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QUEM SOU

Professor de Filosofia, gosto da palavra, que vem em forma de vivência, depois reflexão e, por fim, escrita (ou seria tudo junto, ao mesmo tempo?). Escrevo artigos, ensaios, livros e poemas. Abasteço meu pensamento em autores como Nietzsche, Schopenhauer e Hans Jonas e tento pensar sobre problemas que nos afetam sob esses espaços infinitos que nos ignoram.

Entre meus livros, estão os 3 volumes da Coleção Sabedoria Prática ("Sabedoria Prática", "Filosofia da Viagem" e "Elogio à Simplicidade", que já estão na terceira edição). Ano passado lançamos, Marcella Lopes Guimarães e eu, a Coleção Café com Ideias, cujo primeiro volume é "Diálogo sobre o Tempo: entre a filosofia e a história". Você pode encontrar no site: www.livraria.pucpr.br

Além disso escrevi "A solidão como virtude moral em Nietzsche"; "Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche" e "Compreender Hans Jonas". Sou co-autor de: "Ética, técnica e responsabilidade"; "Vida, técnica e responsabilidade"; "Ética de Gaia"; entre outros.


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quinta-feira, 21 de abril de 2016





Dizem que hoje é o dia da Terra. Quando foi vista pela primeira vez, de fora, toda barriguda de azul, essa mocinha causou o maior espanto. Viraram lentes e holofotes para ver a configuração do frágil equilíbrio que vaga, errante, no meio da sombra. No contraste, houve quem duvidasse da força. Rodando no escuro, cercada de vazio por todos os lados, sentença pregada ao corpo na forma de um medo, o nome da Terra é perigo.    
Quando Sófocles cantou as maravilhas do homem naquele coral de Antígona, falou de carros e cavalos fertilizando os solos, dos engenhos e redes capturando os bichos, dos jugos infatigáveis sob o dorso agreste do planeta. Não falou nada, porém, o poeta trágico, sobre as fragilidades da terra. Não falou da corrosão das montanhas, da erosão dos rios, dos desertos sem chuva, da morte das águas, das extinções de gentes e bichos, do canário sem isca, da semente sem limo, dos gases pesados, da morte da fruta, da fome, da praga, do horizonte cáustico, ano a ano... Não falou das fumaças de Pequim, das fomes da África inteira, dos degelos do Ártico, da Amazônia em chamas, dos óleos derramados nos golfos, da exploração das minas, da infertilidade do solo, das chaminés das fábricas, dos venenos das lavouras. Vazou louvores à audácia do homem e suas venturas de senhor ditoso, acima das feras. Não viu, contudo, o que as ocorrências de agora tornam evidente: a Terra é uma emergência ética. Gravidez é gravidade.
Agora, as fotos que emocionaram Caetano, na sua Terra, desvelam a nossa, em meio à desolação. Aquele silêncio que assombrou Pascal, no setecentos, encontrou seu motivo, afinal: acima de nós, tudo está morto! Aqui, a vida é uma exceção. E  navega arriscada, na aventura de castanheiras e colibris, curimbatás e piaparas, mariposas e rinocerontes, contra os quais o homem, exaltado em seu poder, expande suas divisas na forma de ingerências. A catástrofe soma dois bilhões de hectares de solo deteriorados, o que equivale a dois terços das áreas agrícolas do mundo; mais de onze mil espécies de seres vivos em risco de extinção por causa da destruição dos ecossistemas onde vivem; quase trinta por cento dos corais marinhos, berçários da vida, destruídos; mais de cem mil substâncias químicas perigosas produzidas por resíduos industriais. Ao nosso redor, boiam como infâmias, pneus, isopores, pilhas, fraldas descartáveis, sacolas plásticas, garrafas, óleos, detergentes, tintas, computadores e todos os nossos dejetos. Nós? Continuamos coando mosquitos e engolindo camelos.
Não satisfeitos com o prejuízo, desejamos mais, compramos mais. Fizemos da gula, a nossa virtude central e nosso primeiro dever cívico. O vício antigo conta agora com a indulgência geral e já não incomoda. O desperdício do muito e a ostentação do ridículo faz parte, agora, da dieta socioeconômica. Tudo é consumido com a voracidade das grandes batalhas e a avidez de adâmicos desejos. Vazios de nós e empanzinados de coisas, incentivamos a produção em larga escala, para a qual precisamos destruir florestas, queimar petróleo, espalhar poluentes, escravizar pessoas - conhecemos o processo de cor, mas quem se importa? Queremos o riso fácil em todas as janelas.
Hans Jonas apelou para a responsabilidade. Depois dele, fizemos conferências várias, cartas e protocolos, burocracias de muitos tamanhos. Fundamos movimentos, delatamos os vizinhos, conclamamos aos valores. Fomos ao Rio, a Roma, a Kyoto e a Paris. A Terra, nossa causa suprema, contudo, está aí, unanimemente agredida, todos os dias, sob os nossos pés, na espiga de nossas carnes, embaixo das nossas unhas. Dividida em fronteiras, batizada de muitos nomes, sangrada de muitos jeitos.

No dia da Terra, só uma coisa poderia salvá-la: freios voluntários, cautela, precaução, modéstia, simplicidade ou qualquer outro nome que queiramos dar às nossas urgências. Também aqui Hans Jonas, tem razão: “para deter o saque, a depauperação de espécies e a contaminação do planeta que estão se desenvolvendo a toda velocidade, para prevenir um esgotamento de suas reservas, inclusive uma mudança insana no clima mundial causada pelo homem, é preciso uma nova austeridade em nossos hábitos de consumo”. Precisamos urgentemente impor freios à arbitrariedade intolerável do capitalismo licencioso que está destruindo a casa que é nossa – e que é a única. Só uma nova humildade, derivada agora da coragem de conter a excessiva grandeza de nossos poderes, poderá nos salvar da mais perigosa das tentações: pagar o presente com o preço do futuro.




2 comentários:

Vilma Ribeiro de Almeida disse...

Jelson, sempre nos fazendo refletir. Salve a terra!

Vilma Ribeiro de Almeida disse...
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