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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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terça-feira, 5 de abril de 2016




Tudo bem: a gente anda nervoso com a política. Mas convenhamos: a cena da doutora Janaína Paschoal, nessa semana, em ato pelo impeachment, transformou a solenidade do direito em uma peça inflacionada de dramática impetuosidade. Não à toa, sua imagem viralizou nas redes sociais como faísca em pólvora seca. O léxico religioso de sua fala é óbvio, seja pelo conteúdo (dualista), seja pelos gestos (exagerados), seja simbologia (resumida na imagem da cobra).
O dualismo é o modo de abreviar as coisas unicamente a dois pontos de vista: o certo e o errado, o puro e impuro, o sagrado e o profano, o bem e o mal. Trata-se de uma visão de mundo muito sedutora e contagiante: todos queremos esboçar algum significado único, agregador, que nos dê familiaridade e segurança diante do que é múltiplo, inóspito e até mesmo caótico. Por isso, o dualismo é, em geral, o modo de pensamento binário de quem tem pouca vontade cognitiva, de quem se acomoda no raso e tem forte propensão à preguiça e ao desinteresse. Gente que, no geral, não se dá conta de que o mundo não é, de jeito nenhum, tão simples assim. Ao contrário, que ele é vário e que, finalmente, “a beleza que o mundo tem é a quantidade de mundos que o mundo contém”, como escreveu Galeano. Por isso, o dualismo é um crime contra a beleza do mundo. É uma forma empobrecida e simplista que, diante de um microfone, pode ser tão convincente quanto perigosa.
O perigo do dualismo é que ele condena com a mesma rapidez e pobreza que classifica e estereotipa os comportamentos. Para se salvar do que é complexo, o dualista é rápido no gatilho: julga a partir do lado que ele considera o certo (que sempre é o seu, claro) e combate quem, por algum detalhe mínimo, aparente estar de outro lado. Destaquei o verbo aparentar (parente de parecer) para chamar atenção sobre o fato de que o dualismo dá sempre preferência ao âmbito da aparência em contraposição ao da essência, porque tem gosto por superfícies. Há tempos o dualismo faz mal para o diálogo. Na política, então, ele é um desastre: a supervalorização de um lado em detrimento do outro leva à negação de outras verdades geralmente excluídas do argumento. Ali, aos berros sobre o microfone, a doutora Janaína Paschoal julgou e condenou, dando azo ao discurso contagiante do ódio que anda corroendo a nossa vida política. 
Nos gritos e nos gestos alargados da doutora, o discurso dualista contrapôs os bons aos maus. Do lado dos primeiros, estaria Deus; do lado dos segundos, o Diabo. De um lado o céu com pombos e do outro, o inferno, com víboras; com os pombos, a pureza e a luz, com as serpentes, a escuridão e o pecado (que agora se chama, corretamente, corrupção mas que, claro, só está de um lado, como não?). Esses pares opostos fazem parte de um léxico antigo, que remonta aos movimentos gnósticos que estiveram na base do cristianismo primitivo. Desde então são recorrentes nos discursos religiosos e naqueles que, secularizados, fundamentaram muitas ideologias, cujas tragédias não devemos esquecer. O dualismo tem um horizonte religioso – no mal sentido da palavra. Não é à toa que, logo que as imagens do ato do Largo São Francisco viralizaram na internet, muitos associaram Janaína à menina pastora (hoje professora de Física), Ana Carolina Dias, em cujo discurso o dualismo pode até ser compreensível, finalmente, ele é fruto de um pensamento infantil, uma maneira acriançada de ver a realidade. No mundo da pequena pastora, até entendo que Davi continue lutando contra Golias, entre pedras e aleluias. No caso da doutora Janaína, para mim, o destempero ultrapassou o sinal vermelho.
É aí que começa o segundo elemento do discurso da doutora Janaína que me chamou atenção: a crença na redenção. A pequena pastora do Ministério Palavra de Amor e Vida da Assembleia de Deus do Rio de Janeiro, fala em libertação do mal e assume a moralização como remédio para a vitória da Luz. A grande doutora do Largo São Francisco também acredita na salvação. Ela julga que tirar um partido ou uma presidente terá como resultado óbvio a conquista da paz perpétua entre os homens e a instalação de um mundo de justiça nas terras brasileiras. Tudo bem: talvez ela não acredite nisso, mas é o que se deduz do seu discurso. Não condeno suas crenças. Até admiro. E respeito bastante seu curriculum lattes. O que interessa é o seu discurso da quarta noite de abril desse nosso conturbado 2016. O que objurgo nele é a ingenuidade que torna a oradora cega para a sujeira que vem depois, para a imundície que está também no seu próprio lado, para as mãos sujas de quem se faz defensor da ordem e dos bons costumes enquanto pactua privadamente com os mesmos que acusa sob os holofotes, para fazer cena. O que censuro é a tiflose do senso crítico, que nos obriga a ver mais longe. A atrofia das perspectivas. O que critico é que a redenção seja o benefício dos bons contra os maus, como se a corrupção não fosse uma endemia histórica, cotidiana e apartidária que nos atinge a todos, em maior ou menor escala. E que deve ser uma luta de todos - e não de uns contra os outros.
Por fim, a simbologia da cobra. A doutora recuperou, no seu discurso, a metáfora usada pelo ex-presidente - aquele do qual não se pode dizer o nome - e que fazia parte de um contexto no qual a emoção também estava à flor da pele e, no meu modesto ponto de vista, também foi uma referência infeliz. Janaína foi além, contudo: revestiu a imagem com seu manto ideológico-religioso. Explico-me: em muitas mitologias ao redor do mundo e ao longo dos tempos, a serpente foi símbolo do elemento cósmico que lembra o solo, a terra, o corpo, o sangue, o sêmen e todas as outras realidades que a nossa moral, no geral, nos ensinou a odiar. Ela é a memória da culpa que nos expulsou do paraíso e o sentimento rastejante de nossa condição mortal, a maldição da escuridão, o perigo ardiloso, a praga, a perversidade endiabrada, o astuto manhoso e infernal da víbora que merece ser morta sem piedade. Aliás, matar a víbora é uma espécie de imperativo moral dos senhores da Luz. O problema do discurso é que fazendo-se embaixadora dos bons costumes, Janaína cometeu a indelicadeza de atentar contra a modéstia e encarnar o bem sem a solenidade que a tarefa merecia. Seu ritual dramático de gestos dilatados, de protesto berrado, feições afetadas e espetaculosas (que inclui o balançar alucinado de uma bandeira, passos de uma coreografia estreita, mas raivosa e o gingado da cabeleira à moda de Joelma, além de alguns socos no balcão, claro), a faz caçadora dessas perversas bestas que nos desviam do paraíso. Nada contra o seu "teatro". Achei até divertido. A simbologia da cobra foi um recurso muito útil porque ele deu à sua peça de oratória um tom fervoroso e de forte apelo emocional. A partir de agora, todos devem acreditar que a doutora Janaína é o nosso São Jorge em luta contra o dragão, para libertar as nossas mentes e almas (palavras dela!) da opressão da república da cobra.
Menos, doutora Janaína, menos! Até porque, parece que São Jorge, assim, com espada e dragão, foi mesmo só uma lenda. E ele mora na lua.





domingo, 3 de abril de 2016





O meu encontro com o quadro do pintor britânico David Hockney, em uma das paredes do Tate Britain, em Londres, foi uma espécie de sequestro. A obra de 1977, cujo título é My Parents (Meus pais), é tão carregada de sentimento que poucos passam incólume diante dela. As cores fortes evocam o contexto emotivo que molda os comportamentos humanos na intimidade da vida doméstica. Os detalhes do quadro nos levam para a nossa própria vida familiar, para os amores que nos rondam e os seus destinos de solidão e saudade. Fiquei especialmente comovido com a imagem da mãe. Seus cabelos grisalhos, suas mãos postas sobre o vestido azul, o pé pendido na inocência de muitos caminhos, o olhar evocativo e direto. A lágrima que a imagem concebeu não foi pela lembrança de minha mãe, mas de minha avó, que nesse abril, 21, faria aniversário.




Ela foi minha primeira professora de botânica. As flores eram seu jeito de adentrar mundos preservados, onde a mão humana não tinha espalhado mofos. Minha avó tinha um quê de andarilha. Nas caminhadas, sempre voltava com alguma muda de planta, qual troféu de maratona, que era docemente assentada em alguma eira lisa de nosso estreito jardim. Eu gostava de acompanhá-la na tarefa porque ali, entre vegetais e sementes, ela me ensinava sempre alguma palavra do seu dialeto alemão. E eu ria, cheio de curiosidades. As palavras tinham terra fértil no meu coração. E como as flores, minha avó tinha um gosto especial por pregos e parafusos, recolhidos ao relento, salvos do extravio dos quintais. Lembro de uma coleção inteira deles. Nas suas mãos, esses objetos de indubitável utilidade, adquiriam preciosidade. Sua economia de destroços guardava as normas da escassez, talvez testemunhada por antigos familiares, sobreviventes de guerras, de longas viagens por mares desconhecidos, quem sabe até da selvageria de um campo de concentração. Poucos saberão. Eu, de minha parte, adivinho os gestos. Aos poucos fui entendendo que seu silêncio tinha a mesma procedência daquele esforço para o pouco, da austeridade forçada e da rigidez dos costumes, entre a resignação de dores antigas e certo vazio de projetos futuros. Minha vó cultivava uma disciplina ortodoxa contra o esbanjamento e o desperdício. Seu único luxo era uma acanhada garrafa de cerveja preta, tomada aos domingos, à hora meia, sobre a mesa das refeições. 
Ela tinha um capricho imenso pelos cabelos – outro sinal de seus rigores. Pudica, nunca os tingira. Mantinha-os, contudo, sempre encaracolados, à moda dos permanentes. Levava-os estoicamente grisalhos, assentados sob um diadema de prata, desde o qual pendiam os cachos até os ombros. Anos a fio, não me lembro de ter sido diferente. Seus vestidos, sempre retos e despojados, feitos sob medida, não chegavam a ser tristes. Ao contrário, havia até muitos floridos, separados para o uso, por ordem de importância e de novidade. Sandálias baixas, meias longas cor da pele, nenhuma maquiagem. Um relógio de corda no pulso esquerdo. Uma mala antiga de papelão. Um quadro da santa ceia com o vidro trincado. A dentadura. O par de anosos óculos e um rosário pendurado na dianteira da cama. Minha vó sempre viveu de pouco. A infância sofrida nos serviços da roça, uma rotina de trabalho e de violência doméstica depois de um casamento prematuro - e, até onde presumo, infeliz. No dia da separação saiu com os dez filhos em cima de uma carroça, deixando quase tudo para trás. Coberta com o véu da vergonha pela moral que estigmatizava a mulher separada, ela ainda levava entre as mãos calejadas o último dos bebês gemendo em desalento. Distribuiu os filhos como pôde nas casas de quem quisesse mão de obra barata, abençoada com o arco da benevolência. Os mais velhos, assim “empregados”, enviavam o parco provento para acudir a sustentação dos menores. Aqui e ali, entre ajudas alheias e alguma sorte do destino, todos sobreviveram. Menos o meu avô que, atirado à embriaguez, deitou a caminho de casa assassinado por gente que queria roubar-lhe o dinheiro da venda de alguns cavalos. À cena do crime, contudo, dinheiro não havia mais, pelo que consta, entregue inteiro no último bar da estrada, em pagamento de antigas dívidas. Sem dinheiro, o corpo de meu avô, atirado sobre os trilhos daquele lugar ermo e indizível do interior do mundo, pesado de suas culpas, permanece insepulto, carente da justiça dos homens.
Sem marido, ela viveu de seu próprio esforço e de alguns favores em terras emprestadas. Quando eu nasci, ela morava em casa dos filhos, destituída de domicílio próprio, sofrendo de novo a tragédia da necessidade. Foi feliz, certamente, mas vez ou outra uma palavra azeda, um desentendimento por causa dos pregos, a escova de cabelo deixada em lugar ilícito, o tijolo do jardim, o ramo quebrado, o jeito de educar os netos... qualquer motivo trazia cizânias e alguma querela súbita. Ela não relutava em reivindicar nova mudança. Quando chegou a vez de morar lá em casa, minha mãe fez questão de instalar no quintal uma casa que fosse dela. E essa decisão ofereceu para os meus olhos uma das imagens mais marcantes da minha infância: uma pequena casa de madeira, em rosa desbotado, arrastada inteira estrada afora sobre três troncos de eucalipto, entre os grunhidos de toda a meninada do bairro. O modo precário do transporte não impediu que a casa, logo, se tornasse um lar, com santos nas paredes e flores nas janelas. E muitas visitas. No colchão de molas de um dos quartos, meus irmãos e eu revezávamos a companhia noturna até que um dia, o destino levou meus pais para o norte e minha vó voltou à sua vida de préstimos e carinhos generosos, ainda que insuficientes. 
Três filhos, sete filhas, cinquenta e quatro netos e duas centenas de bisnetos depois, o corpo de minha vó descansa na mesma sepultura onde, anos antes, meu avô havia sido enterrado, no velho cemitério da comunidade rural de Cândido Freire. Separados na vida, foram reunidos na morte - mais uma vez pela necessidade. Seu silêncio definitivo, contudo, não apagou da memória os testemunhos e as outras formas de saudade. Com o tempo, aprendi que a sua história não tinha só um interesse privado, mas traduzia a história de muitos de nossos compatriotas. A batalha de muitas mulheres na criação de seus filhos. A luta de muitos migrantes pela sobrevivência. A verdade de quem fez da pobreza e do sacrifício, o horizonte da própria dignidade.
Seu nome consta em muitas cartas que ela me enviou e que guardo com o carinho adequado. Ele figura também no meu registro de nascimento: Amália Celma Schüh. Amália agora batiza uma de minhas sobrinhas, azeitada de novos destinos, enquanto a gente desafia os horizontes com as bandeiras hasteadas da saudade, contemplando a intimidade da sala iluminada pelas cores vivas de David Hockney.