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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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quinta-feira, 24 de março de 2016







Eu sei, já está parecendo normal. Quando lemos alguma coisa sobre a atual conjuntura política, caso isso não seja do nosso agrado, parece obrigatório que a gente reaja com algum tipo de obscenidade. Não nos passa pela cabeça ler com respeito o que o outro está dizendo e, quem sabe, colocar em xeque as nossas próprias certezas. O calor da hora nos impede de digerir. Dispépticos, saímos para o ataque esquecendo a receita do velho Sócrates, o mais sábio de todos, que às vésperas da cicuta, declarou que nada sabia, dando azo ao melhor exercício de sabedoria.

Pois bem. Declarar sua posição política virou delinquência e, como tal, deve ser punida com impropérios descontrolados e ofensivas de todo tipo. Uma amiga professora foi agredida porque não buzinou a favor dos manifestantes. Outro quase apanhou no banco porque lembrou que a pena de morte não está instalada no Brasil - nem contra os políticos. Outra quase foi atropelada por um carro que participava de uma manifestação a favor da justiça (sim: ela estava de vermelho). A professora de história de um colégio em Curitiba foi covardemente achincalhada por alguns pais, pretensamente defensores da ordem e do progresso que querem ensinar a seus filhos, em tempos em que algumas palavras voltaram a ser perseguidas como criminosas. Frutos podres de uma sociedade dividida que decreta sua própria falência em atos que beiram a barbárie. Recuamos aos piores dias...

As redes sociais estão impregnadas dessas imundícies. Todo mundo tem a sua história. Há gente quase profissional em postar violências contra quem não estiver falando o que ele quer ouvir. As mensagens chegam de perto e de longe. Sem nenhum pudor. 

A moça se deu ao luxo de me xingar de otário. Era tarde da noite. Poderia estar dormindo, rezando, fazendo jejum – afinal é semana santa. Não. Decidiu me reprochar, sem sequer se dar ao trabalho de entender o sentido de minha postagem. Confundiu tudo em nome da ignorância e dirigiu o seu ódio político contra mim.

Lembrei de uma história a respeito de Nietzsche (ok... talvez eu não devesse evocar esse nome a essas alturas, mas não me contenho). Ele teria escrito em uma de suas obras finais, que Jesus era um idiota. Sua irmã Elizabeth, antissemita militante, não teve dúvidas de remover a palavra da edição sob sua responsabilidade, inaugurando uma longa trajetória de livros mutilados por gente que não entendeu o sentido da expressão. A palavra de Nietzsche associava Jesus ao príncipe Míchkin, do romance O idiota, de Dostoiévski e denotava muito mais do que a palavra corrente sugere. Tratava-se, no fim, de uma análise psico-fisiológica do Redentor com destaque para certa ingenuidade – e não de um xingamento.

Pois bem. Como várias outras palavras que usamos para destratar alguém, otário – assim como idiota – guarda curiosidades. Gabriel Perissé, no seu Palavras e origens, informa que otário é uma palavra importada da Argentina nos anos 1920, difundida inclusive com a ajuda do tango Se acabaron los otarios, letra de Caruso e voz de Gardel (quem resiste?). Na charmosa Buenos Aires dessa época, otário era uma expressão que definia um homem ingênuo, um muchacho ainda detentor das “graças juvenis”. Perissé nos lembra ainda que a gíria portenha tem raiz científica: designa os leões marinhos da família Otariidae (do grego otarion, “orelhinha”) que, pesados e lentos, eram sempre presa fácil dos predadores. No Brasil, claro, a ingenuidade virou tolice e otário virou palavrão e insulto. Na terra da malandragem, um otário é sempre um lorpa iludido. Na boca da moça – se eu entendi bem - otário era cretino, tanso, sonso, tantã, paspalho e, em consequência, culpado, criminoso, ladrão. Ela - certamente leitora daquela boa revista semanal e assídua telespectadora das nossas verdades globais - ao contrário de mim, era esperta, perspicaz, inteligente.

Ali mesmo, no meio da madrugada, o insulto me fez bem. Ele me ajudou a olhar ao redor. Ver com que eu estava. Confesso sem modéstia: vi artistas, intelectuais e religiosos que eu cresci admirando! Pensei comigo: todos otários? Estariam eles todos enganados e eu junto? Possivelmente. Há boas chances. Pode ser até certo. Mas isso não dá direito a ela de me agredir. 

Reivindico meu direito à boa ingenuidade - aquela dos muchachos portenhos. Quero ver as coisas sempre sob diferentes pontos de vista e respeitar as posições alheias sem que eu precise praguejá-las. Não tenho nada contra quem se acha esperto e tem certeza de suas convicções. Desde que não impeça as minhas. No fim, a palavra me fez bem. Vim sinceramente agradecer. Aliás, já viram como são lindos os leões-marinhos da família dos otários?





domingo, 20 de março de 2016



A vida sexual dos filósofos é um assunto no mínimo curioso. Muita gente gosta de entrar pela porta dos fundos da filosofia e ver o que seres pretensamente tão racionais fazem nas horas vagas. René Descartes, por exemplo, nos oferece um precioso material sobre o assunto. Consta que, em 1649, durante sua viagem à Suécia, a convite da rainha Cristina, que queria aprender sobre o sexo e outras paixões, marinheiros teriam descoberto em sua cabine uma “Dame de Voyage”, como eram chamadas na época as bonecas sexuais. A “moça” chamava-se Francine, nome da filha mais jovem do filósofo, com quem ele teria declarado estar viajando, ainda que ninguém jamais tivesse posto os olhos na menina. A boneca, encontrada pelos marujos dentro de uma caixa depois de uma tempestade, teria sido fabricada pelo próprio filósofo em couro e metal, e se movimentava e “comportava” exatamente como humana, tal era a perfeição da arte. Francine era uma espécie de máquina, um autômato, um androide primitivo e precário. Não tardou, contudo, para que o capitão do barco debitasse à presença da boneca os maus agouros da tempestade e outros percalços, em um tempo em que a presença de mulheres em navios dava em urucubaca. Francine foi jogada ao mar. E com ela qualquer indício da veracidade da história. Fato é que Descartes viajou para a Suécia, onde morreu seis meses depois. Fato é que ele tinha uma filha chamada Francine, cuja morte precoce o teria afetado significativamente. Fato é que Descartes manteve, desde cedo, intenso interesse em brinquedos autômatos e no poder das máquinas. Em algumas cartas, encontram-se referências a homens que dançam, pombos voadores e cachorros perseguindo faisões construídos pelo próprio. Fato é, por último, que a anedota serve de metáfora para um interesse comum da cultura ocidental em torno desses brinquedos sexuais e as curiosidades do autor do Tratado das paixões adiantam muitos interesses sobre a vida artificial que mobilizam os homens contemporâneos. 
Amy Wolf descreve a função das Dames de Voyage no seu Anthology of Temptation como uma opção viável para homens que estavam privados de relações sexuais durante longas viagens ao redor dos mares do século XVIII, quando as sereias eram apenas fantasias e as prostitutas dos portos ainda estavam distantes demais. Marujos franceses e espanhóis teriam popularizado o brinquedo devido à sua fácil condução. Leves e maleáveis, ele ocupava pouco espaço no navio, em substituição ao peso, à má-sorte e às demandas trazidas por mulheres reais. Eram petrechos rudimentares, muitas vezes feitos com roupas velhas e couros catingosos, mas tinham a vantagem suplementar de servir a vários homens, o que acabava por tornar o objeto pouco higiênico e, não raras vezes, fonte de doenças venéreas.
Apesar de nenhum exemplar desses artefatos ter sobrevivido, muitas referências a eles ocupam as páginas que tratam da vida sexual da sociedade ocidental. Iwan Bloch descreveu, por exemplo, no seu A vida sexual de nosso tempo, de 1908, a importância das práticas fornicatórias com seres artificiais ou partes artificiais do corpo humano. Ele chama isso de "tecnologia pornográfica" e faz ver que a indústria do sexo tem raízes muito antigas e sua história acompanha os avanços técnicos, o desenvolvimento e a difusão de novos materiais. A descoberta da borracha, por exemplo, em 1745, deu elasticidade e durabilidade aos brinquedos, enquanto o látex em 1928, antes de preservativos, deu prazer de outras formas. Charles Goodyear possibilitou “bons anos” de deleite por ter descoberto, em 1839, uma forma de tornar a borracha resiliente, abrindo um caminho irrevogável para inúmeros tipos de brinquedos sexuais, entre as quais as populares bonecas infláveis do pós-guerra, que passaram a incluir vinil e couros artificiais em benefício de um realismo cada vez mais evidente. Foi na época da II Guerra, além disso, que a Alemanha teria desenvolvido o projeto da BildLilli, a precursora e inspiradora da Barbie e de suas inúmeras conotações sexuais. Hoje estamos diante dos robôs sexuais, cuja tecnologia embarcada promete revolucionar não só a indústria da pornografia como, sobretudo, o futuro da sexualidade humana. Para esses sexbots, a Francine de Descartes foi uma precursora. As gynoids de agora oferecem prazeres inimagináveis, ainda que, segundo sugere Michal Hauskeller no seu Sexo e a condição pós-humana, elas não passem de “aparelhos masturbatórios”. Seria o onanismo, nesse caso, o futuro do sexo pós-humano, digno das ficções de Huxley?
O que o uso desses brinquedos indica sobre nós mesmos? O filme Mulheres perfeitas, dirigido por Frank Oz, com roteiro de Paul Rudnick e estrelado por Nicole Kidman, Glen Close e outras lindas, parece nos dar uma dica que repercutiu, de outra forma, no Her, de Spike Jonze. Mulheres robôs parecem revelar muito sobre as conotações sexuais sublimadas, os medos, os tabus e os machismos que induzem à criação de “seres ideais” sexualmente gratificantes. A literatura está cheia de referências sobre o assunto, desde o paradigma do Pigmaleão (o de Ovídio, o de Shaw e o de outros mais), até o Sandman de Hoffmann e a Eva futura, de August Villiers - só pra citar alguns de uma infinita lista. O que essas histórias têm em comum? Todas falam do desejo masculino de criar uma mulher  perfeitamente controlada e obediente. Um tipo de brinquedo que seja uma mulher em aparência, mas que permaneça passiva e incapaz de qualquer tipo de julgamento. Um esforço que pode ser reduzido à noção de controle: Antony Ferguson no seu The sex doll: a history afirma, nessa perspectiva, “que a boneca sexual feminina é a última mulher sexualmente idealizada pelo homem”. Última, significa, no caso, melhor, superior. A mulher de brinquedo quase sempre é prometida como uma mulher perfeita porque, radicalmente passiva, ela é inocente, imóvel, confiável “e talvez o mais importante, silenciosa”. Com ela o homem adquire completo controle das relações e assume o seu velho papel de macho.
O número de empresas ao redor do mundo investindo dinheiro para desenvolver e aprimorar os brinquedos sexuais é muito grande e aponta para a importância ética e existencial dessa questão. Onde habitam nossos medos também crescem nossos fetiches. Necrofilia, galateísmo, pigmalionismo, estatuafilia, amaurofilia, sonofilia... são palavras cuja carga etimológica remete a heranças antigas e despertam hoje o interesse de muitos pesquisadores do pós e do trans-humanismo em seu projeto de aperfeiçoamento tecnológico do ser humano. A promessa de uma vida sexual gloriosa faz parte da busca pela felicidade. Mudaram os brinquedos, é verdade, mas a base psicológica desse desejo continua a mesma.

PS. Ah sim, já ia me esquecendo de falar da crise brasileira: gente, vamos fazer amor?