Seguidores

QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


Marcadores

Tecnologia do Blogger.

Pesquisar neste blog

quinta-feira, 21 de julho de 2016






Feia, gorda, sapata, vaca velha. Quantos outros nomes feios foram atirados contra a presidente? Vagabunda, ladra, corrupta. Quantas imagens foram criadas sobre ela? Fraca, incapaz, incompetente, terrorista, comunista, ateia. Tudo começou naquela tarde de abertura da Copa do mundo: “Ei, Dilma, vai tomar no cu”, bradaram os brasileiros que sonham em estudar em Harvard e pagaram altas tarifas pelos ingressos da partida. Não bastaram as vaias. Foi preciso o palavrão, o xingamento, a vulgaridade. Depois disso vieram os adesivos de carro: Dilma de perna aberta sendo estuprada por uma bomba de gasolina. Uma imbecilidade que beira o distúrbio contaminou muita gente e chegou com êxito impressionante à Câmara dos Deputados naquela tarde em que o “coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff” foi lembrado, enquanto deputados atuavam como palhaços da pátria, deixando aparecer suas vergonhas mais infames. Alguém já disse que Dilma sofreu o maior bullying da história. É verdade. Ela foi insultada como ninguém na política brasileira. Contra ela sobraram as grosserias tupiniquins, proclamadas em bom som, indiferentes aos ouvidos das crianças na sala, a quem ensinamos que podemos não gostar de alguém, desaprovar suas atitudes, discordar de seus encaminhamentos, mas nunca podemos desrespeitá-lo e agredi-lo pessoalmente.
Contra a presidente, a boa educação morreu. Mas o que se disse contra ela é apenas o sintoma de algo muito mais grave. Os impropérios que lhe foram dirigidos logo se espalharam como faísca em pólvora seca. Há quem reivindique o direito ao insulto e ao desaforo. Qualquer um que se dê o trabalho de ler comentários nas redes sociais ou nas notícias de jornais on-line, haverá de concordar que a insolência atinge índices alarmantes. O assunto virou até livro: o jornalista Leonardo Sakamoto acaba de publicar o recomendadíssimo “O que aprendi sendo xingado na internet”.
O que está em pauta é a urgência dos bons modos, da gentileza e da cortesia, que formam parte essencial da chamada “civilidade”, que é o lubrificante mais eficaz da vida social. O seu contrário é selva, vandalismo e ruína cultural. Há de se desejar a polidez como arma contra a desordem civilizacional, a fineza contra o nome feio, a elegância contra o destempero, a educação contra a barbárie. Não temos alternativa. Segurar uma porta para o próximo passante, pedir desculpas e dizer obrigado, não abrir uma embalagem no supermercado e deixar o próprio lixo no lugar adequado, não furar a fila e ceder o banco do ônibus para um idoso, não são frescura e maricagem, são regras de convivência que tornam possível a vida em comum. Isso inclui evitar a descompostura das palavras ofensivas contra quem quer que seja, inclusive contra o chefe máximo do país, qualquer que seja o seu partido e as suas opções políticas. Contra elas a etiqueta e os costumes inventaram, ao longo dos tempos, muitas regras cada vez mais oportunas e fundamentais. Praguejar e desmoralizar uma pessoa só comprova a vileza e a mediocridade de quem ainda não aprendeu essas regras básicas de educação.
Fiquei pensando novamente sobre esse assunto quando vi, nos últimos dias, o rosto de Dilma em vários eventos e entrevistas Brasil afora. Nenhum daqueles xingamentos fez dela uma vítima chorosa. Ela não padeceu sob consternações e desconsolos como muitos talvez esperassem. Ao que parece, o lema da sua campanha nunca fez tanto sentido: Dilma, o “coração valente” transformou a sua suspensão da presidência em uma forma de reafirmação de seu perfil pessoal e político. Dilma faz agora o que fez na década de 1970, aquela estudante que foi torturada sobre um pau-de-arara, apanhou com palmatória, levou choques e socos, por ter preferido a democracia. Dilma faz, agora, o que devia ter feito mais durante os últimos anos: viaja o país, articula a chamada esquerda, unifica bandeiras, encontra-se com sem-terra, mulheres, intelectuais e artistas com invejável desembaraço. Dilma canta com os pobres, Dilma recebe flores, Dilma se emociona, Dilma é abraçada, Dilma agita as bases sociais, Dilma fala com a eloquência que nasce do testemunho, das coisas que parecem mais evidentes do que nunca. Sua avaliação, segundo as pesquisas, melhorou. Aparentemente a estratégia está dando certo. Dilma se restabelece no que a política tem de melhor: quando ela não depende de cargos, concessões e intentonas, mas se efetiva como poder de articulação em vista do bem comum. Essa é a política que, em qualquer circunstância, ela nunca deveria renunciar.
            Tendo virado uma alcunha problemática e polemizada em cada esquina, Dilma digere os nomes feios que lhe são lançados e, sorrindo, recebe flores. Ao que parece, ainda há tempo para a cortesia.


0 comentários: