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DIREITOS HUMANOS É COISA DE BANDIDO?

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Um dos argumentos mais rasteiros e mais perigosos contra os direitos humanos é o de que eles servem  apenas  para defender bandidos. Não sei bem de onde essa narrativa surgiu, talvez da vontade popular de vingança contra os criminosos, talvez da insatisfação com a impunidade reinante, dos litígios pessoais mal resolvidos, da falta de informação, da ignorância ou do desconhecimento, da propaganda falaciosa de programas policiais que pregam punição imediata aos delinquentes, ou... um pouco de tudo isso e muito mais. Fato é que ela faz bem ao Estado que se mantém historicamente sobre privilégios de classe e no qual a lei é coisa para poucos. Pessoas que pensam assim, no geral são partidárias do elitismo jurídico, que garante justiça apenas aos “iguais” e àqueles a quem, no geral, ela já está garantida. Ao reproduzir essa narrativa ensaiada e de fácil digestão, patrocinada pela mídia sensacionalista e irresponsável, muita gente mal se dá conta de que ao desejar punição...

TEMER EM CHAPECÓ E O ENTERRO DA DEMOCRACIA

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Em algum lugar d’ O Príncipe , Maquiavel sugeriu que o poder legítimo vem do povo e que é necessário ao príncipe ter o povo ao seu lado para não sucumbir às adversidades. Na linguagem política do filósofo italiano, isso significa que o poder não vem de Deus e não depende do sangue ou da nobreza que ele evoca. O livro, por isso, é uma espécie de conselho para a aquisição e a manutenção do poder e carrega algumas das afirmações mais importantes da filosofia política moderna. Temer não veio do povo e, ao que parece, o teme como ninguém e o desconhece como muitos. O atual presidente do Brasil, ao contrário do que prevêm os rituais básicos dos regimes democráticos, não governa com e nem para o povo. Assim, quanto mais passam os dias, mais a sua face ilegítima se fortalece, atiçada pelo afã golpista que o levou ao poder, pela lógica de poder-sem-povo que ele deveria ter recusado, mas que, ao contrário, ele acolheu com impudência. O golpe foi golpe e continua cada vez mais golpe ...

O ABERTO, O FECHADO E O ESTUPRO DO BRASIL

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Talvez por culpa de nosso machismo profundamente entranhado (que afinal, afeta mulheres e homens indistintamente), talvez por nosso narcisismo de raízes indecifráveis, aprendemos e ensinamos, desde sempre, que a arte de viver consiste em cumprir estereótipos. Isso feito, tudo sairá bem. Entre nós nenhum clichê é tão frequente quanto a ideia de que o homem é um ser fechado e a mulher um ser aberto – que deve se fechar. Ensinamos essa receita aos nossos filhos. Meninos não choram, não manifestam sentimentos, não se rendem aos instintos, não frequentam intimidades, evitam opiniões. O homem, para ser homem, deve estar sempre inacessível, rude, obstruído, fechado. E assim, duro e absorto, cumpre seu atributo essencial, que é ferir, rachar, promover a fenda, bisbilhotar a abertura. Como incomunicabilidade absoluta, ele aprende desde cedo a arte de explorar e colonizar o corpo alheio. A mulher não. A mulher é de outra matéria, ensina-se-lhe. Ela nasce previamente rachada, aberta,...

A INVASÃO DA CÂMARA E A EXECRÁVEL IGNORÂNCIA ATIVA DOS IMBECIS

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“ Santa simplicitas! ” Esse é o título do aforismo 24 de Além de bem e mal , obra publicada por Nietzsche em 1886. O texto fala da ignorância, da “vontade de não-saber”, da incerteza e da inverdade que orientam os atos humanos. O filósofo acredita que muitas vezes mantemos propositalmente a nossa ignorância para “gozar de uma quase inconcebível liberdade” que se mistura com boa dose de irresponsabilidade, imprevidência e despreocupação com as consequências das nossas ações. Guiados pela ignorância, agimos sem pudor, aliviados de qualquer sentimento de culpa. Se isso pode ser interessante do ponto de vista interno da crítica nietzschiana à moral de rebanho, tem consequências danosas no campo da política, por exemplo. Pensada nesse contexto, a frase de Nietzsche soa mesmo como ironia terrível, na medida em que a exclamação faz referência a uma frase de Juan Hus (1369-1415), um reformador religioso precursor do movimento protestante, excomungado pela Igreja e condenado pela inq...