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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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sexta-feira, 23 de setembro de 2016







A filosofia, como disciplina escolar, tem sido uma indesejada. Passamos incontáveis horas estudando português e matemática quase sempre sem nos perguntarmos sobre a utilidade dessas coisas. Elas parecem óbvias, afinal, dizem alguns, para humanizar o ser humano, é preciso que ele saiba ler e contar. Uma visão, cá entre nós, bastante limitada e antiga, amplamente difundida desde o Iluminismo, como estratégia para nos tirar das trevas. Com a filosofia não é assim. Talvez porque essa seja a sua essência, ela é colocada sempre de novo à prova. Nenhuma outra disciplina precisa dizer tanto e de tantas formas a que veio como a filosofia. Nenhum outro professor precisa entrar em sala de aula aparelhado de tantas desculpas e justificativas (“gente, absolvam-me, isso é bom pra vocês, acreditem e... me suportem!”). E por isso, como sabem os meus colegas, nenhum outro professor é tão seriamente avaliado, criticado, exposto. O professor de filosofia está sempre nu, como aquele santo entregue às flechas. Sua santidade, contudo, não está na evidência de sua bondade, mas na defesa de uma causa aparentemente perdida. E sua condição está longe de ser a de um mártir ou de uma vítima. Antes, ele sempre retorna como criminoso.
A filosofia, como disciplina escolar, é sempre problemática. E isso não é de todo ruim. Heidegger anunciou esse fato como uma vantagem ao afirmar que, sendo “problemática”, a filosofia sempre se coloca como problema para si mesmo. Tem sido assim desde Tales. A pergunta o que é isto, a filosofia é parte já, intrínseca, do ato de filosofar. Ocorre que, para ser formulada nesses termos, o objeto da pergunta, ou seja, a própria filosofia, precisa ser levado a sério. Sem isso, o problema da filosofia é ocioso e suas interrogações viram apenas chacota, tumultuada gozação. E talvez porque ninguém saiba mesmo o que é isto, a filosofia posto que no geral se permanece sempre fora do seu círculo, talvez seja por isso, efetivamente, que ninguém valorize a filosofia, salvo alguns filósofos. O valor da filosofia, afirmou Bertrand Russell (quem, aliás, também era matemático, como Descartes, o pai da filosofia moderna – o que prova que não há inimizades entre as áreas do saber em questão) está no seu potencial de tornar o espírito humano mais sereno e, sobretudo, mais livre, justamente porque esclarece e ajuda a encontrar justificativas para o que são apenas convicções, preconceitos ou crendices – nada mais indesejável em tempos como os nossos em que convicções se sobrepõem aos fatos.
A filosofia, como disciplina escolar, é indesejada, sobretudo, porque ela não tem nunca um produto (salvo quando a gente se esforça para colar no corredor da escola/universidade algum cartaz ou banner que tente tornar “palpável” o pensamento – mas isso é só estratégia de salvação). Filosofia não tem produto porque seu resultado não é outra coisa senão mais pergunta. A filosofia é incapaz de nos dar respostas verdadeiras e definitivas. E isso não agrada a todos. Não é raro que as pessoas revelem certo mal-estar com a interminável disputa de argumentos de filósofos em torno de um mesmo tema. Para um olhar mais, digamos, prático, a filosofia não passaria de rinha eviterna típica de um hospício, posto que aí ninguém parece se entender. Quem quer verdade última, fácil, resumida, não mora na filosofia.
A filosofia, como disciplina escolar, é indesejada tanto quanto aquela criança que está, como dizia a minha mãe, na “idade dos porquês”. Chata essa gente que fica sempre interrogando, quando é tempo de afirmar. Insuportável essa turma do “para que?”, do “com que motivo?”, “com que razão?”. Quando visitei uma escola, no passado, a diretora me confessou que o professor de filosofia estava dando muito trabalho – criando polêmica, sabe? Eu não tive outra saída a não ser lembrá-la dessa vocação inconformista e questionadora dos agentes filosóficos. Foi Russell que nos presenteou com essa verdade: se a filosofia não nos dá certeza sobre o que as coisas são, é porque ela nos oferece múltiplas escolhas diante do que as coisas podem ou poderiam ser. Filosofia não gosta de dogmatismo. Em suas veias corre o sangue perigoso da admiração, do susto e da contradição. Seu ensino, é a transfusão desse sangue. Sua metodologia, é o contágio da incerteza e do incômodo como origens do pensamento. O que se espera disso? Não resposta, mas outras perguntas. O filósofo é o ser que caminha entre perguntas como aquelas pedras que a gente espalha para passar sobre um terreno alagado. E como alguém que mal se dá conta, do nada e ele já está caído na poça d’água, embaralhado que foi pelo limo das rochas. O filósofo é um ser tão estranho que costuma cair do alto de suas próprias perguntas. Por isso, quase sempre é encontrado roto e sujo de lama, como os demais mortais.
A filosofia, como disciplina escolar, foi indesejável no Brasil durante a ditadura militar. Em época em que obedecer é a regra, pensar é ato ilícito. Ainda mais quando somos incentivados pela preguiça, tão radicalmente denunciada por Kant: por indolência a gente prefere que alguém pense e decida por nós. Esse é o desejo próprio dos opressores. É o modo que eles encontraram para instalarem-se, parasitas, nas nossas cabeças. Onde não há pensamento, há sempre lugar para eles. Se o pensamento não enche a barriga, é bem verdade que ele torna as mentes impróprias para as tênias da ordem vigente. E onde as tênias moram, o corpo definha. O pensamento, como oficina que nunca descansa, torna a mente humana inadequada para a reprodução dos vermes da convicção e do dogmatismo. Mas não estou falando de um pensamento qualquer. Foi com Heidegger, também, que a gente aprendeu que uma coisa é poder pensar (ou seja, ser animal racional), outra é escolher o pensamento (aprender a usar a racionalidade).
Agora que o ministro do Frota e o presidento ilegítimo encenaram na alcova, confundidos, a reforma do ensino médio, é bom pensar de novo sobre o valor da filosofia. Na prática a mudança vai reiterar a sua desvalorização. Depois que ela e sua irmã gêmea, a sociologia, foram alvo de inúmeros ataques da elite paneleira da nação, o que nos espera? Talvez novas fogueiras, inquisições, fahrenheits 451.

Filosofia, meu amor, eu te desejo tanto, na escola e na vida - na escola da vida!