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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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sexta-feira, 1 de abril de 2016




A democracia é, e será sempre, uma tarefa inconclusa. Sua característica inerente é o debate e a contradição, inclusive aquela que se exibe despudorada em tom antidemocrático. Democracia exige paciência, tolerância e responsabilidade porque seu estado normal é a pendência e a querela de interesses, próprios das disputas políticas nem sempre consensuais. A democracia é o terreno da instabilidade que muitos teóricos chamam de agonista (do grego agon: disputa). Ela é uma guerra boa, cujo nome, Hesíodo, no seu O trabalho e os dias, reconheceu como “boa Éris”: ela se efetiva como regime de discordância, em torno do qual erguem-se os cintos contentores que protegem a sociedade contra qualquer outra opção que não seja, afinal, ela mesma, a democracia. É simples: só dentro da democracia é possível colocar a própria democracia em xeque para ver, finalmente, que contra ela, não há outra alternativa.

O terreno é instável e a areia movediça. Talvez por isso, muitos se incomodem. O estado de incompletude gera desconforto. A gente tende a achar que a incerteza é o defeito da democracia, sua falha. Depois disso, fica fácil odiá-la. E se odeia de fato, com faixas na mão e tudo. Odeia-se a sua iminente derrocada, o fato de ela ser sempre uma promessa e de ter como sua, a contradição e a antinomia. O que se odeia na democracia é o constante confronto de ideias, a provisoriedade dos acordos, a versatilidade dos posicionamentos. Mas sobretudo, o que odeia na democracia é que ela dê espaço para as reivindicações e, com isso, ameace antigos privilégios.

Norberto Bobbio destacou a importância da reivindicação para a garantia e a promoção dos direitos. O mesmo vale para a democracia: autofágica, ela crava as unhas na carne e se alimenta do próprio sangue. Quanto mais contraditada ela for, mais forte ela será. Mas é isso, paradoxalmente, que nós odiamos nela. A gente gosta de pisar terreno firme e de parar entre muros. Nós, os modernos, temos gosto quase erótico pela privacidade e a pseudo-segurança dos paredões divisórios de nossos condomínios e residências. Muros apartam a humanidade em duas: os que reivindicam e os que temem a perda dos privilégios (a disputa entre os perigosos e os proprietários remonta a tempos imemoriais...). Ao contrário, cada um no seu lugar significa serenidade e ausência de conflitos. É a receita do esquartejamento social que sustenta a paz sem voz que alguns chamam de volta. Kant, no famoso texto Resposta à pergunta “o que é esclarecimento”, culpou as gentes da preguiça e da covardia de sua própria servidão voluntária. É mais seguro ficar entre os muros. Finalmente, lembra o filósofo, “é cômodo ser menor”, mais fácil obedecer e deixar aos nossos “tutores” as responsabilidades que são nossas. É mais simples ser aquele “embrutecido gado doméstico” preservado em suas tranquilas pastagens - gente que “não ousa dar um passo fora do caminho para aprender a andar” com suas próprias pernas e que, por isso, intumesce os lábios com saudades da ditadura.


Vivemos no Brasil hoje um forte debate sobre a nossa jovem democracia. Ponderemos: está difícil conversar! Nosso país não cresceu, infelizmente, em exercício cidadão. Fizemos poucos esforços nos últimos anos para efetivar a democracia como participação efetiva na vida das nossas comunidades locais e a reduzimos aos processos eleitoreiros. Não é por acaso que é de uma eleição que tratemos, agora, quando muitos estão revoltados contra o atual estado das coisas. Esses questionamentos, no geral, estão reduzidos à forma. Poucos se revoltam ou se manifestam contra os problemas de conteúdo de nossa democracia, que incluem a falta de políticas públicas capazes de minimizar as nossas enormes dívidas sociais. A gente quer mudar o governo. Não quer que o governo mude. Porque a gente só sabe de democracia como voto em dia de eleição. Essa democracia, sem conteúdo, é pobre e sendo pobre, não tem espaço de manobra e pode facilmente entrar em derrocada. Também não é à toa que, nas ruas de nossas cidades, entre uma faixa e outra, teimam em aparecer apelos à ditadura militar. Afinal, o que se odeia na democracia é que ela seja desordenada, um pouco desordeira até, um tanto caótica e incerta e que ela dê margem para tantas encenações. Não  interessa o fato de que ela, assim reduzida à ação eleitoral (hoje maculada pelo escárnio da corrupção nas campanhas políticas bilionárias), traduza projetos que não são nossos e plataformas políticas de grupos minoritários - da bíblia, do boi ou da bala – que crescem na mesma medida das nossas apatias. Isso não importa. Importa a ordem. Importam os muros.

O filósofo francês, Jacques Rancière lançou em 2005 o seu ensaio O ódio à democracia, no qual fez uma avaliação contundente desse chamado “regime de governo”. Rancière mostrou que as nossas democracias são geralmente falsas porque reduzidas – quando muito - a “Estados de direito oligárquicos” que têm como função central evitar os distúrbios para que os que foram eleitos governem em paz. Trata-se de um governo, no fundo, das minorias que odeiam a democracia de fato porque ela daria voz ao povo. Na orelha que escreveu para a versão brasileira do livro de Rancière, o filósofo Renato Janine Ribeiro deixou isso bem claro: a democracia não pode ser reduzida às instituições, à governabilidade ou aos partidos, porque ela “é algo que vem de baixo, desdenhado desde os gregos como o empenho insolente do povo em invadir o espaço que era de seus melhores, de seus superiores".


Com Rancière aprendemos que o que se odeia na democracia é o povo ocupando o espaço que não é seu. O que se odeia na democracia, no fundo, é o povo. As exigências do povo, sua luta por comida, terra, casa, educação de qualidade, igualdade de oportunidades, respeito às religiões e às diferentes orientações sexuais... O que se odeia na democracia é o bolsa família, a política de cotas, é a reforma agrária, é o programa de moradia, é o pobre no aeroporto, é a “Jéssica” na universidade. Na ditadura do mérito, o que se odeia na democracia é a sua memória histórica, que facilita entradas além-muro: entre outras vergonhas, ela lembra que fomos o último país do mundo a fazer a abolição da escravatura e reconhece a dívida social com os negros; ela lembra que temos a segunda pior concentração fundiária do mundo e promove políticas de acesso à terra; ela lembra que somos um dos países mais desiguais do mundo e provoca ações contra essa triste realidade e seus macabros algoritmos. O que se odeia na democracia é que ela incentive os “perigosos” e os “indesejados” a ocuparem (há quem use o verbo “invadir” nesses casos!) os espaços reservados nos "guetos voluntários" onde estão, felizes, os que têm onde estar.  O que se odeia na democracia é que ela não esteja sempre a nosso favor. O que se odeia na democracia, é que ela nos faz perder privilégios. Travestida de ódio, a democracia se reduz à vontade de reprimir esses “insultos”. Só essa é a democracia boa. A do silêncio – ainda que seja aquele dos canhões, das cadeias, dos desaparecimentos, das torturas e seus porões letais que nós já provamos há pouco – e foi muito ruim. A democracia também lembra bem disso!





segunda-feira, 28 de março de 2016


“Tá chovendo aí?” Quando ela liga, para saber como a gente está, uma das primeiras perguntas é sempre essa. Virou até gracejo entre nós. No meio da conversa, entre uma notícia e outra, basta alguém lançar a interrogação e a gente se derrete em gargalhadas.

Graças à parte, preciso reconhecer: minha tia pergunta, porque sabe da importância da chuva para minha família. Ela vive no Rio Grande do Sul, meus pais migrantes, no Tocantins. As chuvas, no Norte, têm função decisiva na vida das pessoas. Por lá, seis meses de estiagem alimentam saudades de dilúvios. Pudera: sob um sol abrasivo, os dias são corrosíveis ardumes, metade deles sacudidos por um vento aceso e desconfiado que arremessa para o alto a poeira rubente das estradas e, aos poucos, abate a esperança das gentes contra horizontes borrados de calor e luz. O ar quente enxuga a tez e repele as nuvens. Tudo se aninha próximo ao desalento, cheio de preguiceiras.

No meio da secura todos os seres ficam minguados. Até os grandes rios se encolhem, desprotegidos. Eles, contudo, grandes que são, parecem entender o deleite dos ribeirinhos e tratam de secar as gorduras da correnteza para exibir suas areias douradas em praias paradisíacas onde tudo é terso e limpo. Rios, no meio da seca, acalmam olhares como oásis de desertos. No Norte, em julho, quando o estio está no auge, a gente gosta de exaltar a resistência dos dois irmãos de seiva que se derretem nas paisagens de meio Brasil. Araguaia e Tocantins, correm desnudos e paralelos até se encontrarem na unidade das alegrias da terra dos Apinajés que o mapa celebra como Bico do Papagaio.  

Sei que os rios inspiram chuvas. Passam-se os meses e, em meio à seca, quando menos se espera, as gotas despencam. Sua novidade é evocada pela interrogação da minha tia e a dúvida ontológica de quem sabe que em cada pingo, goteja uma semente. E que, do nada, o cerrado se enfeita em todas as direções. E que as cigarras cantam iludidas nos pequizeiros em flor, deslumbradas pelo evento magnífico das precipitações. Minha tia sabe que naquelas paisagens rasteiras, a primeira das chuvas é noticiada com a pompa dos grandes acontecimentos. Ela sabe também que no meio da chuvarada o pequi fica ensopado de amarelo e que seus troncos tortuosos, sua casca áspera e suas folhas pilosas exprimem o sexo dos vegetais, rejuvenescidos pelo aguaceiro. Um pouco mais, e as araras reiniciam seus voos entre os magros buritis que sobrevivem nas veredas. Insetos cavoucam com a voracidade de antigas criaturas. E toda uma estética de brotações, sementes e folhas minúsculas se espalha sobre as planícies. Um alfabeto inteiro de plantas começa a brotar ao redor das casas. O poema ganha assunto, entre barros e mormaços. Meu pai se alegra com o milho que viça entre as mandiocas e outros bulbos que acordam, sobreviventes. As vacas mugem como nunca e o leite é a fartura da criançada.

Ao perguntar pela chuva, minha tia idealiza a simplicidade dessas coisas essenciais que eu comecei a ver nos trabalhos de Ronaldo Fraga. Um dos filmes que ele me enviou mostrava sua experiência com mulheres da Amazônia na confecção das chamadas biojóias. Foi lindo ver aquelas sementes costuradas com o enlevo das grandes chuvadas amazônicas, rejuntadas com os sonhos e os risos daquelas mulheres cujos olhos viram a floresta celebrar a fertilidade das sagradas molhanças e cujas mãos colheram seus frutos. Com Ronaldo, na passarela, a semente recuperou a originalidade de um pingo d’água, coagulado no colorido que faz da Amazônia a nossa floresta e da moda – esse objeto de conjunção consumista - um terreno fértil para a defesa de outras causas. A das sementes, entre elas. Açaí, jupati, morototó e dedo de índia foram pendurados na esbelta beleza das manequins. Na moda de Fraga, gente é como árvore. Na passarela, balançou a candura agreste dos grãos que crescem nos sertões abertos do Brasil, entre fios, rendas, escamas, folhas, nódulos, caramujos, palhas, sorrisos de gente, rumores do vento e grunhidos de pássaros para o leste. Ronaldo colocou na moda, a madrugada longa e chuvosa do meu pai e os destinos de gente como ele, afiançados pelo futuro que toda semente armazena.


Ronaldo – como minha tia - sabe que tem chuva dentro do grão. E que dentro do grão tem esperança para o meu pai e para todo o povo brasileiro – enquanto chover na terra, contra todos os desvios do clima e todas as catástrofes da irresponsabilidade humana. No Norte agora, é tempo de chuva! Esse é o melhor jeito pra gente celebrar o Brasil: com os brasileiros; com as brasileiras.