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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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sexta-feira, 15 de abril de 2016






O que é triste não é o muro de aço dividindo a paisagem que Lúcio Costa projetou como espaço cívico de liberdade. O que é triste não é ver a cidade que Niemeyer imaginou (não sem críticas) como área comum, sob uma noção de igualdade e de direito que remete à famosa Carta de Atenas, de 1933. O que é mais triste não é que Brasília tenha erguido, a essas alturas, no coração do poder, o muro que pretendeu dispensar desde o princípio. E nem que ele se disponha em frente ao congresso, suprimindo qualquer utopia contida na palavra que deveria simbolizar a nossa união. O que é lamentável no muro não é seu material, nem apenas seu conteúdo político, os sonhos que ele devora com seus dentes de aço, os mundos que ele separa e contrapõe, os futuros que ele gerencia. Tudo isso é mesmo deplorável, é verdade. Ainda mais porque está contido na divisória, a infantilização da política pelo mal preguiçoso do maniqueísmo e os potenciais violentos que a discórdia delirante incuba sob os holofotes. Tudo isso é muito deplorável, é verdade, e medra como lodo nas paredes do aço.
O mais grave, contudo, não é o muro, é a “doença do muro”. A expressão foi cunhada pelo psicólogo Dieftried Muller-Hegemann para explicar a situação das famílias que foram separadas pelo muro berlinense. Serve para nós. Recorro a ela para pensar na vontade de divisão, na ambição pelo privilégio, na aspiração de imunidade e regalia. O que é mais grave, por isso, é o que o muro de Brasília esconde. O incômodo da presença do estranho, a revolta contra as minorias, a violência contra as mulheres, a discriminação contra os negros e indígenas, o preconceito contra os homossexuais, o medo dos pobres, principalmente daqueles que se organizam (pobre sozinho é motivo de caridade, pobre organizado é, comunista e bandido, ensejo de ódio). O mais grave são os muros invisíveis, os muros introjetados pela mídia, os muros que não serão retirados nunca mais, a cicatriz dos muros, os muros sedimentados no espírito, obdurados nos calendários de agora em diante. O mais grave são as tecnologias de classificação que todo muro requer, com os estereótipos que ele cria, as agressões posteriores que ele dissemina e os boicotes que alastra nos cotidianos.
O mais grave não é que o muro divida, mas que ele esconda, proteja, apadrinhe. Que ele desvie o olhar. Que ele encubra o outro lado. O que é grave no muro são as falcatruas que o ergueram e que ele agora autoriza. A desfaçatez da política da sabotagem, a agressividade das práticas de vingança e todas as suas pautas-bomba, a corrupção endêmica, o aviltamento, a canalhice, os interesses escusos, os patrocínios privados, os abusos do poder, os benefícios familiares, as fraudes de final de noite e de domingos à tarde. O mais grave é que o muro tenha sido erguido para manter essas práticas: concentrar os pecados é a melhor estratégia para encobrir vícios que são de todos.
Elisabeth Vallet, da Universidade do Quebeque, teve especial interesse pelos muros. Segundo suas contas, quando caiu o de Berlim, existiam 16 outros muros ao redor do mundo. No ano passado ela registrou um dado preocupante: o número tinha aumentado para 65 muros prontos ou em construção. Cada um com seu motivo. Muros do apartheid, barreiras contra a imigração ilegal, diques de areia contra rebeliões, cercas de segurança contra o perigo do estranho que mora ao lado. Vamos ter de contar para a professora Vallet sobre o muro de Brasília que, como os outros, tem seus rituais de ódio. Será preciso dizer a ela, contudo, que estes gomos de metal simbolizam uma sociedade que está geneticamente estruturada em torno de divisões, desde as Sesmarias, as Capitanias Hereditárias, a lei de terras e todos os latifúndios e coronelismos de sempre, no campo e na cidade. Teremos de falar a ela das estruturas compridas que cercam os condomínios da nossa classe média-alta – que Bauman chamou de “guetos voluntários” - e dos paredões que nos protegem de nossos vizinhos. Teremos de explicar as fronteiras que nos dividem e contra as quais alguns de nós precisam lutar durante toda a vida. Dizer a ela, por exemplo, que desde que nascemos estamos divididos entre quem tem seguro de saúde ou não, quem estuda em escola particular ou não, quem mora em casa própria ou não, quem pode estudar em universidade pública ou não, quem pode comer ou não, quem pode viver ou não, quem vai para o céu ou não...
O muro de Brasília estampa a divisão de um povo historicamente cindido. E ele mal disfarça, indecentemente, as políticas que foram, ao longo do tempo, responsáveis por essa divisão. O muro de Brasília não demarca fronteiras para o mercado, não limita o vai e vem dos dinheiros (quase sempre sujos e ensanguentados), não impõe regras para a dinâmica apropriadora da lógica consumista e suas inúmeras formas de catástrofe. O muro de Brasília não detém o saque cotidiano das nossas riquezas naturais. Não restitui os direitos das vítimas do muro rompido de Mariana. Não derruba as cercas da terra e do poder. O muro de Brasília só cria uma ilusão ótica capaz de garantir a continuidade da separação social, para que tudo, afinal, volte a ser como sempre foi. O que, parece, é o desejo de muita gente...
Porque acastela a corrupção que persiste acima da divisória e porque entrega o poder a quem quer manter as divisões, o muro de Brasília, infelizmente, só protege os que já estão protegidos. Ele é uma extensão dos muros da desigualdade social que fazem do nosso, um país de castas. A maioria da população – talvez eu e você – está do lado de cá, como sempre, desamparada. Sinto informar, mas enquanto a doença do muro persistir, não haverá segurança em nenhum dos lados.



domingo, 10 de abril de 2016





Copérnico revolucionou o mundo científico quando afirmou que o sol – e não a terra – era o centro do universo. Aprendemos desde cedo a louvá-lo por isso. No século XVIII o filósofo Immanuel Kant imitou a proeza no campo filosófico-epistemológico, ao afirmar que não era o sujeito – como até então se acreditava – que deveria se ajustar aos objetos do mundo exterior, mas estes deveriam ser regulados pelas capacidades cognitivas da subjetividade. Em outras palavras, Kant colocou o sujeito (ou a razão) no centro do processo de conhecimento. Para ele, todo conhecimento sobre o mundo deveria derivar de um uso seguro da razão. A pretensão revolucionária da filosofia kantiana não demorou a ser criticada, principalmente pela inflação da racionalidade que ela provocou. Já de início, Schopenhauer e Nietzsche foram seus primeiros arguidores. Isso não atrapalhou a sua posteridade, contudo.
A educação moderna bebeu da fonte kantiana e assumiu para si a tarefa de desenvolver as capacidades cognitivas e morais do homem a fim de torná-lo de fato “humano”. Educar passou a ser compreendido como a tarefa de preparar o caráter por meio da racionalidade e, com isso, elevar gradativamente a humanidade à perfeição de si mesma. Estamos no âmbito da chamada pedagogia iluminista, que não só acentuou a confiança na educação como meio de aprimoramento do ser humano, mas também celebrou a racionalidade como mote central desse processo. “Reino dos fins”, o “ser humano é a única criatura que precisa ser educada”, como escreveu Kant no seu Sobre a pedagogia, acrescentando que “a espécie humana é obrigada a extrair de si mesma, pouco a pouco, com suas próprias forças, todas as qualidades naturais, que pertencem à humanidade”. A educação é a ferramenta dessa tarefa tão relevante e a ela caberia desenvolver procedimentos qualificados e eficazes para conduzir cada indivíduo à sua perfeição, ou seja, a si mesmo.
Educar passou a ser sinônimo de preparar o caráter, deter a animalidade pela disciplina, limitar a liberdade à obediência da lei em vista da sociabilidade. Como fazê-lo, contudo? A receita se desenvolveu aos poucos. Primeiro, por condições de época, era preciso transferir a tarefa para a escola, a fim de liberar a família para suas funções primordiais de nutrição e cuidado econômico. Depois, na escola, fortalecer uma autoridade central, que fosse ao mesmo tempo um exemplo e um testemunho capaz de transmitir, por atos e palavras, o ideal da humanidade. A seguir, evitar a promiscuidade das idades e separar por classes, fases, disciplinas. Separar os saberes de forma que a razão pudesse ser preenchida com conteúdos organizados – eles mesmos, racionalizados, portanto. Criou-se a lógica da transferência de conteúdos da parte de quem já os tem sistematizados para aqueles que ainda precisam fazê-lo; de quem já sabe e já obteve a desejada perfeição, para quem ainda permanece em estado de incompletude; de quem alcançou a humanidade para quem ainda está constringido pelos instintos. De quem se diz professor – o que sabe – para quem é reles aluno – o que precisa ser tutelado.
Esse modelo persiste nos nossos dias na maioria das instituições escolares, do ensino primário à universidade. Nosso modelo ainda é o de um professor que deve dar aula para um aluno que deve aprender. O primeiro está no centro, radicado em sua sabedoria plena. Para ele montou-se um tablado e outros mecanismos de poder. O segundo está disposto, ordenadamente, em fila, à sua frente, geralmente às dezenas. O professor, porque é pago para dar aula, entra em sala, transfere o conteúdo através de discursos, lousa cheia e, por vezes, alguma enfadonha tecnologia de projeção que ele mal sabe como funciona. Cumpre as regras, obedece aos horários, preenche as planilhas decretadas. O aluno – com felizes exceções - segue sendo aluno. Quando muito, ouve, anota, devolve no dia da prova o que, milagrosamente, reteve na memória. Não esconde, contudo, a mesma fadiga que se espelha no rosto cabisbaixo e no discurso reclamatório de seus mestres. Cresce o desinteresse e a indisciplina. As instituições de ensino não suportam o peso de si mesmas. Um ambiente de hospital entufa os corredores.
A superação dessa problemática passa por uma revolução copernicana no âmbito da educação – estou pensando especialmente na educação superior - cujos agentes somos eu e você, colegas professores e professoras. Ela teria, no meu ponto de vista, três pilares: [1] retirar o professor do centro do processo de ensino e de aprendizagem e colocar o estudante; [2] retirar o enfoque no conteúdo e transferi-lo para o desenvolvimento de competências que ultrapassem a mera memorização de temas desencarnados; [3] retirar o conhecimento de dentro da sala de aula e expandi-lo para todas as instâncias da vida das instituições e da sociedade. Os especialistas têm chamado isso de abordagens ativas e oferecido muitas metodologias bastante interessantes para as quais precisamos estar atentos.
Esses três eixos revelam três estratégias da revolução copernicana que precisamos começar a desenvolver nas nossas experiências educativas: [1] centrar na relação; [2] concentrar no problema; [3] focalizar no processo.
[1] Estudante no centro. Educação é relação entre pessoas que, no mundo contemporâneo, estão cada vez mais em igualdade de condições e de acesso ao conhecimento; não é mais possível pensar uma escola que modele uma pedra bruta. Na minha experiência acadêmica tenho encontrado cada vez mais pessoas que chegam para segunda ou terceira graduação, para quarta ou quinta especialização, que já fizeram outros mestrados e doutorados, mas que, principalmente, têm muitas experiências que poderiam enriquecer o aprendizado dos seus colegas. Mas o que faço eu? Nada: monopolizo a fala.
[2] Competência no centro. Educação é capacidade de enfrentar e, às vezes, resolver problemas, não apenas deter conteúdo. É preciso saber, mas é também urgente saber fazer, pensar sobre o que faz, avaliar eticamente os impactos da ação. É preciso saber agir quando o manual não tem mais respostas. Quando o problema real não está no manual. Por isso, mais do que conteúdo, a educação deve ajudar o estudante a aprender a aprender, ou seja, a saber agir em situações concretas. Isso não se aprende apenas abstratamente, em sala de aula.
[3] Vida no centro. Por isso, devemos focalizar no processo e não no estado, ou seja, precisamos entender que a educação não é um momento e não ocorre em um lugar e muito menos de uma vez por todas. Se o homem é o ser que precisa ser educado, é porque ele nunca está pronto. Mesmo depois da prova, no semestre que vem, quando receber o diploma, ser estudante é estar em constante processo de aprendizado. O que fazemos nós, no geral? Burocratizamos e encaixotamos o conhecimento e, com isso, educação vira sepultamento e aula, um rito fúnebre.
O conhecimento precisa sangue nas veias. Do contrário, seguiremos doentes de egipcismo, aquela enfermidade, diagnosticada por Nietzsche - que se dizia, não esqueçam - médico da cultura. Sem essa revolução, seremos meros adoradores de múmias conceituais, plantados nos sarcófagos que chamamos de sala de aula, onde repetimos um requiem na forma de preces mornas e prescrições morais insípidas e falecidas, cuja ineficácia se atesta na indisciplina reiterada, na falta de interesse e de motivação, mas, sobretudo, na crescente catástrofe social dos valores, patrocinada pela desinformação e pela ignorância que fazem suas vítimas à luz do dia e sufocam a autonomia, o senso-crítico, a dedicação, a cooperação e a tão carcomida e urgente honestidade.
Precisamos que uma pomba atravesse o céu desse dilúvio...