Seguidores

QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


Marcadores

Tecnologia do Blogger.

Pesquisar neste blog

segunda-feira, 14 de março de 2016



A foto de João Valadares, do Correio Braziliense, viralizou esse final de semana nas redes sociais. A imagem não deixa de ser emblemática. De um lado, um casal de classe média alta (trata-se do diretor de finanças do Flamengo e sua esposa) usando camisetas verde-amarelas anti-corrupção e, de outro, a babá negra vestida em seu uniforme branco empurrando o carrinho com os dois filhos (também eles, apesar da pouca idade, devidamente uniformizados anti-Dilma). Não quero entrar no debate infrutífero a respeito das contradições da foto, que inclui a legitimidade e as justificativas do casal em pleno ato de dever cívico e o patrocínio de um banco estatal ao time cujo emblema encontra-se estampado na camiseta de Cláudio e Carolina, nem as corrupções do futebol, nem os outros uniformizados da CBF que foram às ruas. O que me interessa é o uniforme da babá.

Quem viu o filme “Que horas ela volta?”, lembra bem da importância higiênica e asséptica que o uniforme exerce na hierarquia doméstica dos lares brasileiros. A babá Val, personificada por Regina Casé no filme de Anna Muylaert, se confunde com a anônima da foto de Valadares e traduz a realidade de outras tantas mulheres que, como sugeriu o empregador, são pagas para isso e, portanto, devem agradecer por terem seus empregos em época de crise como a nossa. Nas redes sociais, o patrão sugeriu que até gosta da funcionária, a qual é até tratada com dignidade e é até mesmo livre para demitir-se caso não queira passear contra a Dilma no domingo. Às vezes a proximidade entre a vida e a arte não é pura coincidência. E quase sempre a vida é mais cruel do que parece – penso nas inúmeras meninas-mulheres-quase-escravas que continuam servindo os lares brasileiros, sem ainda acessar os mínimos direitos recentemente admitidos pela nação escravocrata que sempre fomos.

O uniforme tem papel simbólico relevante na medida em que hierarquiza as relações. A roupa define o lugar de cada indivíduo, deixa claro quem manda e quem obedece, quem paga e quem recebe, quem dá direitos e quem tem deveres. No seu ensaio de 1905, “Filosofia da moda”, George Simmel destacou o fato de que a vestimenta, antes de ser uma projeção de quem somos, forma e domestica nossas personalidades. Ela diz respeito às distinções sociais e aos valores que forjam as subjetividades no meio social. Ela atende à nossa necessidade de diferenciação, tanto do ponto de vista individual quanto coletivo. Como um fator social, por isso, o uniforme é paradoxal: tanto diferencia quanto iguala, na medida em que nivela as pessoas e cria estabilidade social por meio do reconhecimento de classe. Não é por acaso que os mais pobres costumam “copiar” o que está na moda entre as celebridades: trata-se de acessar, pela vestimenta, o mundo glamoroso que a televisão faz entrar em seus lares diariamente e, com isso, recusar a prisão econômica de sua própria pobreza.

O uniforme tem também, em consequência, um fator psíquico: ele cumpre a função de adestramento das subjetividades na medida em que dá contornos ao corpo e limita seus movimentos, sob os olhares do outro. Uniformizados, não somos nós que expressamos nossas identidades através da roupa; mas, ao contrário, é a roupa que ordena e demarca quem somos. O modo como estamos vestidos define os nossos comportamentos: terno e gravata, por exemplo, impedem movimentos bruscos e gestos alongados, que são adequados quando estamos com roupas esportivas. O artifício da roupa, portanto, cobre a nudez que nos torna iguais apesar da pele e nos adapta às circunstâncias. De branco, a moça da foto não protesta, trabalha. De branco, ela não se diverte, trabalha. E trabalhando, de branco, ela parece mais limpa e até mesmo um pouco invisível. Uniformizada, ela faz do branco aquilo que ele era para os discípulos de Asclépio, o deus grego da medicina: um símbolo de pureza espiritual que, nesse caso, torna possível a intimidade da babá na frequentação dos ambientes domésticos (a babá, afinal, é a intrusa mais íntima da vida familiar). De branco, assim, ela está purificada. De branco, ela reconhece as circunstâncias e se adapta ao seu cargo. E assim, adaptada, ela é aceita porque, afinal, “sabe” o seu lugar.


No filme, as cenas de Val com o filho único dos patrões, são incômodas. Enquanto o menino recusa o carinho da mãe, aceita as intimidades da babá (em francês, o título do filme insistiu nesse aspecto: “Une Seconde Mère”). Val parece não saber o seu lugar. Mas é Jéssica quem quebra definitivamente a norma e recusa o lugar social reservado à filha pobre e nordestina da babá. Entra na universidade que era lugar do filho do patrão. Banha-se na piscina. Quer ser hóspede e não empregada. Cria conflitos. Enerva as antigas relações. Na foto, a babá negra veste a sua “segunda pele” (conforme a feliz expressão de Marshal McLuhan) como um adendo quase desnecessário diante da primeira pele negra, para a qual a pátria cuidou de garantir, desde 1850, quando da primeira Lei de Terras, um lugar apropriado: a senzala, os mocambos, as favelas, o porão, a cozinha, o quarto de empregada, a traseira do carrinho de bebês. Lendo-se ao inverso: não o aeroporto, o shopping, a mesma manicure, a mesma universidade. Não. Nunca. Afinal, o Brasil só é "pacífico" porque aqui, pobres, negros e outros indesejados, sabem o seu lugar. O uniforme, por isso, continua indispensável.