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O PRESIDENTE E SUA CLOACA IDEOLÓGICA

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No seu famoso poema “Romanceiro da Inconfidência”, Cecília Meirelles repete incansavelmente o verso que canta o poder da palavra: “ai palavras, ai palavras, que estranha potência a vossa”. Ela trata da fala que condena, do veredito final de um enforcamento, do poder que a palavra tem de gerar vida e de gerar morte. A poetisa, nesse caso, recupera longa tradição dos que reconhecem a potência da fala como uma das características ontológicas do ser humano, porque ao falar, homens e mulheres projetamos destinos, produzimos mundos.  A palavra, sobretudo, é instrumento político. Foi com ela que a democracia ganhou corpo na Grécia. Foi por causa dela que autores como Aristóteles e Platão estabeleceram a identidade do homem como animal político. Ela é arma de disputa e de controvérsia em busca de consenso. Habermas a valorizou tanto que sua teoria do agir comunicativo parte da afirmação do seu poder transformador. A palavra, como política, é transformadora de realidades. Com a...

ME DEIXA PASSAR, POR FAVOR

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Foto: Jose Luis Gonzalez/Reuters O choro desesperado da mãe gualtemalteca e seu filho Anthony diante dos soldados norte-americanos  armados é o símbolo máximo da desigualdade social. Ela vive na parte pobre de uma mesma geografia. Dois mundos divididos pela injustiça, pela miséria, pela exploração e pela falta de oportunidades. Uma mesma América, dois tipos de vida. Abaixo, os pobres choram com aquela senhora não só porque queiram acessar a vida dos ricos do outro lado, mas porque, atravessando a fronteira, querem servir-lhes. Preferem isso, a sofrer com a falta de esperança. Para isso, tentava vencer as dívidas.  Ela não estava sozinha. Antes dela, o salvadorenho Oscar Ramirez e sua filha Valéria morreram afogados enquanto tentavam a travessia. Nunca se construiu tantos muros para dividir esses dois mundos. Na Turquia com a Grécia, entre as duas Coréias, entre a Espanha e o Marrocos, entre tantos outras divisões, esses muros negam aos seres humanos o que ...

MIL QUILÔMETROS DA FLORESTA AMAZÔNICA DERRUBADOS EM QUINZE DIAS. O ECOCÍDIO POR TRÁS DOS NÚMEROS.

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(FOTO:  Rircardo Stucket) Por trás dos números, morre a floresta, espécies de árvores, flores, verdes de todos os tipos. Morrem os micro-organismos, os insetos, as aves, os mamíferos. Morrem os peixes, as espécies aquáticas todas. Secam as vertentes. O barro enrijece, o lodo quebra em securas desérticas. O que rasteja, queima sobre a areia pobre em nutrientes, por trás dos números. O que anda, vaga sem achar comida, seguido de seus filhotes magros de fome. O que voa, perde-se no horizonte de fumaças e poeiras ardentes enquanto o presidente relativiza, mente, critica e esconde os números. E morre o índio, faminto, sem terra, sem floresta, sem mundo, por trás dos números. Morre o ribeirinho, sem peixe, sem chuva, sem água. Morre a mulher sem coco, sem forças, sem nada - até sem número. Morre o seringueiro, sem árvore e sem futuro. Morre o pequeno agricultor, sua mulher e os filhos, envenenados pelos agrotóxicos da grande fazenda que cresce esparramando as divisas e...

COMBATA A TRISTEZA TOMANDO BANHO, CONSELHO DE SÃO TOMÁS DE AQUINO

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A gente sabe bem: uma ducha fria pode ser um bom conselho na hora da ansiedade e um banho quente pode retirar a gente do torpor, trazendo ânimo novo. A água caindo pelos ombros, o cheiro do sabonete, o toque das mãos sobre o corpo e o som da água vibrando os tímpanos têm grande poder curativo.  Não é à toa que para os egípcios de 3000 anos atrás o banho envolvia um ato sagrado. Tratava-se de purificar o espírito e, além disso, evitar epidemias e pragas que rondavam o mundo antigo. Em Creta, banhava-se entre os banquetes para que o corpo permanecesse saudável e em Roma não havia vergonha do banho nas famosas termas, que incluíam piscinas e duchas e, não raro, bibliotecas. Parece que o corpo e o espírito caminhavam juntos.  Perseguido e desaconselhado na idade média por causa da moral e na idade moderna pela cresça de que a abertura dos poros poderia deixar o corpo mais suscetível às doenças, foi só a partir da segunda guerra mundial que o Ocidente popularizou o uso...

LÍDER SINDICAL É ASSASSINADO NO SUL DO PARÁ. MAIS UM.

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Desde os anos 1980 acompanho a situação de violência no sul do Pará. Em 1994 visitei Rio Maria. Expedito Ribeiro tinha acabado de ser assassinado. Sua mulher e seus filhos ainda choravam, enquanto padre Ricardo Rezende estava ameaçado de morte e o saudoso frei Henri des Roziers encontrava-se sob escolta da polícia federal, já que seu nome constava na lista dos marcados para morrer. A gente não podia ir e voltar pela mesma rua. Havia medo em todas as esquinas. Conheci o cemitério da cidade, onde haviam sido sepultados os presidentes do Sindicato de trabalhadores rurais que haviam sido assassinados. Todos os túmulos - pelo menos uns sete - estavam pintados de verde claro. Sobre eles, pendia uma cruz, onde estava escrita a passagem bíblica: “bem aventurados os que morrem por causa da justiça”. A imagem nunca me saiu da cabeça.  Hoje mataram mais uma liderança. Carlos Cabral sofreu uma atentado a tiros próximo de sua casa, em Rio Maria.  Segundo informações, dois ...

5 DE JUNHO: O DIA DO MEIO AMBIENTE DEVE SER O DIA DA RESPONSABILIDADE

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(Imagem: Said Dagdeviren) O rio da minha infância secou. A cisterna onde minha vó tirava água de balde está cheia de entulho. As lavouras da redondeza, antes ricas de alimentos, deram lugar ao deserto da soja, seus venenos e maquinários. Tudo murcha e seca quando o avião passa com sua nuvem mortal de vapor envenenado. Perderam-se as hortas e as sementes. Animais são criados com rações ricas em hormônio, presos e sem vida. Seus dejetos poluem tudo ao redor, inclusive as águas das alfaces, que também inunda o ventre dos peixes. Tudo corrosiva peçonha. Depois, há mais de 2 mil quilômetros ao norte, ajudamos a matar o cerrado tocantinense. Gaúchos migrantes, assoreamos outros rios, quebramos florestas, matamos animais de terra, água e ar. Abrimos estradas, cortamos, queimamos, devastamos. Tudo em nome de um desvirtuado progresso, patrocinado pelos governos, que promoviam a dizimação como benesse. Quase nada mais restou no chapadão imenso. Encontrar alguma avestruz ou veado...

O CASAMENTO DAS SEMENTES

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Segundo os historiadores, a história do casamento remonta à Roma Antiga, quando teria surgido a cerimônia religiosa com a presença da noiva, vestida especialmente para a ocasião, com destaque para as flores brancas e espinhos presos nos cabelos. As flores representariam a felicidade e a vida longa e os espinhos os maus espíritos. Mais tarde foi acrescentado o véu, em referência à deusa grego-romana Vesta, protetora do lar, simbolizando a honestidade e a virgindade, virtudes imprescindíveis para uma boa descendência e a continuação do “sangue”, segundo os costumes da época. Foram os romanos também que criaram o “direito do casamento”.  Na idade média as mulheres perderam o direito de escolher seus maridos e isso foi sendo uma decisão das famílias, que reservavam as meninas desde muito cedo para determinado parceiro. O noivado ganhou muita importância, com a troca de alianças entre as famílias comprometidas mutuamente – e financeiramente - através do compromisso dos ...