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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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sexta-feira, 16 de setembro de 2016






Quem já leu o romance O nome da Rosa, de Umberto Eco, ou pelo menos já assistiu o filme dirigido por Jean-Jacques Annaud, há de lembrar facilmente que um dos principais argumentos da obra é a luta entre a convicção e os fatos. Com essas duas ideias, Eco resume o conflito entre um modo pretensamente medieval de pensar (tudo bem, ele recorre ao velho estereótipo!) e aquele que seria o método moderno de acessar a verdade. Sete monges mortos em sete noites seguidas naquela abadia de fim de mundo, cercada de infinitos mistérios: diante dos acontecimentos, a convicção se utilizava dos argumentos disponíveis à época: culpa do diabo, ação do demônio, algum tipo de castigo divino. Até que o frade Guilherme de Baskerville e seu aprendiz, insatisfeitos com as convicções corriqueiras, iniciam uma longa trajetória de investigação, reunindo evidências e dando preferência aos fatos. Não demorou para serem envolvidos em uma trama de medos e vinganças que se resume em torno do famoso livro que teria sido escrito por Aristóteles a respeito do riso. A verdade vem à tona, na história, não por meio de convicções, mas como resultado de uma investigação séria, retilínea e dolorosa.
Convicção é artigo de fé. Ou você acredita ou você reza para colocar o dedo na ferida um dia, como Tomé, que teve muita sorte de encontrar o Salvador para tirar a prova dos nove. A maioria dos mortais não teve. Fé não é ciência. Ciência, nos ensinaram os modernos, lida com fatos, ou seja, recorre a normas e procedimentos metodológicos, à observação sistemática e organizada, às evidências empíricas, a pesquisas de campo, à análise lógica de causas e consequências, entre outras coisas. Na busca da verdade, os fatos devem ser analisados com a força dos pormenores, com atenção aos detalhes e segundo verificações constantes e reiteradas. A base desse tipo de metodologia, por isso, conforme mostrou Descartes, é a dúvida metódica e a decomposição do assunto em suas miudezas, às quais depois são ajuntados outros elementos até que o pensamento possa alcançar um lugar satisfatório, onde a fé dá lugar a elementos empíricos. Se à convicção basta o método dedutivo (ou seja, o sujeito reunindo hipóteses em seu gabinete), a ciência dos fatos age pela indução (o objeto é a principal fonte da verdade, ele induz o sujeito por meio de evidências). Se à convicção basta a boa vontade, o anúncio de hipóteses e a ascensão imediata de certezas, os fatos exigem parcimônia, verificação e, sobretudo, resistência àquilo que Karl Popper chamou de princípio da falseabilidade: diferente das convicções, que podem ser discutíveis, a verdade que nasce dos fatos deve sobreviver ao teste do erro. É por isso que o cientista deve dar, paradoxalmente, preferência ao erro, porque ao confrontar os fatos com sua própria falsidade, a verdade sai fortalecida, caso as evidências derrotem o erro. Simples assim: quanto mais uma verdade é confrontada com o seu oposto, a mentira, mais ela se fortalece, caso seja mesmo verdade. Desde sempre, portanto, os fatos precisam passar pela prova de fogo. E a convicção, ao contrário, não gosta nem da dúvida nem do confronto.
O mundo jurídico se abasteceu dessa fonte para evitar atropelos e impedir que inocentes fossem culpados de antemão. O assunto é tão sério que virou uma espécie de dístico para o direito individual de cada um de nós: ninguém pode ser considerado culpado até prova em contrário. Prova – ou seja, fatos evidentes e não convicções. É óbvio que esse procedimento não oferece todas as garantias contra a invalidade dos processos e nem sequer preserva a justiça humana de equívocos infelizes, mas pelo menos ela oferece um caminho mais seguro do que aquele da convicção, muito mais afeito aos erros e aos deslizes.
A convicção, porque falha nas evidências empíricas, associa-se facilmente à retórica. A linguagem performática é a melhor forma de convencimento quando os fatos não estão de todo esclarecidos. Eufemismos, metáforas, idiossincrasias e suposições recheiam o horizonte argumentativo de quem celebra uma verdade nascida com antecedência, imposta como argumento no lugar dos fatos. Como professor, já vi muito essa estratégia entre estudantes que não leram ou não compreenderam um texto, mas, mesmo assim, precisam apresentar um seminário. Também nesses casos, sobram Power points com gráficos bastante convincentes – provavelmente nenhum é mais persuasivo, porque fácil de ser lido, do que esse famigerado desenho em que um nome ou conceito é colocado no centro e sobre ele desandam inúmeras setas acusatórias de todos os lados. Qualquer mente menos preparada pode sair convencida da verdade de um argumento desenhado assim – embora também permaneça inconfessavelmente bastante desconfiada quanto a ele. Qualquer estudante de graduação conhece a pressa e a retórica contidas nesse tipo de slide. A pressa, nesse caso, não é apenas inimiga da perfeição, mas inimiga da verdade.
Nietzsche – como se sabe, um grande crítico das crenças que dominam o modo de pensar e de organizar o mundo no Ocidente - escreveu que a principal inimiga da verdade não era a mentira, mas a convicção. Isso porque a convicção, porque é baseada em pré-conceitos, impede que a verdade apareça. A verdade é um fruto maduro e deve ser colhido diretamente no pé. Um amigo meu, quando criança, acreditava que macarrão dava em árvore. Enquanto permaneceu convicto disso, não havia nenhum lugar para a verdade em seu coração. Porque é um obstáculo à verdade, a convicção foi banida dos laboratórios como um sentimento indesejável. Pena que ela continua grassando nos meios jurídicos para o êxtase da mídia, embora também com o prejuízo da verdade que todos nós, ansiosos, gostaríamos de conhecer. Quando ela toma o lugar dos fatos, nós voltamos ao cenário medieval de Umberto Eco, antes da chegada de Sean Connery.