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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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quinta-feira, 16 de junho de 2016






A calvície, definitivamente, está na moda. Com muitas variações e estilos, ela se alastra nas cabeças de esquerda para a direita, por trás e pelos lados, de cima para baixo, equilibrada com cavanhaques, barbas ou chapéus. Até mulheres aderiram. Foi-se o tempo em que a falta de cabelo deixava alguém velho, rabugento, antiquado. Não há dúvida: é possível ser careca e ao mesmo tempo ser estiloso, moderno, bonito e gostoso. Olhe ao seu redor. Não vai ser difícil identificar um amigo careca. Afinal, todos temos um – “só a bailarina que não tem” e não sabe o que está perdendo. Careca pode ser gente boa, acredite!
Sendo assim, decreto o fim do elogio à cabeleira. Desde que Arnaldo Antunes e Jorge Ben fizeram a Gal Costa cantar, insana, o seu Cabelo, sinto-me provocado com o assunto. Afinal, a história de Sansão é bonita, mas tenho muitas dúvidas sobre sua veracidade. Nada contra quem tem, mas cabelo não dá força pra ninguém. Se meu testemunho vale, dou: quando comecei a me dar conta do meu destino capilar, vivi aquelas cinco fases do luto: negar (não é calvície, vai crescer de novo, é só uma fase), ter raiva (por que comigo e não com meu irmão?), barganhar (procissão e vela pra santo são as práticas mais comuns, ao lado de promessas de honestidade e bondade infinitas), deprimir-se (não sair à rua sem chapéu é o primeiro sintoma) e, enfim, aceitar. Para chegar à última fase, confesso que contei com a ajuda da filosofia. Sim, é o que sempre digo: nada do que é mundano é estranho aos filósofos. Aliás, é bom lembrar, muitos deles são carecas, ou seja, entendem da coisa. Se não fosse muito exagero da minha parte, chegaria até a afirmar que os homens mais inteligentes são aqueles a quem falta cabelo; ou que, precisamente porque lhes falta cabelo, foram obrigados a se tornarem mais inteligentes. Mas isso, como disse, seria exagero. Vou me conter.
Quando eu estava ainda abatido pelo diagnóstico, a filosofia me deu de presente um texto magnífico, escrito no século IV da nossa era, pelo pensador grego Sinésio de Cirene. Sinésio, como eu, também ficou incomodado com o Elogio à cabeleira, um livro [perdido] escrito por Dião Crisóstomo. Como resposta, resolveu escrever o seu – urgente e necessário - Elogio à calvície (Encomium calvitii). Consta que Sinésio não recorreu a antídotos mágicos ou remédios secretos da já então rentável indústria cosmética, mas preferiu transformar a sua carência em uma virtude, bem ao modo da filosofia estoica que seu neoplatonismo parece ter acolhido. Aproveitou a falta de cabelo para cultivar a sabedoria e ajudou todos nós, carecas, na árdua luta contra o vexatório e o estereotipado. Para Sinésio, a calvície não só revela sabedoria, mas também beleza, bondade de alma, integridade moral e – principalmente – boa saúde.
Presumo, contudo, que o filósofo tenha vivido aquelas cinco etapas do luto às quais me referi acima. A leitura do seu texto dá algumas pistas. Ele relata, por exemplo, a aflição por causa da queda precoce dos cabelos, o vexame público, a piada dos amigos, a recusa das mulheres (que o aceitavam “só como mães e irmãs”, reclama indignado). Quis atacar os deuses e chegou a perder a fé: “onde está a Providência que a todos deve tratar-nos segundo nossos méritos?”, vaticina. “Que crime terei cometido para ser objeto de horror perante as mulheres?”, “minha desgraça me parecia insuportável”, escreve mais adiante. Diante do Elogio da cabeleira, esse sentimento de pesar só aumentava. Pobre homem! A ele, minha solidariedade total! O que ele fez, contudo? A única coisa possível a um filósofo: escreveu um texto em resposta, demonstrando a superioridade da calvície, cujo resultado lhe foi demonstrado pela aplicação da razão como remédio aos seus próprios pesares: “o hábito e a razão me ajudaram a suportar a tristeza” e a “paciência me ensinava a suportar o mal”, consolava-se. Pensando bem, ser careca não é tão ruim assim.
Para Sinésio, a calvície é a marca da humanidade. Basta olhar para os carneiros: quanto vale tanto pelo? Esses bichos continuam mansos, estúpidos e ignorantes ao extremo, provando que cabelo é sinônimo de bestialidade. A calvície, ao contrário, está ligada à sabedoria. Sócrates e Diógenes, por exemplo, foram calvos. Poderia acrescentar o Husserl, o Heidegger, o Foucault, o Schopenhauer... uma lista interminável. Todos calvos e muito sábios (tudo bem: nem tão bonitos assim, principalmente o velho Shop!). E se você não for filósofo, mas for soldado, lembre-se que na guerra a calvície pode ser de grande utilidade: imagine um soldado cabeludo, ele pode ser facilmente agarrado pelas crinas, derrubado e morto. Redonda e sem adereços, além disso, a cabeça é mais perfeita, já que o círculo é a mais esmerada das figuras geométricas. Nenhuma vergonha em mostrá-la, portanto. Dizem até que Deus teria feito algumas cabeças perfeitas e as outras teria coberto de cabelo. Não há discussão: a atriquia é mesmo um privilégio. O charme do careca, como já foi dito, está sim, na sua autenticidade.
Além disso, ser careca é muito mais econômico. Vejo amigos gastando o último fio de cabelo (!) para comprar cremes e outras papas, e para pagar frequentes visitas aos barbeiros gourmets, cada dia mais caros e personalizados. Nós carecas aproveitamos o tempo de outro modo. Cortamos os nossos parcos cabelos, quando os há, sem nenhum pudor e o único creme que nos persegue é o protetor solar. Pente é uma palavra que não existe no nosso dicionário. Depois, ser careca é muito mais higiênico (não vou entrar nos detalhes sórdidos) e existencialmente muito mais adequado: como não temos muita opção, ninguém de nós gasta tempo perseguindo e escolhendo moldes e tendências. Como tudo está dado, gastamos nossos neurônios com coisas muito mais importantes.
Por último, o livro de Sinésio apresenta uma vantagem muito relevante. Ele nos ajuda a entender o quanto algumas regras sociais são aleatórias e ridículas. Convenhamos: avaliar uma pessoa pela quantidade de cabelos que ela tem na cabeça, dirigir-lhe piadas e atacar-lhe com chacotas e troças (ainda mais doloridas na adolescência) pela falta deles, são costumes sem nenhuma decência. Sinésio nos ensina que é muito melhor ser quem somos e aprender a gostar disso o mais breve possível. E isso não tem nada a ver com resignação. Quem quiser usar peruca, deixar crescer as sobrancelhas, puxar os fios da esquerda e trazê-los grudados até o outro lado da testa a custo de muito gel e suor, implantar, transplantar, replantar... vale tudo. A juba – ou a falta dela – é assunto privado. Eu de minha parte, prefiro confiar na elegante brincadeira de Sinésio e no velho ditado popular de verdade indiscutível: “é dos carecas que...”



PS. O livro está traduzido em português, por João Batista Camilotto (EDIPUCRS).