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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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sábado, 25 de junho de 2016






Foi-se o tempo em que ser professor era motivo de orgulho e deferência. Foi-se o tempo em que o professor era um vocacionado e em função disso tinha algum estatuto honorífico. Descontado o exagero e o romantismo obsoleto, fato é que muitas sociedades reconheciam essa profissão como socialmente decisiva e amplamente respeitável. Dá saudade! Embora muitas vezes esse respeito não se desdobrasse em reconhecimento profissional, nenhum político tinha a coragem de colocar a polícia contra ele, cachorro e camburão. Os exemplos recentes do Paraná de Richa e de São Paulo de Alckmin – só para ficar nos dois casos mais noticiados – mostram que as coisas mudaram mesmo. O magistério perdeu prestígio. E os cursos de licenciatura perderam candidatos.
Há algo muito mais grave em processo, contudo. Hoje o professor não é só desprestigiado, ele passou a ser tratado como um bandido, um criminoso. Como se não bastassem os baixos salários, a falta de um plano de carreira adequado, as jornadas multiplicadas e exaustivas, a indisciplina, o atoleiro das burocracias, as indecências de todo dia, agora ele virou um risco para o sistema, o culpado pela ascensão dos “vermelhos”, um ideólogo das esquerdas plantando revoluções na cabeça de pobres inocentes. Sem que ninguém repare no ridículo desse pensamento, os pais passaram a vasculhar os cadernos de seus filhos, não porque estejam preocupados com a qualidade do aprendizado [algo muito desejável], mas porque fiscalizam palavras soltas, frases ou ideias que possam comprovar o que lhes parece óbvio: que os seus filhos estão entregues durante boa parte do dia a um ser perigoso e psicopata. Um pai achou, no caderno de seu filho adolescente, uma análise sociológica que mostrava números positivos dos programas sociais dos governos petistas e resolveu denunciar o professor. A sigla MST foi encontrada em outro caderno e a professora foi demitida. Outra pediu tolerância e foi atacada nas redes sociais, até demitir-se. Marx, Nietzsche, Freud, Hobsbawn... estão vedados como nos anos sombrios da ditatura. E para evitá-los, crescem o controle e a normatização, os códigos de conduta, as recomendações e as repreensões contra o perigo do excesso. Tudo em nome de um ideal positivista de neutralidade que remonta à era dos dinossauros.
O projeto de lei 867/2015 que passou a ser conhecido como “escola sem partido” e cujo embaixador é um ator pornô travestido de bom mocinho, pretende proibir professores de difundir conteúdo que esteja em conflito com as convicções religiosas ou morais dos pais ou responsáveis pelos estudantes. Mesmo sendo tão vago e pretencioso e embora já tenha sido considerado inconstitucional por muitos juristas sérios, o projeto angaria defensores que negam publicamente a liberdade de expressão do professor em nome da mera transmissão de conteúdo. Essa posição não é só retrógrada do ponto de vista político, como também é um atentado às teorias educacionais mais eficazes e inovadoras. O projeto pretende, tão-somente, criminalizar a atividade docente e censurar o pensamento. Ele faz do professor um criminoso potencial. De mestre e orientador, o professor virou um risco à sociedade. O delito de “assédio ideológico” passa a ser peça de um jogo conservador e moralista que se ampara em visões religiosas extremistas e em medos que ela mesma alimenta. Os arautos da neutralidade mal veem o seu equívoco e seus seguidores parecem não prestar atenção à gravidade da proposta. Em sua página web encontram-se apelos para que os pais não hesitem em notificar extrajudicialmente os professores de seus filhos. Eles se dão ao trabalho de oferecer, inclusive, o formulário. A linguagem geral do site é policialesco, no pior sentido do termo. Encontram-se lá exemplos, histórias e nomes levantados pelos justiceiros de plantão, entre os quais se incluem estudantes manipulados pelos que denunciam a manipulação. Relatos esparsos catalogados com a única intenção de obter indícios e “flagrar o doutrinador”, acusá-lo e puni-lo. Todos estão à caça da carniça. Tudo para que seus filhos não sejam “vítimas” e “reféns” desses criminosos “sequestradores de consciências”! Imagina você ter um “vermelho” em casa! Imagina você ter um filho gay, defensor de direitos humanos, leitor de Marx, admirador de Paulo Freire, adepto dos ideais da revolução francesa – nem pensar! Do dia para a noite, muitos pais começaram a alimentar um verdadeiro pavor em relação a isso. Como se esse fosse o principal problema da educação brasileira. Como se os seus complexos desafios fossem se resolver com vigilância e punição de professores. Como se isso não fosse, mesmo, agravá-los. Como se a escola fosse mesmo tão eficiente assim. Como se os pais não tivessem nenhum papel na educação de seus filhos. Como se... No fim, a estratégia é sempre a mesma: ao invés de enfrentar os problemas, prefere-se o desacato ao profissional que está no chão da escola, esse depósito de pobrezas que ninguém conhece, nem os acusadores nem os pais que eles aliciam.
O que o projeto do Frota está colocando em questão é tão grave, mas tão grave, que nenhuma sociedade em sã consciência poderia sequer dar ouvidos, seja pela mentira de suas argumentações, seja pelo desnecessário de sua iniciativa. Na nossa, ao contrário, até o ministro da educação ouviu e fez selfie. Nem o professor tem tal força de convencimento (do contrário não estaríamos tanto “à direita”, como estamos), nem ele é um aliciador de consciências, nem ele é o comandante de um “exército de militantes”, nem o que ele faz é crime.
A origem etimológica da palavra professor remonta ao latim professum e a profitēri, aquele que faz profissão, ou seja, que faz declaração perante alguém, que se manifesta. Ser professor, por isso, é afirmar, assegurar, prometer, protestar, confessar, mostrar, dar a conhecer, enfim, ensinar. Querer proibir o professor de professar é querer fechar a escola. Que se abram quartéis, então. E depois hospícios e presídios. Isso não significa que ele pode ou deve fazer apologia partidária (de qualquer tipo) ou manipular conteúdos e atividades em benefício dessa ou daquela ideologia. Não. Mas convenhamos: para desenvolver o senso crítico e a autonomia de pensamento, só com liberdade e sua irmã gêmea, a responsabilidade. Ao invés de gastar tempo e dinheiro para criminalizar os professores, que tal essa gente miúda, pais e políticos, começarem a levar a educação mais a sério? 



A Revista Nova Escola acaba de publicar um dossiê imperdível sobre o assunto: http://novaescola.org.br/dia-a-dia-na-educacao/perguntas-respostas-escola-sem-partido-doutrinacao-educacao-956440.shtml