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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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quinta-feira, 8 de setembro de 2016




Não sei quanto a você, mas olhando as listas de candidatos e as pesquisas de opinião sobre a corrida eleitoral para as prefeituras das cidades brasileiras, a primeira pergunta que vem à mente é: para onde foi aquela vontade de mudança que mobilizou milhões há poucos meses? O cenário é desolador: com raras exceções (custa-me apontar exemplos), os preferidos pertencem às velhas oligarquias, às famílias tradicionais, aos partidos de sempre. As listas poderiam ser resumidas aos “filhos de fulano”, “parente de ciclano”, “ex isso”, “ex aquilo”, “acusado disso”, “acusado daquilo”. A persistir o atual cenário de preferências, tudo seguirá como sempre foi. Somado ao cenário federal, seus rapaces e usurpadores, as bases da atual política parecem de fato corrompidas. Nem sequer uma das leis mais importantes do país foi poupada: a Lei da Ficha Limpa, disse a autoridade suprema, foi “feita por bêbados”. Bispos da CNBB e advogados da OAB estavam embriagados quando coletaram milhões de assinaturas para a quarta lei de iniciativa popular desde 1988 e uma das mais importantes contra o caruncho que rói a democracia.
Falo como cidadão. Leio os sinais. Depois de muito esforço, o congestionamento de faixas e bandeiras na avenida verde-amarela, foi interpretado como “vontade de mudança”, embora ninguém tenha entendido exatamente para que lado as coisas deveriam pender. Mudar por mudar, parecia o refrão evidente, palatável à salada mista das ruas. Lema retomado por marqueteiros, aqui e ali, para dizer o óbvio: que mudança, assim, com hora marcada e sob encomenda, só tem um objetivo – deixar as coisas como sempre estiveram. “Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude. Fui claro?”, pergunta Tancredi, no romance Gattopardo, de Tomasi de Lampedusa. Atualíssimo.
No dicionário, mudança significa deixar um lugar ou algo em troca de outro. Por isso, está implícita na sua semântica, tanto a ideia de remover, quanto a de substituir e de transferir. Isso implica algum tipo de escolha e, consequentemente, de finalidade: mudamos quando temos outra opção, quando uma coisa pode ser colocada no lugar de outra. Mudar, em termos políticos, é assumir outras propostas, admitir outros valores, regras e compromissos. Ingênuo quem pensa que não. A mudança em si é um conteúdo vazio. Há sempre algo que ocupa lugar no espaço. As democracias, por isso, inventaram as eleições e, sobretudo, as campanhas eleitorais, que são o modo de mostrar à população qual novo projeto está em questão e de fazer a mudança acontecer de forma responsável. Democracia é, por si mesma, pelo menos em tese, o regime da mudança esclarecida – embora com Maquiavel ela tenha aprendido a arte de mostrar mais do que se é e esconder mais do que se deve. Sendo assim, a democracia será mais forte quanto mais a população compreender os aspectos que estão em jogo quando uma mudança está em curso. Democracia é o regime da demora. Não é como golpe, mobilizada por urgências e imediatismos, cuja função é deturpar os fatos e esconder os argumentos. 
No nosso caso, aos poucos, sob o silêncio resignado das panelas, em seu dever cumprido, desvelam-se os interesses escusos sob o discurso da mudança, obnubilados pela febre de patriotismo patrocinada por Cunhas e demais rapinantes do Congresso e cimentada pela manipulação da mídia, sedenta por bodes expiatórios a todo custo. Agora, o projeto há muito engavetado (porque não escolhido em pleito eleitoral) sai à luz, sem nenhum verniz. No lugar do que se foi, entra o que nunca foi, porque sempre permaneceu na penumbra. O seu rosto? O desavergonhado corte dos direitos trabalhistas, o cancelamento das políticas públicas, o cerceamento das liberdades de manifestação e as privatizações infrenes. A mudança trouxe o que de mais velho e mofado existe em termos econômicos e políticos.

Não pode ser! Ainda há tempo. Enganados se desenganem. O Brasil que nasce das listas do Ibope e do Datafolha não tem nada de novo. Ele surrupia qualquer vontade de mudança. Ou testemunha que, no fundo, ela não passou de um ato irresponsável de enraivecidos que colocaram as ancas no sofá para assistir a derrocada de um país. Insisto: Não pode ser! Ainda há tempo.




3 comentários:

Unknown disse...

Muito bom! Parabéns!!
Você foi capaz de dizer o que lamentamos. Como pode um desejo de "mudança", caminhar para trás,para fazer emergir os morto vivos que pensávamos mais morto do que vivo.

Jelson Oliveira disse...

Verdade: como pode?

Lean Bilski disse...

Jelson, como é difícil entender tudo isso. E o que mais me surpreende (e entristece) nesse momento, é ver que não só alguns velhacos estão clamando pelos retrocessos, ditadura e coisas afins, mas diversos jovens entraram na mesma batida de panelas.
De fato, será difícil não lamentar os resultados das eleições que estão por vir.
Parabéns pelo blog!
Abraço