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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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sábado, 5 de março de 2016


Agora que a justiça diz ter se aliado com a verdade para passar o Brasil a limpo, fomos surpreendidos por uma palavra de origem grega de imensa carga teórica. Antes, porém, de ser uma operação policial Aletheia foi, durante mais de dois milênios, uma operação do pensamento. Na etimologia da palavra o a é negação daquilo que o lethes (esquecimento) é. Verdade é desvelar o que permanece esquecido.  
No Hades grego, Lethes é o rio do esquecimento e da dissimulação. Quem bebe suas águas perde a memória e desaba no estado da ocultação, associado ao escuro do mundo inferior. Na Divina Comédia, Dante lembrou que suas águas purificariam todos os deslizes dos pecadores. Melhor do que perdoar é esquecer. Conta-se que os portugueses acreditaram que o Lethes mitológico era o Lima do Alto-Minho, até que o general romano Décimo Júnio Galaico, para pôr fim à lenda que trazia medo aos seus soldados e atrapalhava sua expedição militar, atravessou-o - estandarte em punho – e desde o outro lado, chamou seus soldados pelo nome, um a um. Em Xinzo de Limia celebra-se, até hoje, a festa do esquecimento. E o episódio foi eternizado posteridade afora pelo artista português Almada Negreiros, na imagem acima.
Orfeu, o poeta grego, muito antes disso, já conhecia o perigo das águas, em um tempo em que o poeta cantava de cor, inspirado pelas Musas, filhas da deusa Memória. Orfeu, como se sabe, “não existe sem Eurídice”, como cantou o nosso Vinícius de Moraes. Depois da morte de sua amada, viajou ao Hades e atravessou o Lethes. Os deuses, contudo, lhe ofereceram não a moça que amava, mas um vulto dela, uma “sombra”, um “phasma” [de onde “fantasma”], como nos lembra Platão no Banquete. Aliás, Platão deu notoriedade ao rio quando o colocou no centro de uma de suas teses mais famosas, a teoria da reminiscência, que tenta explicar a origem do conhecimento. Segundo Platão, todos já vivemos no mundo das ideias e, portanto, conhecemos a verdade, mas nossa alma sedenta, ao passar pelas águas do Lethes enquanto migrava para o nosso corpo, bebeu água que lhe fez esquecer do que sabia (às vezes até demais). Esquecimento, nesse caso, é ignorância e alienação.
Heidegger, no século passado, recuperou a tradição do termo e lhe deu grande celebridade filosófica. Aletheia seria a verdade como aquilo que vem à tona, aquilo que é desvelado como verdadeiro e que não é um conhecimento objetivado pela racionalidade discursiva desse ou daquele sujeito sobre esse ou aquele objeto, mas uma compreensão do próprio ser das coisas. O que eu gosto da proposta de Heidegger é que ela nos deixa pensar uma coisa importante sobre a busca pela verdade: o autor de Ser e tempo nos lembra que nem sempre a verdade está no que se mostra, ao contrário, ela muitas vezes se esconde quando alguma coisa é mostrada. É como se, ao mostrar, a gente sempre estivesse escondendo algo. Aletheia, ao tempo em que desvela, também vela. Porque mostra, também esconde. Parece difícil, mas é simples: quando eu digo para alguém, “veja aquela flor amarela”, estou desvelando uma parte da verdade da flor na forma do colorido de suas pétalas, mas ao mesmo tempo estou escondendo outras tantas verdades na forma de características que eu não destaco, que eu não mostro e que, talvez por isso, ninguém enxergará. A ideia é simples: há algo da verdade que sempre está retraído no dizer de quem desvela. Aquilo que aparece como descrição é sempre, portanto, algo superficial em relação a sua essência, que poucas vezes é vista.
Aletheia, por isso, é uma operação do pensamento que quer ver para além do visto, para além do óbvio, por trás das aparências. Ocorre que na nossa pretensão de verdade, a gente se deixa facilmente distrair na superfície e não vê o que está escondido. A falsificação do phasma órfico, nesse caso, continua vigorando, na forma de todos os dispositivos de esquecimento e alienação que sustentam a nossa cultura, entre as quais, obviamente, estão os aparatos midiáticos. Como Orfeu, talvez a nossa verdade vire uma estátua de sal ou, simplesmente, se desfaça em fumaça, como é próprio dos fantasmas. Mostrar um fato, vender uma verdade, oferecer uma interpretação é sempre, segundo a operação Aletheia, projetar uma verdade e esconder outras tantas. Eis a ambiguidade e o perigo da justiça em sua dimensão desocultante, diante da qual somos convidados a resgatar o terreno comum onde a verdade dos fatos e a verdade das interpretações se pertençam complementarmente.
É preciso pensar o que se esconde. A multidão, contudo, quer espetáculo e gosta da ilusão. Deseja beber, tranquila, mais água do Lethes, até saciar-se por completo, enquanto o show se desenrola, sem se importar com a verdade que permanece ocultada por trás da ação de um juiz eufemístico e as palavras de um ex-presidente que cada vez mais gente insiste em chamar de histriônico. Quando o show terminar, quem ainda terá pulmões para respirar o ar puro da verdade, entre a mordaça do conformismo e a hipocrisia de uma festa imbecil? Quando o show terminar, quem limpará o sangue que ainda pingará dos nossos punhais, entre o susto e a ressaca? Que Mnemosine nos resgate do Lethes, antes que seja tarde. 







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