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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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sábado, 18 de fevereiro de 2017





O artista é, quase sempre, um ser polêmico. Ele é como aquele que deixou alguma pérola muito preciosa rolar para baixo de um móvel e, na procura, põe a casa no avesso, abre gavetas e vê abismos, racha paredes a marretadas e aterroriza a vizinhança à procura de preciosidades para, afinal, confundir sua esfera brilhante com alguma semente qualquer, que ele carrega vida afora, como se joia fosse e como se valor tivesse. Gente assim, além de rara, anda meio fora de moda. Em épocas em que os cérebros das maiorias, no que ele tem de melhor, que é a capacidade de análise crítica, parecem ter sido sugados através do ouvido pela seringa televisiva, pede-se ao artista o silêncio obsequioso, o cinza dos muros, a proteção cômoda da ignorância. Afinal, em épocas assim, o artista deve pintar quadros com lírios, recuar ao lirismo insosso, falar das praias do país ensolaradas, tra-la-la-la-lá.
O artista, como o intelectual (ou até mesmo como intelectual) vive a tensão de seu tempo e quer mais. Quer pensar no campo autônomo que foge dos muros particulares de governos de qualquer tipo e é desde aí que ele manifesta suas posições, embora, como bem apontou Pierre Bourdieu, ele o faça ultrapassando aquela perícia que lhe é própria, para falar sem nenhuma legitimidade, como artista que é, sobre temas que lhe são conhecidos apenas como ser humano e cidadão do mundo que é seu. Tal inconveniência o torna um ser incômodo e leva muitos de nós a achar que ele não tem direito de falar de coisas que não sabe. Que o artista fale apenas de suas letras, de seus ritmos e de suas tintas. Ponto final. Nada mais para ele. Seu engajamento será sempre seu crime. Mais do que isso, o artista, em fala pública, chega a ser repugnante e seu discurso vira transgressão. A maioria quer sair da sala. Uns cospem. Outros vomitam.
Isso aconteceu recentemente, quando a equipe do filme Aquarius mostrou ao mundo seus recados em papel sulfite contra o golpe no Brasil. Aparentemente, pagaram um preço bastante alto pelo delito de dizer o que pensam e, ainda mais, porque isso era reconhecer publicamente o “esquerdismo” de suas posições. Essa semana, ao receber o prêmio Camões, o grande Raduan Nassar repetiu o gesto de protesto, em frente às autoridades da pátria que cancelaram discursos para se explicar, antes de saírem apressados, ao modo dos incomodados. Não precisamos dizer que Nassar é um dos maiores escritores da língua portuguesa (o prêmio que lhe foi outorgado lhe dá esse reconhecimento, afinal) e que ele é de fala pouca, embora venha denunciando insistentemente o ataque à democracia brasileira por parte daqueles que orquestraram uma crise sem precedentes na história do país. Com sua fala, essa semana, Nassar transgrediu as regras que ele próprio impôs para si na forma da discrição e, principalmente, aquelas que obrigam o artista a permanecer fechado na sua arte. O Nassar dessa semana é o protótipo do intelectual que vive a bi-dimensionalidade apontada por Bordieu: ele deixou o seu recolhimento para expressar o seu engajamento. E ao fazê-lo, tornou-se problemático, indesejado, enfadonho. Há gente atirando ao fogo seus livros e praguejando suas atitudes.
Ao manifestar-se publicamente, Nassar não fugiu da literatura que lhe colocou entre os maiores escritores do mundo. Ao contrário, Nassar transformou a celebração de um prêmio em uma amostra de grandeza do artista e do intelectual que exerce a sua vocação ao usar a palavra para gerar senso crítico e arejar a cultura da distração, em um país de panelas silenciadas diante do impudor completo de quem ocupa, ilegitimamente, os postos do poder. Em São Paulo, diante do ridículo do ministro da cultura, Nassar não só achou a sua pérola, como nos ofereceu alguma luz para que nós também encontremos a nossa. Mas para isso, é preciso primeiro que estejamos dispostos a procurar.