada pode invadir a sua intimidade. Por isso, o homem nunca confessa seus segredos, jamais tira sua máscara, permanece reservado, falando pouco, contido, troncudo, indócil. A palavra, sendo abertura para o mundo, nele deve permanecer domada, retida, sem adereço, fitas e acessórios. Não lhe está permitido nenhum excesso, principalmente aqueles que acompanham emoções fortes e se expressam como abraços, beijos e outros descomedimentos. O homem simula, esconde, disfarça o que nele é emoção e abertura porque não gosta de enfrentar o perigo de suas frestas. Aberto, teme perder as condições do combate. Não quer abdicar de si. Ele precisa, afinal, permanecer sempre armado, teso, hostil. Sua vida é a eterna solidão de si. E embora não saiba, também é ela a sua pobreza, afinal, carrancudo e fechado, ninguém alcança a riqueza do mundo. A pretensa virtude da invulnerabilidade masculina é também seu mal-estar e se revela em toda indiferença, impassibilidade e repressão, não raras vezes crescidas no terreno das cerimônias, das formalidades, das ordens, das geometrias e matemáticas, engenharias e constituições, dos ternos com gravatas que limitam os gestos, das burocracias e das demais toxinas da frustração, que formam o pretenso mundo das masculinidades no qual ele mesmo, o homem, definha. Separado, todo homem é uma ilha. A exceção é a embriaguez e a festa. A bebedeira é o único lugar onde o excesso do homem é admitido, embora ele tema a ressaca como nada. Beber é sua catarse. Octavio Paz também lembrou que “embriagamo-nos para confessarmo-nos”. Ainda bem que inventaram as bebidas alcóolicas e os amigos discretos! Beber é romper-se, irromper-se, descarregar a sua alma, lavar-se na abertura, livrar-se do fechamento. 
Aberta desde seu nascimento, a mulher vive em íntima comunhão com o mundo, como se estivesse sempre bêbada. E isso a torna um ser inferior, porque se entrega, porque se abre. Sua “inferioridade é constitucional e está radicada em seu sexo, em sua ‘rachadura’, ferida que jamais cicatriza”, escreveu Paz. A mulher não evita explosões repentinas, não controla ânimos, manifesta-se, intervém, enfeita-se, mostra-se, chama atenção. Caótica e selvagem, ela sofre de seus próprios estereótipos. E mesmo onde os rejeita, é acusada de ser de novo, pobremente, mulher: “coisa de mulher”, afinal, isso de reclamar! Reivindicar a si mesma é um modo de negar a sua natureza impessoal: sua abertura tem a forma de um canal, o que a torna um meio e não um fim.
A mulher, por isso, não pode ser dona de si mesma. Cabe-lhe conter-se, aprumar-se, fechar as pernas. Louva-se, não à toa, nas toscas eras em que vivemos, a mulher recatada e do lar, repercutindo estereótipos em capa de revista nacional e outros xexelentos folhetins. O recato é o modo de comportamento masculino que a mulher deve adotar como seu para defender a sua intimidade, guardando-a para seu digno credor. É o que pensa o pai, o marido, o filho, o irmão mais velho. A boceta de Pandora, afinal, não pode ser aberta em qualquer lugar, fora de hora, pra qualquer pessoa. Se isso acontecer, que haja punição suficiente. A mulher precisa aprender, afinal, a se fechar como seu homem espera. Recatada, secreta e decente, a mulher rende-se aos poderes masculinos e a eles serve. Precisa dar-se ao respeito. Fazer-se de dama comportada. Calar-se, esconder-se, ater-se aos problemas do lar, ficar à sombra.

Diante da dialética do aberto e do fechado, nossos estereótipos se reproduzem, se intensificam, se consolidam. A gente ainda não aprendeu que viver é a arte de provocar sínteses. Marcela está no lar; Dilma foi deposta. Agora os homens da pátria abusam, fora de casa (em praça pública) dessa puta chamada Brasil. Sim, afinal a pátria, sendo mulher, merece o estupro coletivo dos velhos senhores de Brasília movidos a sildenafila. Seus falos obscenos fornicam o buraco da democracia. A política, agora, renova simbolicamente o modelo (falido) do macho nacional. Sua vítima somos todos – e todas – nós.