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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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sexta-feira, 18 de novembro de 2016





Santa simplicitas!” Esse é o título do aforismo 24 de Além de bem e mal, obra publicada por Nietzsche em 1886. O texto fala da ignorância, da “vontade de não-saber”, da incerteza e da inverdade que orientam os atos humanos. O filósofo acredita que muitas vezes mantemos propositalmente a nossa ignorância para “gozar de uma quase inconcebível liberdade” que se mistura com boa dose de irresponsabilidade, imprevidência e despreocupação com as consequências das nossas ações. Guiados pela ignorância, agimos sem pudor, aliviados de qualquer sentimento de culpa. Se isso pode ser interessante do ponto de vista interno da crítica nietzschiana à moral de rebanho, tem consequências danosas no campo da política, por exemplo. Pensada nesse contexto, a frase de Nietzsche soa mesmo como ironia terrível, na medida em que a exclamação faz referência a uma frase de Juan Hus (1369-1415), um reformador religioso precursor do movimento protestante, excomungado pela Igreja e condenado pela inquisição. Conta-se que enquanto queimava sobre a fogueira ele avistou uma velha senhora que, com a maior das santidades e movida pelo melhor espírito religioso, colocava mais um pedaço de lenha para ampliar as chamas que o queimavam vivo. Santa simplicitas!, gritou ele, para dizer, no fundo, santa ignorância!
Lembrei da frase quando pensava sobre a invasão da Câmara dos Deputados do Brasil, nessa semana. Os protagonistas desse lastimável episódio são os mesmos que engrossaram as marchas de 2015, organizadas pelo MBL com dinheiro escuso que veio de muitos lugares, inclusive do PSDB. Tentei dizer aos meus conhecidos que era impossível caminhar ao lado dessa gente sem se sujar com as suas imundícies. Não adiantou. Santa simplicitas! Estavam todos lá, como aquela velhinha, colocando mais uma lenha na fogueira. Por ótimas causas. Causas até mesmo defensáveis, mas ignorantes quanto aos processos que estavam desencadeando e que, no meu ponto de vista, têm a ver com a quebra das regras democráticas. Ao contrário do que eles mesmos queriam acreditar, não fizeram mais do que aprofundar ainda mais o acelerado processo de bancarrota do país. Para mim, caminhar ao lado de quem carregava a bandeira do Império escravocrata e latifundista e gritava pela volta da ditadura ou a favor das truculências de Bolsonaro, é encorajar um discurso do ódio que vem crescendo ao redor do mundo de forma despudorada. Trump está aí para comprovar o perigo.
       Ocupar a mesa da Câmara para pedir a ditadura foi só mais um traço da reiterada reivindicação de escravocratas, corruptos, xenófobos, homofóbicos e outros criminosos que se mostram despudoradamente, dão entrevistas, tiram selfies, gravam filmes e postam nas redes sociais, sem nenhum medo do ridículo. Há muitas velhinhas de Hus espalhadas entre nós. E elas não são tão ignorantes e nem mesmo santas. Aqui e ali, elas vestem chapéus coníferos brancos, incendeiam casas e cruzes; sua lenha queima negros, gays e outros indesejados; mata favelados, bandidos e comunistas (mesmo que ele seja o seu próprio filho); seu gesto apoia sistemas de morte, como aquele que assassinou e levou ao desaparecimento 434 pessoas no Brasil durante a ditadura militar, segundo os dados da Comissão da Verdade, naquele relatório que ninguém deu atenção.
     Esse tipo de ignorância ativa – a mais execrável e diabólica de todas – ocupou a casa da democracia e exigiu o retorno da ditadura, fechando os olhos para todas as sequelas e tragédias que encharcam de sangue a história brasileira. A tolice trovejante e raivosa, transformada em combustível para a ação pretensamente política (embora abertamente despolitizada) impede essa gente de entender que fora da democracia – esse regime que autoriza as suas próprias manifestações – não há alternativa. E porque essa gente não entende mesmo o significado de seus atos – afinal a velhinha da lenha que eles cultivam secretamente não deixa – é preciso que a lei lhes ensine, antes que seja tarde: embora o Brasil tenha anistiado tantos torturadores, embora tenham recentemente absolvido um deputado que quer, insistentemente, transformá-los em heróis, embora meus conhecidos não saibam, é preciso evitar esse crime contra a democracia com a punição de seus apologistas. 
Quem reivindica a quebra da ordem constitucional e faz defesa da violência deve pagar por dois crimes: primeiro, por permanecer na ignorância e, segundo, por torná-la força motriz. Talvez obrigá-los a ler bons livros de história, conhecer de perto a dor dos familiares dos mortos e desaparecidos da ditadura, ou fazê-los desviar das galerias de Miami (o maior dos sacrifícios) para visitar museus que contam as atrocidades impetradas contra minorias quando viajam ao exterior... talvez coisas assim possam ser um bom começo. Se não der certo, comecem prendendo a mulher que acha que a bandeira do Japão está vermelha de comunismo. Do contrário, seu próximo ato será trazer a lenha e iniciar a grande fogueira que nos queimará a todos. Afinal, o que está no alto da fogueira é a própria democracia. E sem ela, nenhum de nós sobreviverá.





domingo, 13 de novembro de 2016







Boiando no breu, Elza Soares cantou em Londres hoje à noite, como parte da programação do London Jazz Festival, para uma plateia volumosa e extasiada. Já na entrada do grande teatro do Barbican, li uma frase de Hans Christian Andersen, que soou como uma espécie de prelúdio em tons schopenhaurianos: “onde as palavras falham, a música fala”. A música de Elza falou. E muito. Seu show é uma aula de dignidade, uma lição descomedida de cidadania e, sobretudo, uma experiência vertiginosa de arte pura. Tudo como deveria ser para essa “mulher do fim do mundo”, título da canção de Rômulo Fróes que dá nome ao show idealizado por Guilherme Kastrup.
Quando moralismos e muros, preconceitos e xenofobias, machismos e intolerâncias medram ao redor do mundo, Elza sentou-se como rainha negra do Brasil para falar dos direitos das mulheres. Mergulhada na luz, ela cantou contra o racismo, falou de sexo com a desenvoltura que lhe é própria, mas que não deixa de soar espantosa, levando-se em conta os seus (presumidos) oitenta e cinco. Elza serve-se de si como exemplo. Seu vocabulário é duro e frio. Estridente, sua música é ao mesmo tempo alerta e advertência, cujo auge está, sem dúvida, no refrão 180 de “Maria da Vila Matilde”, cantado repetidamente por ela e pela plateia: “você vai se arrepender de levantar a mão pra mim!”. A rudeza da verdade de palavras como essa encontra legitimidade na carne negra, pobre e violentada, a “mais barata do mercado”. A verdade de Elza é dita ali, olho no olho, sem retoques. Uma sambista sentada devido a problemas de coluna que grita “deixa eu cantar até o fim”, é parte dessa verdade irretocável que todos merecem ver e ouvir. Com os efeitos de som e luz, ao contrário do que poderia parecer, a imobilidade torna-se contagiante. Elza parece em ascensão para um mundo que é tão dela quanto nosso, os que dividimos suas esperanças.
Psicodélica em meio a luzes e acordes distorcidos, ela chega nas divisas do fim do mundo. E para tanto, do alto de sua maturidade, basta-lhe a voz. Ela não fala, contudo, de desastres e outras amarguras. Sua lição é uma só: “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Isso porque, talvez, o fim de que se trata, seja apenas de um determinado mundo, esse mesmo de onde ela vem e que ela condena. O lugar das fronteiras, onde a vida dá lugar à morte, a paz à violência, a esperança ao desespero.
A música de Elza Soares é tão atual e seu dicionário tão contemporâneo e palpitante, sua performance tão coerente e válida, que ela chega como ninguém onde pretende, alçada pela vitalidade e pela coragem de quem sai das raias da mediocridade, onde cresce a vulgaridade, mãe de nossas misérias. O triunfo de Elza sobre Londres nessa noite vem com lágrimas negras e sanguíneas e com palavras pesadas, sexualmente explícitas, despudoradas por dentro e por fora. Eleita pela rádio BBC em 1999 a cantora brasileira do milênio, Elza parece assumir sua identidade com a força das transcendências. Talvez por isso, no escuro do palco, quando a voz se cala e enquanto ela afunda de novo no seu mundo de escuros para recolher o conteúdo precioso que lhe dá autenticidade, só reste mesmo a declamação do poema de Murilo Mendes: Elza é essa mulher Metade pássaro. Sua mensagem é de esperança. Ao que parece, se depender dela, o mundo não vai acabar nunca. A gente, estupefato, fica torcendo pra ela voltar e nos puxar para o seu sono eterno.


Metade pássaro

A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.
A mulher do fim do mundo
Chama a luz com assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas aos rios,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.

MENDES, Murilo (1901 – 1975). Antologia Poética. São Paulo: Cosac Naify, 2004, p. 48


PS: Sim, houve gritos de “Fora Temer” na plateia.