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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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sexta-feira, 14 de outubro de 2016






Quando eu era pequeno, improvisei um quadro com uma tábua velha e dei aula aos meus irmãos mais novos sobre o abismo da morte. A gente vivia perto do cemitério e as crianças sabiam de enterros e velórios mais do que ninguém. Acho que esse foi o meu primeiro sintoma de filosofia - parafraseando o título do livro da querida Glória Kirinus. Aos cinco anos briguei feio com a minha mãe para ir à escola. O colégio era de madeira em tinta marrom e passou a fazer parte do meu mundo como um segundo lar. Não faltava a nenhuma aula. Fizesse chuva ou caísse canivete, eu era o primeiro da fila. Naquele tempo se cantava o hino nacional na quadra e se escrevia o nome do presidente do Brasil no alto da página, todos os dias.  Embora eu achasse estranho, obedecia. Naquela escola, tive a sorte de encontrar muitos professores bons. Dona Maria me ensinou a escrever. Porque ela era negra e eu já sabia o que isso significava, o que ela me ensinou não era apenas assunto de letra e palavra, mas de vida. Acho que foi com ela que aprendi a primeira lição de igualdade, naquele Rio Grande do Sul tão cheio de imigrantes europeus e abastecido de muitos preconceitos. Foi na escola que fiz meus primeiros amigos - alguns deles são tão duradouros que certamente lerão esse texto comprovando minhas verdades. Depois, já professor “formado”, como se diz, tive muitos estudantes que se tornaram professores excelentes, muitos dos quais tenho orgulho de manter como amigos. Vez ou outra, por aí, depois de anos, uma mensagem ou um aceno renovam a relação de cumplicidade que nos interliga – eu a Maria e aos meus irmãos mais novos, meus primeiros alunos; eles a mim; eu a seus estudantes, outros alunos que nem conheço. A educação é uma rede de aprendizagens, uma infinita tessitura de testemunhos e distribuições.
          Nessa história de quatro décadas, não encontrei nenhum professor embutido de riquezas ou privilégios acintosos. Todos eram/são árduos trabalhadores, comprometidos com uma causa justa, que resume o ideal da educação comungado por todos: libertar o indivíduo que existe em cada um dos estudantes que o destino traz ao seu encontro. Libertar é um modo de dizer que tudo já está lá para ser aberto, desobstruído. Aprendi isso com Nietzsche. A tarefa do professor não é moldar pedras brutas, dar forma a matérias anormais ou incutir algo importante na cabeça de pobres inocentes. A tarefa do professor é, antes, libertar o espírito dos estudantes para o conhecimento, promover esse acesso, indicar o caminho que eles terão que trilhar sozinhos até o que eles mesmos são. A tarefa do professor é mostrar a cada estudante que ele é um “milagre irrepetível”, um ser “único e original” no qual a boa consciência grita: “Seja único!”, “Seja você mesmo!”. Nietzsche achava que a pedagogia, por isso, era a mais delicada das técnicas, porque envolvia a auto-formação e dela dependia a renovação da cultura. O contrário disso seria uma educação como distorção, uma espécie de tortura, uma sevícia, um martírio, cuja função era preparar para o serviço do Estado e do Mercado. Foi o que Nietzsche chamou de “filisteísmo cultural” e caracterizou como as “forças mais grosseiras e mais malignas”, defendidas “pelo egoísmo dos proprietários e pelos déspotas militares” que levam a cultura ao declínio porque querem ensinar a pensar e a agir como animal de rebanho. Com isso, formam “espíritos bicórneos”, que só olham para a carreira e para o dinheiro. Meus caros, às vezes Nietzsche me soa tão atual!
Ensinar não é impor modos emprestados e opiniões postiças. Ensinar é colocar cada indivíduo a salvo da massificação da cultura, da pobreza do ator pornô, das ameaças do ministro sem legitimidade e de todas as ignorâncias correntes. Educar é tirar da caverna, de novo e sempre, aquele que está preso. É praticar, diariamente, essa empresa penosa e arriscada, de “cavar em si mesmo e descer à força aos poços do próprio ser”, mesmo que ao descer, porque escolheu descer, aquele que desce seja ferido tão gravemente na descida que nenhum médico possa curá-lo, a não ser ele mesmo. Eis o risco do conhecimento. Eis a tarefa do professor.  
Agora que é hora de despotismo, a pátria faz do professor seu algoz. Há razões para isso – e antes de nos desanimarem, meus caros alunos, elas devem nos lisonjear. Ninguém foi mais enxovalhado nos últimos tempos do que o professor. Disseram sobre nós o que podiam. Fomos comunistas por ensinar história, traidores da pátria por provocarmos o pensamento crítico, rapinantes por ter quarenta dias de férias, vigaristas, trapaceiros, escroques, bilontras. Vimos a escola voltar aos tempos da ditadura, com vigilância e perseguição. Fomos agredidos a cassetetes na praça pública, cães e camburões no nosso encalço. Fomos demitidos, achincalhados, malditos nas redes sociais. Escola sem partido, MP do Ensino Médio, reforma da previdência, ironias, pulhas de todo tipo alcançaram a nossa já desgastada imagem. Vocês acham mesmo que não merecemos? Claro que sim! Somos perigosos demais.
Por isso tudo, hoje, quando é dia do professor, eu me dirijo a vocês alunos: por favor, resistam. Aí nas escolas ocupadas, resistam. Aí nas salas de aula lotadas, resistam. Aí nos descaminhos da história, resistam. Não é hora de esmorecimentos. Lembrem: em épocas de epidemia é que os médicos são mais necessários. Um copo de água há de florir o deserto. Vocês são essa água. E a gente há de ver brotar essa flor.






17 comentários:

Marcella Lopes Guimarães disse...

Minhas lágrimas escorrem na leitura, obrigada...

Unknown disse...

Parabéns! Mensagem perfeita! Vamos a luta! Resistir sempre!! Abraços

Tamyres Palma Zimmer disse...

Lindo texto. Parabéns e obrigada.

Jaci Candiotto disse...

Jelson que texto maravilhoso!!! Oxalá todos os professores pudessem lê-lo, bem como os alunos.Parabéns e obrigada por partilhar essa riqueza de reflexão!Um grande abraço.

Jelson Oliveira disse...

Obrigado Macella, Tamyres e Jaci. Partilhamos a mesma emoção e as mesmas esperanças.

Jelson Oliveira disse...

Gislaine, é isso: resistir sempre.

Anita Regina Alves disse...

Que rico texto! Salve todos os heróis do mundo denominados professores!

SILMARA MIELKE disse...

Lindo demais, emocionante...parabéns PROFESSOR

Jelson Oliveira disse...

Obrigado Anita.

Jelson Oliveira disse...

Obrigado Silmara.

BethS disse...

parabéns no seu dia, professor.
estamos juntos!

Pollyanna Rodrigues disse...

Parabéns pelo post!
Pollyanna(diminutarazao.wordpress.com)

Daniel Pereira disse...

Parabéns professor, orgulho ter sido seu aluno e hoje colega de profissão. Vamos a luta e para complementar vou parafrasear legião Urbana: "Não me entrego sem lutar, tenho ainda coração, não aprendi a me render, que caia o inimigo então"...

Jelson Oliveira disse...

Obrigado Daniel. Grande abraço.

Katia Velo disse...

Querido JELSON, realmente, temas referentes à Escola, só são destaque quando acompanhados por crime, violência, bullying, greve, ocupação, ou seja, desgraça mesmo! Coloca-se sobre os ombros dos professores (que na maioria das vezes, só têm giz e louça) “todas as dores do mundo”. E os pais que não sabem como criar seus filhos, esperam que os professores possam “dar um jeito”. Ser professor não é uma missão, ou sacerdócio. Se quisesse uma profissão que fosse “santificada”, seria freira, monge budista, e não professora. Tenho paixão pela profissão e como você tenho ótimas lembranças da Escola. Eu acredito muito na capacidade dos meus alunos, sempre falo para eles que são muito mais inteligentes e espertos do que eu quando tinha a idade deles. Desejo de verdade que nossa profissão seja valorizada. Professores como você, nos fazem ter orgulho da profissão. Parabéns! Beijos, KV

Jelson Oliveira disse...

Obrigado Katia querida. Concordo com você. Nada de santidades. Somos profissionais e a ética é parte da nossa obrigação. Beijos.

Jelson Oliveira disse...

Obrigado Polyana.