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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

"Adão e Eva no Paraíso", de Lucas Cranach, 1526



“Foi pela mulher que começou o pecado,
por sua culpa todos morremos” (Eclo 25,24)

Não é de hoje. Quando os gregos quiseram explicar a origem dos males do mundo, não hesitaram em responsabilizar Pandora, a primeira mulher criada por Zeus, a quem foi dado um jarro que continha coisas lindas e maravilhosas, mas nunca poderia ser aberto. Como acontece em quase todos os mitos, as mulheres são sempre sedutoras e curiosas. Pandora foi criada como castigo aos homens, depois que Prometeu roubou o fogo dos deuses. A simbologia revela, sem meias palavras, que estão contrapostos aqui a racionalidade prometeico-masculina e a sedução pandórico-feminina: um jarro de coisas maravilhosas, mas intocáveis, é o pior dos castigos ao homem que objetifica o que a mulher carrega entre as pernas. A sedução, por isso, aparece como castigo e desvio à razão iluminada. À mulher, que nunca tem razão, resta seduzir. Mas Pandora, como várias outras mulheres mitológicas, carrega essa que seria uma característica essencialmente feminina desde então: ela é curiosa. Capacidade inata de perscrutação, inquiribilidade e exploração. Não, não é a sabedoria masculina, completa, retilínea, aprofundada. A curiosidade é conhecimento recortado, mexerico, ti-ti-ti, disse-me-disse de salão de manicure. Pandora sofre de sua própria natureza feminina. E porque é assim, por ser mulher, Pandora abre a caixa, como acontece sempre e saem de dentro de sua boceta o que já de pior no mundo. Tudo culpa de Pandora. Fecha as pernas menina!
Quando os judeus tiveram de contar o seu Gênesis, no último livro do antigo testamento a ser escrito, lembraram dos mitos ouvidos de outros povos durante o tempo de escravidão no Egito. Tudo estava bem, até que Deus criou Eva. Mal chegou, essa menina maldosa já subiu no pau e comeu o fruto da árvore proibida. Qual árvore? A árvore do conhecimento, é claro – e não qualquer um, mas o conhecimento do bem e do mal. A curiosidade de Eva foi além dos limites: quis decidir agora, por si mesma, o que é bem e o que é mal, uma coisa que todo livro de ética deixa bem claro que é o maior pecado do mundo judaico-cristão, ou seja, ser como Deus. Ainda mais sendo mulher! Eva, que também era linda e sedutora, com aquela folhinha verde abanando sobre o ventre, ofereceu a fruta a Adão. Como resistir àquele olhar fascinante? Resultado: foram expulsos do paraíso e condenados a vagar em dor e tédio. Tudo culpa de Eva, essa desajuizada.
O livro do Êxodo fala dessa deriva pelo mundo e do sonho de paz e liberdade do povo judaico. Nele as mulheres exercem papel central: uma mulher levita salva Moisés do rio, a filha do Faraó lhe dá proteção, Zípara lhe dá amor e abrigo em Midiã, Míriam, sua irmã, ajuda-lhe a descobrir a sua própria identidade. Moisés, o herói do povo judaico, não seria nada sem as mulheres. O autor do Êxodo, contudo, ao que parece, esforça-se por dirimir essa importância. Uma amiga me disse que há muitos rastros de machismo nesse texto e me convenceu do assunto quanto explicou a história de Míriam, no capítulo 12. É lá que está escrita uma frase contundente: “Mas afinal, foi só através de Moisés que o Senhor falou? Não foi também por nosso meio?”. Lida de uma forma, digamos, mais feminista: “Mas afinal, foi só através dos homens que o Senhor falou? Não foi também por meio de nós, mulheres?”. Míriam teria reunido a mulherada e decidido subir o monte para falar com Deus, desafiando o poder de Moisés. Deus, ao saber disso, mandou que ela desmobilizasse a mulherada e jogou-lhe uma lepra como castigo. Quem queria participar da elaboração das leis (símbolo máximo da cidadania) acaba sendo excluída: Míriam foi posta fora do acampamento por sete dias, no meio do deserto. O povo, contudo, ensinou a minha amiga, esperou por ela, deixando claro aos bons leitores, que Míriam tinha um papel central na travessia do deserto até a terra prometida. Apesar de Moisés. Apesar de Deus.  
Oxum, na mitologia afro-americana, é a orixá das águas doces. Há diferentes versões para sua história. O certo é que sua imagem está associada às emoções fortes, às lágrimas e ao choro sentimental. Seus filhos são sempre chorões. Uma versão do mito diz que ela aprendeu a fazer curas com plantas medicinais, mas como isso era tarefa dos homens, que detinham o conhecimento como propriedade masculina, Oxum foi expulsa da aldeia. Do alto da montanha teria chorado a cântaros, dando origem às cachoeiras e às águas doces dos rios, onde até hoje é cultuada com velas e oferendas. Outra versão diz que ela brigou pela exclusividade do amor de Xangô e criou desavenças na terra. Tudo por causa da sua beleza. Oxum é, por isso, ou a mulher a quem é proibido conhecer ou aquela que cria conflitos por causa do amor. Bem barraqueira essa aí...
Os karajá brasileiros viviam no fundo do rio, onde formavam a comunidade Berahatxi Mahadu, os que vivem no fundo das águas. Estavam satisfeitos e gordos até que alguém resolveu dar uma espiadinha acima das águas e descobriu uma passagem, na Ilha do Bananal, no Tocantins, para a floresta. Há quem diga que foi uma jovem mulher, certamente curiosa e sedutora. Fez tanto mi-mi-mi que convenceu os karajá a mudar de mundo. Vieram a fome, as doenças e a morte. Os karajá emagreceram e quiseram voltar, mas a passagem estava fechada.
Todos esses relatos partilham o mesmo machismo que se alastra na cultura. Sendo mitos, traduzem o que está na base de nossos modos de pensamento, nas escolhas que fazemos no cotidiano, no sacrifício diário das mulheres que continuam sendo apedrejadas porque, afinal, tudo é culpa delas, tudo continua sendo culpa delas. O desabafo da atleta Joanna Maranhão essa semana, nos jogos que deveriam ser olímpicos porque deveriam ser despidos de machismo, homofobia, xenofobia e outros preconceitos, é só um sinal de que continuamos seguindo à risca a receita da culpa pelos males do mundo, que é unicamente, de uma metade da humanidade. Continuamos pensando de forma simplista, maniqueísta, ingênua, maldosa. Na atual conjuntura política nacional, esse tem sido o pior dos males: a mulher é totalmente culpada. Aos homens (brancos, ricos, velhos e corruptos) cabe continuar suas sessões de apedrejamento e açoites, varando as madrugadas.
           Quando é que a nossa história será contada sem essas violentas idiotices? Talvez devêssemos parar de ensinar isso às nossas próprias crianças.    





1 comentários:

Iris Lopes disse...

Ótimo texto, obrigada!
Eu tenho curiosidade de encontrar os exemplos opostos a isso. Se quiserem dar uma olhada, fiz este post contendo algumas histórias muito feministas que encontrei nos textos budistas (que são bem antigos!). Afinal, do machismo já sabemos, mas e as histórias de resistência, onde estão?

https://irislopes.wordpress.com/2016/07/24/budismo-e-feminismo/