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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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sábado, 21 de maio de 2016




A senhora chegou revoltada no escritório do CRAS (Centro de Referência da Assistência Social). Veio a pé, sol a pino. Vestida de pobreza. Filhos ranhosos a tiracolo. Trazia na voz todas as formas de cansaço. E nos erros de gramática, todo o analfabetismo, a falta de oportunidades, os calos do trabalho que lhe proibiu a escola, os vícios do marido, quem sabe até a violência doméstica. Em seus gestos, a história da escravidão negra, as muitas cercas da fome, os horizontes fechados pela dureza do cotidiano. Embora sua revolta não estivesse bem conjugada verbalmente e seus plurais não refletissem nenhum padrão linguístico - mesmo assim -  ela fora compreendida. O direito ali reclamado parecia essencial, imprescindível, indispensável. Quem ouvisse os impropérios, não deixaria de se emocionar e não teria dúvidas sobre a necessidade vital que envolvia o benefício adquirido e agora, sem mais, cancelado: cortaram-lhe a bolsa família!
Vou logo esclarecer: Dona Isabel não vive só disso. Ela trabalha, de sol a sol, todos os dias, em casa de estranhos. Seu marido vive longas jornadas longe da família, trabalhando como peão nas fazendas da região. Se bem descrita, a sua situação se enquadraria nas novas formas de escravidão, frequentes naqueles ermos do país. O filho mais velho vende leite de casa em casa, todas as manhãs. Os outros dois menores, de vez em quando, voltam para casa sorridentes, carregando pedaços de ossos doados pelo açougueiro para a sopa. Não. Ninguém naquela casa merece as alcunhas afrontosas que recebem todos os dias, aqui e ali, até de gente bem-intencionada. Não. Ninguém naquela casa é vagabundo, desocupado, indolente. Ninguém lá vive só da bolsa-pobreza. Ninguém lá espera tudo de mão beijada. Ninguém lá vive de benesses ou de favores, nem de saldos dos privilégios, nem de desvios, maroscas ou tramoias contra o erário público, contas na Suíça, conluio com empreiteiras, favorecimentos. Não. Nada. Ninguém. Naquela casa moram as vítimas desses crimes. E sim, todos os meninos vão à escola, como prevê o programa.
Dona Isabel, contudo, precisa do dinheiro do governo. Precisamos ser práticos. É um leite que falta, um trocado para a mistura, um complemento para o gás ou para a conta da luz. Sem o dinheiro para saldar as dívidas do mês, o moço do mercado não vai vender mais fiado. A vida, já tão sofrível, ficará pior. Dona Isabel não se conforma. Talvez ela não saiba que o programa social, do qual ela depende, custa tão pouco diante dos outros benefícios pagos pela União aos empresários, usineiros, banqueiros e aos próprios deputados que agora cortam os seus direitos – uma tal consciência talvez multiplicasse sua revolta e Dona Isabel sucumbiria em seu próprio desespero. Pensando bem, melhor que ela não saiba disso...
A psicóloga do CRAS (a quem devo esse relato e que, por acaso, é minha irmã), enquanto ouve os soluços de D. Isabel, pergunta de quanto era a verba perdida, motivo de tanta indignação. Sem titubear e sem nenhuma censura na voz, Dona Isabel declara, em bom português: trinta e sete reais! O que para muitos é o valor de um café, a gorjeta do garçom, o troco que fica com o taxista, para Dona Isabel era uma vida inteira. Quanto custou o vinho do deputado no exterior? Quanto, aquela viagem com a família, a hospedagem no hotel cinco estrelas, a joia, o aluguel dos carros? Quanto?
Ninguém que bateu panela e tirou foto de verde e amarelo ao lado do Bolsonaro, deve conhecer a Dona Isabel. Não sabem que o valor básico mensal médio do bolsa família é algo em torno de R$ 77,00 e que uma mulher grávida pobre recebe, por nove meses, R$ 35,00! E que uma família pobre pode receber R$ 35,00 por filho com idade de até quinze anos, com limite de cinco por família. Que os meninos da Dona Isabel receberam R$ 35,00 mensais durante seis meses – esse foi o custo da sobrevivência de três vidas daquela família! Não. Ninguém sabe. Ninguém quer saber. Ninguém se preocupa com Dona Isabel e com o fim dos programas sociais que agora são anunciados como responsáveis pela crise econômica nacional, uma “herança maldita” que o interino recebeu da presidente golpeada e de seu antecessor.
O que é maldito na herança nacional é a miséria e a falta de oportunidades de Dona Isabel. É o fim dos programas que poderiam dar a seus filhos um futuro diferente do seu. O que é maldito na herança nacional é a ignorância daqueles que lutam pelos próprios privilégios e, sem pudor, condenam milhões de famílias à fome, à falta de casa, de terra, de cultura, de educação de qualidade. Maldito é o silêncio de quem vê o país ser tomado pelo que há de pior na política nacional, sob a vênia da retomada de um crescimento econômico que exclui gente como Dona Isabel. Quem vai bater panela em favor dela e de seus filhos?

PS. Sobre esse assunto, indico o livro “Vozes do Bolsa Família, Autonomia, dinheiro e cidadania”, de Alessandro Pinzani e Walquiria Leão Rego, que analisa dez anos desse que é o maior programa de combate à pobreza no mundo e cujos beneficiários são, na sua maioria, mulheres como Dona Isabel.