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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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sexta-feira, 28 de outubro de 2016







“Quanto mais pode a fé que a força humana!”, registra Camões no canto III d’Os Lusíadas, em referência ao esforço do jovem Davi, fraco e mal vestido, que se atreve a enfrentar o gigante Golias na luta improvável de um único ato. O pequeno diante do grande é tema do livro bíblico do profeta Samuel que conta a história do maior rei de Israel. O pequeno dispunha de uma bênção de dignidade que faltava ao grande: nenhuma armadura que não fosse uma atiradeira, algumas pedras lisas e a coragem suficiente para derrubar o temido guerreiro filisteu. Uma bravura colossal que Michelangelo entalhou nos cinco metros de sua pedra, para que a posteridade não tivesse dúvidas sobre quem era grande naquele campo de batalha. Ali, no mármore branco, o Davi de Florença reúne as forças para lançar a pedra, carregando no olhar a tenacidade e a valentia da glória premeditada de um jovem contra os tiranos de um povo. Davi, por isso, não era incauto. Altivo na história, ele segue sendo advertência aos poderosos e esperança aos oprimidos de toda espécie. De pé diante do seu algoz, o jovem Davi revisa Camões para mostrar que a coragem vale mais do que o poder.
Embora a imagem possa parecer simplista, vi um pouco de Davi no ato de Ana Júlia diante dos 54 deputados paranaenses, sua coragem e sua verdade. A voz estremecida da estudante, o nervosismo e o choro contido, traduziram a vulnerabilidade dos jovens que ocupam as centenas de escolas públicas ao redor do Brasil, única voz contra os desmandos presidenciais nesse tempo de panelas caladas por obséquio. Enquanto discutem a legitimidade da iniciativa, os senhores da pátria formam maiorias para votar medidas que atacam os direitos sociais conquistados nos últimos anos. Esses jovens estão diante dos homens brancos e velhos que tomaram o país de assalto e iniciaram, despudorados, o desmonte da educação. O presidente da Assembleia Legislativa do Paraná sentiu-se ofendido e quis cortar a palavra, anunciando a presença da jovem como uma espécie de favor: “eu peço o silêncio de vocês, se não eu encerro a sessão”, declarou o nobre deputado, ecoando o lema mais atual da política brasileira, que pede contenção e obediência, ao invés de pensamento crítico. “Eu exerço a minha autoridade, democraticamente permiti que vocês viessem aqui”, complementou. Em uma frase, a história inteira de uma nação vítima de senhores que “mandam” e “permitem” que o povo fale apenas quando eles quiserem, tão só o que lhe for autorizado, como se tolerassem a democracia como um regime indesejado e como se a voz do povo e o pensamento crítico fossem uma espécie de enfermidade social. A fala do deputado Ademar Traiano (PSDB!) demonstra por que o governo não tem conseguido dialogar com os estudantes, essa parcela de Davis que continua a postos, bodoques a tira-colo, enfrentando seus gigantes: ele simplesmente não quer. Não interessa o diálogo àqueles que impõem à força medidas planejadas em suntuosos jantares que ferem princípios constitucionais e comprometem o futuro da juventude. Justamente o diálogo, que foi o ponto central do discurso de Ana Júlia!
Ela, a menina, contudo, estava lá, de pé. Desculpou-se e esclareceu a legitimidade da luta dos estudantes. Criticou o abominável projeto “Escola sem partido”, a PEC 746 e a PEC 241, esta última classificada, um dia após o seu discurso, como “injusta e seletiva” pela Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB), porque elege os pobres para pagar a conta do descontrole de gastos do país e da corrupção dos poderes. A CNBB está com Ana Júlia, como se vê, porque entende que a MP 241 torna o Estado um privilégio de classe e ameaça os direitos constitucionais. Temer e seus comparsas querem derrotar Davi com a força de muitos Golias. Do seu lado os senhores do capital financeiro, os que lucram com as altíssimas taxas de juros, os agiotas de plantão, os donos das fortunas sem imposto e os que não querem auditar a dívida pública para esconder as verdadeiras motivações da proposta. Todavia, como Davi contou com as bênçãos do profeta Samuel, Ana Júlia contava com o apoio de seus amigos estudantes, dos professores, dos bispos e de inúmeras entidades que vêm denunciando o desmonte da educação e das demais políticas públicas em nome da idolatria do mercado. Ninguém tem dúvidas que o projeto do governo atual está profundamente inspirado no pior do neoliberalismo: Estado pouco (ou nada) e Mercado muito. Um lema cuja inspiração afronta a Constituição Brasileira, conforme Ana Júlia explicou aos seus Golias.
A menina, do alto dos seus 16, saiu abraçada depois daquela aula de cidadania que emocionou a todos os brasileiros que ainda cantam com Gonzaguinha aquela fé de Camões na juventude: “Eu ponho fé é na fé da moçada/ Que não foge da fera, enfrenta o leão./ Eu vou à luta com essa juventude./ Que não corre da raia a troco de nada.” Ana Júlia volta pra sua escola, onde seus amigos estão acampados, varrendo as salas e lavando os banheiros. A indesejada escola pública, esse depósito de pobres, esse asilo do feio e do sem futuro, virou o que não devia, o que não se esperava, um lugar de política, como outras vezes na história. E sendo assim, ela reverte o que os governantes e as elites esperam dela: ao invés do silêncio obsequioso, a turma da Ana Júlia preferiu falar. A sua voz precisa, urgentemente, ser ouvida, a começar por envolver os estudantes na discussão das reformas propostas para a educação. O ministro do Frota deveria deixar os confortos da corte brasiliense para se encontrar com Davi no chão da escola.

Ao contrário de outros artistas, Michelangelo não representou o seu Davi como um rei vitorioso, já celebrando o seu triunfo, mas como um corajoso menino diante de seu verdugo: ele ainda não atirou a pedra, ele olha indevassável o corpo membrudo do inimigo, ele reúne suas forças, ele planeja sua luta. Diante dele está ainda aquele Golias que a todos amedrontava. Ele ainda não derrotou o seu gigante. Tem um pouco de alarme em seu olhar. A voz está hesitante. Mas para o Davi do Michelangelo, como para Ana Júlia e os seus, a luta só está começando.