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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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segunda-feira, 26 de setembro de 2016








A medida provisória do ensino médio publicada na semana passada, entre a barbaridade da forma e o absurdo do conteúdo, trouxe à tona uma visão conservadora de educação. Além de desvincular obrigatoriedades quanto ao que deve ser ensinado do ponto de vista das disciplinas, abriu as portas da escola para que pessoas sem preparação alguma, embora portadoras do famigerado “notório saber” possam ser professores do que bem entenderem. Essa expressão é tão equivocada, que fica difícil até decidir por onde começar. Pensemos em duas vias: primeiro dando ênfase ao notório; depois, ao saber.

O problema do "notório"

Notório é o que é sabido, reconhecido, público. Por isso, ele é um conceito de tipo relacional. Depende sempre de um “juiz”: alguém reconhece outro alguém como portador de notoriedade, algo que deveria ser também evidente e inegável. Notório, afinal, é o que não pode ser contestado. Aumenta o problema se pensarmos que é algo abstrato e impalpável que está em questão aqui: como saber se alguém é detentor de notório saber? Foi para preencher essa ineficácia que os sistemas inventaram os concursos: se é o saber que está em questão, então para que alguém tenha notoriedade, precisa demonstrar que sabe. Na origem da palavra, concurso significa “correr junto”, estar no mesmo “curso”. Por isso, para fazer concurso, os sistemas inventaram as áreas de formação, os conhecimentos necessários para que o posto seja ocupado. O concurso parte de uma valorização do curso. Se não houver concurso ninguém nunca jamais nenhuma vez de modo algum terá notabilidade reconhecida. Primeiro equívoco da medida provisória.
Um passo adiante e veremos que o tal notório saber, assim, sem concurso, é, na linguagem popular, “gancho” ou “bico”, uma prática muito comum na educação brasileira faz tempo. Já vi um caso em que aulas de inglês eram ministradas pela dona do cartório do município, cujo notório saber no domínio da língua advinha do fato de ela ter visitado a Disneylândia com os filhos uma vez. Na sala de aula ela nunca saiu do verbo to be e nunca explicou (porque nunca entendeu) o que Shakespeare queria mesmo dizer com o verso que virou chacota entre os meninos da turma. Outra vez foi o dono da casa agropecuária que assumiu as aulas de geografia, certamente porque tinha notoriedade em lidar com pastos e paisagens. A professora de matemática era a contadora da cidade ou a gerente do banco. A professora de português, com sorte, poderia ser a freira que veio de fora e estava desempregada. Do contrário, a secretária do prefeito assumiria o posto sem problema. Todos davam aula para completar a renda. Bico é isso: gente sem concurso cujo notório saber vem não se sabe de onde, mas que, em meio à precariedade, ganha em pompas. Em terra de cego quem tem um olho é rei. Gancho é isso: biscate, trabalho extra, indicação, dedocracia. É trabalho que não se dedica a fundo. Não vale a pena. Cheias de boas intenções, todas essas pessoas contribuíram para que aqueles meninos e meninas não fossem nada na vida. Pra que vela muita pra defunto pouco?
Daí nasce o terceiro problema: notório saber é indicação política, apadrinhamento, aos antigos moldes do coronelismo que ainda reina entre nós, amém. Quanto mais ao interior do país a gente for, mais descobrimos que a ação educativa é orientada pelos interesses do prefeito local em adequar os seus eleitores aos cargos públicos. As escolas, muito facilmente, são preenchidas por pessoas a quem os políticos municipais devem favores. Há toda uma rede de governo montada sob a égide do favor, não da competência. Uma rede que vai do secretário de educação à senhora que varre o pátio da escola, passando pelo professor, é claro. Essa gente está lá, de favor, para defender o governo que lhe deu emprego. Vivem de paparicar a primeira-dama, recolher “informações” e vasculhar a vida alheia para saber quem apoia quem na próxima eleição.

O problema do "saber"

Mas há algo ainda mais grave na Medida Provisória do ministro do Frota. Com a ideia de “notório saber” ela reduz a educação, quando muito, à transmissão de saberes. Ora, o problema da educação hoje em dia não é um problema apenas de saber. Faz tempo que o saber já não habita mais apenas a escola. Basta ligar uma dessas maquinhas portáteis que a gente carrega daqui para acolá, e um estudante pode acessar (e, com sorte, até mesmo aprender) o que quiser, de fazer bolo sem ovo, trança de raiz até o conceito de liberdade em Kant. E pode, para isso, ter aula com um professor de Harvard que explica muito melhor e sabe muito mais do assunto do que a gerente do banco travestida de professora de matemática. Para que ir na escola? Por isso, reduzida ao modelo da transmissão de conteúdo, a educação morre todo dia, afetada pelo desinteresse e pela desmotivação. Professor falando no tablado, passando tema no quadro, com plateia enfileirada em posição sonífera é a falência mais grave da educação. E isso, não há notoriedade que salve! Não importa o que o professor fale e quão notório seja o seu saber, o problema não é de conteúdo. O problema que o presidento ilegítimo e o ministro do Frota não querem saber é que o desafio central da educação em nossos dias é muito mais a metodologia, ou seja, que é preciso tirar a centralidade do conteúdo (do saber), para que seja também possível tirar o professor do centro do processo educativo e implementar práticas pedagógicas ativas, que coloquem o estudante em contato direto com problemas complexos e interessantes. Professor é mediador, não alto-falante, máquina pulsante de informação, rádio transmissor. Para reformar a escola, não basta mais apenas notório saber.
Por isso, a principal saída para melhorar a educação é favorecer, ampliar e incentivar a formação de professores. Os cursos de licenciatura, ao redor do Brasil, não podem continuar sendo tratados como cursos de segundo nível. Professor não é professor porque não sabe fazer, por isso ensina. Professor é alguém que estuda o conteúdo, mas, sobretudo, as metodologias capazes de favorecer o encontro do estudante com o conhecimento. Para que é pago um professor? Não é para dar aula e nem para transmitir o seu saber, por mais notório que ele seja. Professor é pago para que os estudantes aprendam. E para isso, ele precisa estudar as melhores técnicas e procedimentos, que vão desde o uso do quadro, linguagens e posturas, pitadas de psicologia, até o conhecimento de dinâmicas, didáticas e afins, passando pelo uso de tecnologias educacionais de todo tipo que hoje adentram a sala de aula. O principal desafio da educação hoje reside nisso. O resto é gancho. Nosso problema, por isso, não é o saber, é o ensinar ou, melhor ainda, é o aprender.
Não entender isso é prova de que os que estão à frente das áreas estratégias do governo atual estão lá por apadrinhamento, fazendo gancho. O governo que cortou programas de alfabetização, cancelou verbas para as universidades, mandou estudantes do “Ciência sem fronteiras” de volta pra casa, cancelou programas de incentivo à formação docente, é o mesmo que publicou a túrbida medida provisória. O que ele diz com isso? Que não entende nada de educação. E que faz fumaça para confundir, quando não quer enfrentar o óbvio: educação de qualidade passa pelo respeito e promoção aos professores, o que inclui investimentos em cursos de licenciatura, carreira docente e qualidade de trabalho nas escolas.
Por essas e outras, mais do que nunca, ser professor é resistir à onda de prevaricação e arbitrariedades que assola o país. Avante.